Filhos geram impactos produtivos na carreira das mães, mas Brasil ainda precisa avançar no tema
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Filhos geram impactos produtivos na carreira das mães, mas Brasil ainda precisa avançar no tema

POR BÁRBARA VETOS

Enxergar os filhos como uma potência na contratação e inserção de mães no mercado de trabalho pode ajudar a ressignificar a carreira de muitas mulheres que se veem atingidas pelo desemprego ou pelo baixo crescimento profissional. De acordo com Michelle Levy Terni, CEO da consultoria Filhos no Currículo, habilidades como liderança, empatia, produtividade e gestão são algumas das mais desenvolvidas pelas profissionais quando elas passam, também, a cuidar de uma criança.

“Os filhos podem ampliar a visão de mundo e agregar no currículo dessas profissionais à medida que elas desenvolvem novas habilidades e se aprimoram em temas socioemocionais no exercício diário da criação”, defende a especialista.

No entanto, ainda hoje no Brasil, empresas veem filhos como empecilhos ou um fator impeditivo para a contratação e inserção de mulheres no âmbito corporativo. De acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), dentre as 247 mil mães analisadas no levantamento, quase metade delas foram demitidas após aproximadamente dois anos da licença-maternidade. “Eles acreditam que essa pessoa vai voltar com uma disponibilidade menor, atenção dividida e produtividade impactada”, explica Terni.

Grávida. E demitida

No caso de Caroline Tomaz*, de 25 anos, a demissão foi feita antes mesmo de o bebê nascer: com apenas 15 dias após ter descoberto e anunciado a gravidez na empresa em que trabalhava como assistente de licitações. Muito antes de receber parabéns, ouviu de sua supervisora: “Tudo bem, né? Quando a gente contrata mulher, a gente corre esse risco mesmo. O que você vai fazer?”

A assistente conta que as alegações para a demissão foram diversas, desde um suposto contrato temporário que teria expirado até que ela não tinha apresentado exames suficientes para comprovar a gestação – apesar de ter tudo documentado. No fundo, ela sabia que o motivo ainda estava em seu ventre.

Assim como sua gravidez não foi planejada, seu desligamento também não. “Meu mundo acabou ali”, relata Tomaz, “eu me coloquei no lugar de culpa”. A combinação de ambas as notícias desencadeou sintomas de ansiedade.

A jovem conta que enfrentou um misto de sentimentos. Por um lado, se angustiava pensando no que faria desempregada e com um bebê a caminho. Por outro, não deixava de se indignar com o comportamento adotado pela empresa. “Eu pensava, ‘qual é o problema de eu ter um filho? O que a gravidez atrapalha na minha competência enquanto funcionária?’”

Terni analisa que a consequência dessas atitudes é uma sociedade composta por mulheres que se sentem emocionalmente fragilizadas, não reconhecidas e que têm dificuldade de retomar sua carreira. “Elas são retiradas da sociedade e acabam ficando à margem depois dos filhos.”

Decisão judicial não foi suficiente para reverter cenário

Dois meses após ter sido dispensada, Tomaz decidiu entrar na Justiça em busca de seus direitos. Em sentença favorável a ela, a condição dada à empresa foi de reintegrá-la à equipe ou pagar seus direitos. Apesar de terem deixado claro que não tinham intenção de contratá-la novamente, seus chefes acabaram decidindo por chamá-la de volta.

O retorno ao trabalho ainda grávida, em fevereiro, foi tão traumático quanto a saída. Segundo a jovem, as outras pessoas pareciam não só ignorar o assunto como evitá-lo. Além disso, já havia sido contratado um funcionário para ocupar o seu lugar e não existe trabalho suficiente para dois.

“As pessoas não conversam muito comigo. Antes tinha uma troca maior, minha supervisora me passava diretamente o que eu precisava fazer”, explica Tomaz. Hoje, as tarefas sempre chegam a ela por terceiros. “Fica esse telefone sem fio. Eu sou meio que um fantasma ali, é bem claro que eu só voltei por uma decisão judicial.”

Ela conta que, por mais que soubesse que a empresa poderia optar por tê-la de volta em seu quadro de funcionários, a indiferença com que tem sido tratada faz com que ela tenha crises de ansiedade. No trabalho, sua pressão se altera devido ao nervosismo. A questão a preocupa, visto que sua gravidez é considerada de alto risco por pré-eclâmpsia – hipertensão gestacional. No momento, Tomaz se encontra em licença de saúde, por conta do risco associado à sua condição.

Contratação e inclusão de mulheres ainda é estigma nas empresas

Sua angústia também se estende à incerteza do futuro após o nascimento do bebê e fim da licença-maternidade – a qual ainda não solicitou. No cenário atual, ela imagina que será dispensada pela empresa assim que for legalmente possível. “Eles não vão querer ficar comigo, ainda mais por ser um homem que está no meu lugar”, desabafa.

Em muitas empresas, questões de gênero ainda ditam o posicionamento de lideranças e gestores. O medo de Tomaz é que essas barreiras se perpetuem em seus próximos empregos. Por isso, tem procurado por outras formas de trabalho que não se enquadrem no regime CLT.

De acordo com a CEO da Filhos no Currículo, por questões culturais o homem é reconhecido como provedor e a mãe como cuidadora, visão que acaba sendo refletida pela legislação quando uma licença-maternidade é superior a uma licença-paternidade no Brasil, por exemplo. “Isso reforça a falta de isonomia e a ideia de que contratar uma mãe é oneroso para a organização.”

Na opinião da jovem, é nítida a diferença na reação das pessoas quando um casal anuncia que terá um filho. Enquanto o pai é parabenizado, a mãe é questionada se vai conseguir conciliar a vida pessoal com a profissional.

Licença parental e o papel das empresas

Para Terni, o Brasil ainda tem muito a avançar na pauta de licença-paternidade e em sua ampliação. “As discussões sobre licença parental universal trabalham nessas diferenças, impactando positivamente na isonomia dos benefícios oferecidos para todas as figuras parentais”, explica.

Assim, contratar um pai ou uma mãe teria o mesmo impacto. A especialista defende que esse tipo de medida diminui a desigualdade de gênero e a dificuldade de mulheres reingressarem no mercado de trabalho depois dos filhos.

Ela ressalta que, apesar da necessidade de mudança na forma como as mulheres são vistas no mercado de trabalho, algumas empresas já têm demonstrado preocupação em considerar a realidade dessas profissionais, entendendo que investir no tema traz um reflexo positivo na cultura do negócio. Também é uma forma de adotar práticas ESG de equidade de gênero.

Para Tomaz, foi o que faltou para a empresa em que trabalhava. “Eu gostaria de ter sido tratada com mais empatia”, comenta a assistente. “Tenho certeza de que sempre fui muito competente no meu trabalho e queria que isso tivesse sido levado em consideração.” Ela lamenta não ter sido acolhida nesse momento em que está gerando uma vida e que, mais do que nunca, precisava do apoio de seus gestores.

*O nome foi alterado para preservar a identidade da profissional.

Licença paternidade no Brasil e no mundo

Desde 1988, a Constituição brasileira garante a licença para figuras paternas – mas por um período de apenas cinco dias. Poucas são as empresas que desenvolvem um modelo próprio de licença, que ultrapasse o período exigido por lei e atue de forma mais igualitária.

A fim de acelerar o processo de revisão da lei, grupos como a Filhos no Currículo e a Coalização Licença-Paternidade (CoPai) têm se unido para defender uma licença-paternidade estendida e remunerada como já existe em outros lugares do mundo. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, 76% dos brasileiros acreditam que esse direito deveria ser ampliado. Ao mesmo tempo, 83% também concordam que a licença-maternidade deveria aumentar de 120 para 180 dias.

De acordo com levantamento da Divisão de Políticas Sociais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países com melhores políticas de licença parental para casais hétero e homossexuais são Nova Zelândia, Austrália, Islândia e Suécia.

Na Austrália, pais biológicos ou adotivos de crianças têm direito a um modelo de licença compartilhada de 20 semanas. Ambos podem solicitar e dividi-la da forma que preferirem. Ainda na Oceania, a licença parental é permitida até 26 semanas na Nova Zelândia.

A Islândia concede seis meses de licença a cada um dos pais, enquanto na Suécia, eles têm direito a 480 dias de forma conjunta.

Foto: Freepik
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