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Ambiente corporativo pode ser incubadora para manter-se competitivo e ter inspiração para inventar as melhores ideias

O espaço de trabalho ideal de Martha Choe não é sua sala particular, por mais bacana que seja, mas uma mesa longa e estreita no grande átrio da sede da Fundação Bill & Melinda Gates.

Localizada num mezanino aberto de dez metros de altura, a mesa recebe grandes faixas da luz do dia através do vidro do átrio e tem uma visão impressionante da torre Space Needle, a três quadras de distância. Não é particular nem silenciosa, mas Choe tem tudo de que precisa dentro do laptop e ela considera o espaço inspirador.

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Ela aponta outra atração: "Aquela é a camisa de Nelson Mandela na parede atrás da mesa".

Área informal nos corredores da fundação Bill & Melinda Gates na cidade de Seattle, nos EUA: espaço de trabalho do século 21 exalta o ruído do ambiente e a luz exterior
Stuart Isett/The New York Times
Área informal nos corredores da fundação Bill & Melinda Gates na cidade de Seattle, nos EUA: espaço de trabalho do século 21 exalta o ruído do ambiente e a luz exterior

Choe, que fazia parte da câmara de vereadores local, é a diretora administrativa da fundação e opinou bastante sobre o projeto do prédio. Desde o começo, um dos objetivos era dar aos mil funcionários uma variedade de espaços para acomodar diferentes tipos de trabalho.

"Existe o reconhecimento de que trabalhamos de maneiras diferentes e criamos espaços para abrigá-los. Uma das lições é compreender seu negócio e as coisas de que os empregados precisam para ter o melhor desempenho."

O prédio foi projetado pela NBBJ, empresa de arquitetura com 700 funcionários que atua principalmente em Seattle. A estrutura é a culminação de ideias sobre a área de trabalho no século XXI que a NBBJ vem explorando em prédios de escritórios corporativos no mundo inteiro, incluindo os seus próprios.

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Estes são os conceitos principais: Zumbido, barulho de conversas e agitação é bom. As salas particulares e expressões de hierarquia têm valor discutível. Menos espaço por trabalhador pode ser inevitável para a relação de custo-eficácia, mas ela pode ressaltar o ambiente de trabalho, não degradá-lo. Muita luz do dia é indispensável. Encontros casuais produzem energia criativa. E mobilidade é essencial.

Não se trata de uma tendência explosiva repentina. Segundo uma pesquisa da NBBJ, dois terços dos escritórios dos Estados Unidos têm algum tipo de configuração aberta. Contudo, embora esse design economize espaço e dinheiro dos empregadores, ele pode fazer o funcionário se sentir como gado. Então, como humanizar o ambiente?

Seattle funciona como tubo de ensaio por causa de vários fatores convergentes. Existe muito dinheiro aqui para experimentar com projetos. A mão de obra é relativamente jovem e aberta à inovação. E a cultura local valoriza muito a informalidade, a autonomia e o igualitarismo. As pessoas trabalharão muitas horas sob pressão caso se sintam respeitadas, mas não tolerarão serem tratadas feito Dilberts.

A maioria dos funcionários de escritórios em Seattle e outros lugares trabalha em ambientes muito menos inspiradores do que o de Choe. E a maioria dos empregadores tem muito menos para gastar e tornar as coisas agradáveis. (Bill e Melinda Gates colaboraram pessoalmente com US$ 350 milhões do custo de US$ 500 milhões do campus.) Porém, manter-se competitivo exige inventar as melhores ideias e o ambiente do escritório pode ser sua incubadora.

Martha Choe em seu escritório na fundação Bill & Melinda Gates: mezanino com dez metros de altura
NYT
Martha Choe em seu escritório na fundação Bill & Melinda Gates: mezanino com dez metros de altura

A NBBJ ocupa dois andares de 3.500 metros quadrados num prédio de escritórios de tamanho médio que projetou em 2006. Os arquitetos costumam passear com os clientes para mostrar como um ambiente aberto funciona.

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Não existe nenhuma sala particular ou baia em nenhum lugar. E sempre existe algum alvoroço: são as pessoas se movimentando e se reunindo em grupos pequenos. O passeio deixa alguns clientes nervosos; eles se perguntam como seus funcionários iriam se concentrar num ambiente desses.

As pessoas se adaptam, garantem os arquitetos.

"Existem espaços para você se refugiar", diz Eric LeVine, arquiteto da NBBJ. "Ou você se curva sobre a mesa, ou pode colocar os fones de ouvido e as pessoas verão que devem deixá-lo em paz."

Brent Rogers, outro arquiteto da empresa, acrescenta: "Quem quer privacidade dá sinais disso. Você se torna mais sensível à linguagem corporal num ambiente de trabalho aberto".

Nem todos os clientes corporativos da NBBJ pularam atrás do trio elétrico da informalidade e do zum-zum-zum. Quando a R.C. Hedreen Company, incorporadora imobiliária de Seattle, encomendou a reforma de um andar de mil metros quadrados num antigo prédio de escritórios no centro, há cinco anos, ela especificou um perímetro de salas particulares. Os espaços colaborativos servem para o trabalho criativo em equipe, mas as salas tradicionais permanecem sendo o porto de origem dos executivos.

Confira alguns dos escritórios:

"Individualmente, boa parte do dia de trabalho é consumida em tarefas executadas trabalhando-se sozinho em salas particulares", disse David Thyer, presidente da Hedreen.

Susan Cain, autora de "Quiet: The Power of Introverts in a World That Can't Stop Talking", (Silêncio: o poder dos introvertidos num mundo que não para de falar; inédito no Brasil), é cética em relação a ambientes de trabalhos abertos - tanto para introvertidos quanto para extrovertidos, embora afirme que o primeiro grupo sofra muito mais entre o barulho e a agitação.

Segundo ela, os introvertidos se sentem por natureza mais confortáveis trabalhando sozinhos, assim eles se viram negociando um horário para trabalhar em casa ou se isolando com fones de ouvido para barrar o ruído - "o que é uma espécie de exigência maluca para um ambiente de escritório, se pensarmos nisso", diz ela.

Cain também afirma que os humanos têm a necessidade fundamental de reivindicar e personalizar o espaço. "É a sala de uma pessoa. Suas fotografias estão na parede. É o mesmo motivo para termos casas. São zonas de segurança emocionais."

O campus da Fundação Gates abordou algumas dessas preocupações. Seus executivos começaram com a proposta de que 70% das salas fossem fechadas. Em colaboração com a NBBJ, o modelo evoluiu para uma mistura de 60% abertas e 40% fechadas, com diversos espaços de "retiro" abertos e fechados, permitindo que personalidades diferentes encontrem os ambientes de trabalho necessários.

O campus ocupa cerca de cinco hectares numa área valorizada ao lado da Feira Mundial de Seattle, de 1962. Ele contém dois prédios em formato de bumerangue cobertos de vidro e pedra calcária europeia, e um enorme pátio privado com esculturas e jardins aquáticos.

Reportagens publicadas nos jornais locais online provocaram comentários de leitores divididos igualmente entre a admiração pelo design e crítica a uma fundação sem fins lucrativos que gastou meio bilhão de dólares em si mesma.

Contudo, os funcionários da fundação "estão trabalhando em problemas muito complicados e opressivos", diz Kelly Griffin, arquiteta da NBBJ, assim o objetivo era um edifício que tornasse as pessoas mais interativas e produtivas.

Steve McConnell, sócio-diretor da NBBJ, sustenta que a transparência dos bumerangues é seu principal atributo. Os funcionários da Gates costumam viajar pelo mundo; pesquisas mostram que a exposição aos ciclos da luz diurna ajuda as pessoas a se recuperar mais rapidamente do jet lag. As pessoas circulam ao longo dos corredores do perímetro com paredes revestidas de vidro que dá para o pátio; o movimento constante anima o complexo inteiro.

As escadas estão posicionadas para terminar em pontos de encontro com cafés, copiadoras e agrupamentos com mobília informal, para que empregados de departamentos diferentes possam desfrutar de encontros ao acaso. Todos podem se movimentar livremente pelo campus, trabalhando onde quiserem. Todos os laptops são equipados com uma plataforma da Microsoft que permite a troca instantânea de mensagens, telefonemas e videoconferência, além de ferramentas para encontrar pessoas.

Quando o tempo está bom, centenas de trabalhadores migram para os diversos cenários no pátio - projetados pelos paisagistas da Gustafson Guthrie Nichol, de Seattle. Outros pontos preferidos são o átrio barulhento e as "divisórias", silenciosas em contraste - o fim dos corredores se projeta no espaço cercado nos três lados por vidro do chão ao teto e mobiliado com apenas algumas cadeiras.

Uma amostra da opinião dos funcionários comprova que as pessoas usam e apreciam as opções. "Talvez o simples fato de passar do lugar habitual para outro local interessante, talvez seja esse vidro ao redor, muda as perspectivas sobre o que é possível", afirma Alan White, subdiretor da gerência de operações do programa dos EUA da fundação.

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