Werner Roger
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Werner Roger

Desde seu início, o objetivo da Trígono Capital é focar investimentos nas small caps , empresas de menor valor de mercado. A longo prazo, são elas que proporcionam os maiores retornos.

Fizemos uma live a respeito de small caps , desmistificando a crença de que o retorno dessas empresas é maior porque maior é o risco envolvido. 

Risco depende de quem é o gestor e de como ele realiza seus investimentos, não de a empresa ser maior ou menor em valor de mercado.

Algumas grandes gestoras, por não conseguirem atuar nesse nicho – em razão do próprio tamanho, mas também por incapacidade técnica –, abrigam-se na proteção dos índices. 

Para evitar riscos de performar abaixo dos índices de referência, investem nas empresas maiores e mais líquidas, e explicam a seus investidores que tal escolha se deve ao risco excessivo envolvido nas small caps. Será?

Voltamos sete anos, até 30 de dezembro de 2013, para conferir. Verificamos o valor de mercado, à época, de empresas então típicas small caps e de outras maiores, fora desse universo:

Apresentamos a variação nominal de valor de mercado e, na última coluna, a valorização das ações considerando a adição dos dividendos recebidos no período.

Baseados nesses simples exemplos, é possível dizer que as empresas small caps serão de maior risco? 

Essas são algumas amostras, mas não são nem de longe as únicas. 

Conferindo: a Petrobras teve valorização de 90% nos sete anos considerados – muito abaixo da das small caps apresentadas. 

A Ambev , símbolo de empresa bem gerida, líder absoluta de mercado, controlado por excepcional grupo de empresários e investidores, rendeu 14,2% em sete anos – e se trata de ação obrigatória em todos os índices e gestores de large caps. 

Ultrapar , cujo nome já enaltece a empresa, considerada uma das de melhor gestão, com negócios de baixíssimos riscos, rendeu negativamente 0,2%, ou zero.    

Pois bem: um gestor ou fundo avesso a small caps estaria renunciando a essas empresas hoje, e se alguém fizer, daqui a sete anos, o mesmo levantamento que fizemos, a situação se repetirá.

Várias small caps de hoje terão uma valorização muito maior do que as large caps ou blue chips atuais. E estaria cheio de Ambev, Ultrapar, Petrobras e BR Foods. Façam a sua escolha. 

Um fator bastante importante é o tamanho das gestoras e dos fundos. 

Basta verificar o desempenho das grandes gestoras para observar que seus fundos não estão entre os de melhor desempenho – o mesmo valendo para os fundos.

Quanto maior o tamanho, maior a dificuldade em mudar de posição, com elevado custo de transação, pois a venda ou compra de grandes volumes acabam impactando os preços das ações. 

Ou seja: quanto menor a liquidez das ações , maior o impacto provocado por grandes operações de compra e venda. 

Eis porque grandes gestoras e fundos evitam small caps. Mas fica mais “lógico” citar o mito do risco. 

Podemos também observar fundos que, ao longo de sua história, acumulam excelente desempenho, mas o alfa anual gerado vai-se estreitando à medida que o fundo cresce. 

Na avaliação da performance, isso acaba por passar despercebido, e os gestores ou fundos que geraram tal desempenho, especialmente nas fases iniciais (quando os fundos eram bem menores e as estratégias bastante diferentes, e até os gestores e equipes de investimento) acumularam uma reputação tal que, mesmo sem desempenho superior em anos mais recentes, continuam a receber o crédito pelo desempenho positivo de anos antes. 

Lembremos: desempenhos diferenciados no passado não beneficiam os novos investidores em tempos atuais nem, por falar nisso, os antigos que mantêm seus investimentos pela satisfação histórica – estes seguem aquele famoso ditado: em time que está ganhando não se mexe.    

A Trígono, desde o início, adota a estratégia de não crescer a qualquer preço e estabelecer capacidade (ou seja: limitar o tamanho dos fundos de acordo com o prazo de resgate). 

Dessa forma, como o Fundo Trígono Flagship Small Caps cresceu rapidamente entre o final de 2019 e o início de 2020, devido ao seu excepcional desempenho (que foi o que motivou grande parte de investidores a entrar e de consultorias e assessores a recomendarem), decidimos fechar o fundo para captação no FIC (Fundo de Investimentos em Cotas) com prazo de resgate de 30 dias e abrir outro, com prazo de 60 dias. 

O teto de tamanho do patrimônio do fundo estabelecido para 30 dias era de R$ 250 milhões, na nossa avaliação. 

A pandemia e a crise (e os resgates), no entanto, fizeram com que o fundo mal chegasse aos R$ 200 milhões. 

Para investidores não familiarizados com essa estrutura, o FIA (Fundo de Investimento em Ações) abriga as ações numa única carteira. Já o FIC investe nos FIAs. 

Assim, estes, de 30 ou 60 dias para resgate, investem no mesmo FIA que abriga as ações. 

Ambos os FICs, portanto, investem na mesma carteira (a diferença fica apenas nos prazos de resgate). 

À medida que o FIA aumenta seu patrimônio, a gestora, de forma discricionária, pode fechar o FIC para resgate, abrindo ou não um novo com prazo de resgate mais longo. 

Quando houve o fechamento do FIC D+30 e foi aberto o FIC D+60, os sócios haviam resgatado metade de seus investimentos 30 dias antes do fechamento; com os recursos do resgate, realizaram os investimentos iniciais no novo fundo de 60 dias. 

Ou seja: patrocinamos o novo fundo, sacrificando nossa liquidez pessoal em benefício dos novos investidores no FIC D+60.     

Você viu?

Mas voltemos ao título desta coluna. Tamanho não é documento. 

Há inúmeros exemplos na história, o mais famoso talvez aquele contado pelo profeta Samuel sobre o pequeno Davi, que desprovido de armadura ou espada derrotou o gigante Golias. 

Com uma atiradeira, Davi lançou a pedra que acertou a testa de Golias e este, uma vez derrubado, foi por ele decapitado (e, para fazer isso, Davi usou a própria espada do inimigo). 

Observamos em nosso mercado gigantes serem superados por pequenos. Small is beautiful: o que isso tem a ver com o Davi bíblico?

Como nossos leitores já bem conhecem, esclareceremos isso com um pouco de História. 

A expressão Small is Beautiful dá título ao livro de Ernst Friedrich Schumacher (1911-1977) publicado em 1973. Seu subtítulo: A Study of Economics as if People Mattered.

No Brasil foi publicado com o título O negócio é ser pequeno (sem o subtítulo) em 1979 pela editora Zahar, e a tradução para o português baseou-se na 6ª edição do original, de 1976. 

O que vamos dizer a seguir tem muita relação com a ESG (sigla em inglês de melhores práticas ambientais, sociais e de governança) – mas trata de eventos de pelo menos 70 anos atrás, muito antes de a sigla ser criada, e pasteurizada.

Schumacher nasceu em Bonn em 1911, filho de um professor de política econômica. Estudou inicialmente em Bonn e Berlim e, após receber a prestigiosa bolsa Rhodes (Rhodes Scholarship), em 1930 iniciou a pós-graduação na Universidade de Oxford (Reino Unido) e continuou a estudar na Universidade de Columbia (Nova York, EUA). 

Nesses lugares, ombreou com alguns dos mais destacados intelectuais, estudiosos e políticos de sua época.

O cunhado de Schumacher foi Werner Heisenberg, que ganhou o prêmio Nobel de Física de 1932 por seus estudos de mecânica quântica – que levaram à descoberta das formas alotrópicas do hidrogênio. (A alotropia – do grego ἄλλος, que significa “outro, diferente” – é o fenômeno em que um elemento químico pode gerar duas substâncias simples e diferentes, como carbono e oxigênio.)

Por ocasião da 2ª Guerra Mundial (1939 - 1945), Hitler se interessou pela bomba atômica. Heisenberg, que nunca se filiou ao Partido Nazista e era contra o crescente antissemitismo, pensou em abandonar a Alemanha com a chegada dos nazistas ao poder em 1933, mas seu amigo Max Planck – também ganhador do Nobel de Física (1918) – o convenceu a ficar, de forma a preservar a cultura alemã e sua excelência acadêmica (ambas fortemente golpeadas com a expulsão de intelectuais e cientistas judeus). 

Em 1957, Heinsenberg participou do desenvolvimento do primeiro reator nuclear alemão e foi diretor do Instituto Kaiser Wilhelm para Física, posteriormente renomeado Instituto Max Planck.

(Que nos perdoe o prezado leitor por nos alongarmos nos fatos históricos, mas Heisenberg tornou-se presidente da Fundação Alexander Von Humboldt, nome da escola em que estudei. Não pude deixar de aproveitar essas conexões para homenagear minha querida escola).

Voltando ao tema: Schumacher retornou com sua família à Inglaterra em 1937, fugindo da Alemanha hitlerista. Iniciada a 2ª Guerra, Schumacher perdeu o emprego e, por ser alemão, foi preso por três meses. 

Libertado, viveu os quatro anos seguintes como trabalhado rural – e sem eletricidade, água corrente ou gás. Mas continuou a escrever artigos acadêmicos para complementar sua magra renda.

Um de tais artigos (Multilateral Clearing), publicado em 1943, chamou mesmo a atenção de John Maynard Keynes (ele e Schumacher já se haviam encontrado em 1929), de quem falamos em colunas recentes. 

O artigo Multilateral Clearing trata do sistema de liquidação de operações financeiras envolvendo bancos, agentes, países e bolsas de valores, peças fundamentais no funcionamento da economia do sistema financeiro mundial.

Terminada a guerra, Schumacher teve papel importante como assessor econômico na reconstrução da Alemanha. 

Entre 1950 e 1970, foi economista-chefe do National Coal Board (Junta Nacional do Carvão) do Reino Unido – uma das maiores organizações na época, que chegou a contar com 800 mil funcionários –, criado com a estatização do setor carvoeiro pelo governo britânico em 1946. Sendo então o aquecimento global um fenômeno desconhecido, Schumacher defendia o uso de carvão como principal fonte de energia do mundo e condenava o petróleo – que, segundo ele, atingiria preços exorbitantes e estava localizado em regiões instáveis e sujeitas a conflitos políticos. 

Schumacher também previu o surgimento da Opep e problemas relacionados à energia nuclear. Realmente um visionário.

Pensando fora da caixa 

Em 1955, Schumacher foi a Burma (atual Myanmar) como consultor econômico, onde desenvolveu os princípios da Economia Budista.

O nome é exótico, e o conceito também: este seria o estudo da economia com abordagem filosófica e espiritual inspirada na doutrina budista. 

Era um trabalho, chamaríamos hoje, de “fora da caixa”. Mas basta olhar um pouco mais para “dentro da caixa” para ver que ele não é assim tão exótico – na verdade, vai parecendo cada vez mais sensato.

Seu princípio fundamental é a relação entre indivíduo, sociedade e natureza. Schumacher examinou a ansiedade coletiva para satisfazer o desejo de consumo, os conflitos que decorrem da necessidade de produzir para satisfazer o consumo e o esgotamento dos recursos naturais.  

Na última década, a professora de economia Clair Brown, da Universidade da California-Berkeley (EUA), desenvolveu um modelo de avaliação econômica baseado nos conceitos de Economia Budista e no trabalho do indiano Amartya Sem (prêmio Nobel de Economia em 1998). 

Para Brown, uma economia com boa performance não é apenas aquela que cresce em termos materiais, mas a que é sustentável em termos ambientais e que garante qualidade de vida à população. 

O livro Small is Beautiful reúne artigos e conferências proferidas por Schumacher entre 1964 e 1977. 

O autor, embora defendesse o uso do carvão, aborda muitos dos dilemas e problemas da atualidade, especialmente dos países em desenvolvimento que se defrontam com o suposto antagonismo entre crescer e respeitar o ambiente. Eis alguns de seus pensamentos:

  • Defesa da ecologia e combate à poluição sob todas as formas e preservação dos recursos naturais;
  • Desenvolvimento regional, em vez de urbanização com a criação de grandes metrópoles e proliferação de favelas em seu entorno;
  • Alternativas energéticas, esgotamento de combustíveis fósseis, ameaças da energia nuclear e do lixo atômico;
  • Criação de pequenas e médias empresas, revertendo a tendência de desumanização do trabalhador (característica das grandes empresas, nosso comentário nos parênteses);
  • Transferência de tecnologia adequada aos países em desenvolvimento, uso de tecnologia intermediária, em oposição à sofisticada, mais apropriadas para países menos desenvolvidos.

Schumacher não acreditava em modelos matemáticos e simulações computacionais para previsões econômicas. Como os recursos são finitos, o crescimento excessivo terá custos ambientais. 

Ser pequeno, observa o autor no epílogo do livro, é praticar quatro virtudes essenciais: prudência; justiça; fortitude (força, energia); e temperança (autocontrole, moderação).

Com elas, defendia, o homem poderá construir um sistema de produção que não violente a natureza e não mutile o ser humano.

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