Werner Roger é sócio da Trígono Capital
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Werner Roger é sócio da Trígono Capital

Nesta coluna faremos um tributo a um dos mais efetivos investidores de todos os tempos, mas cuja fama é de ter sido um dos maiores economistas do século XX, sir John Maynard Keynes (1883-1946) .

Investidores e gestores como Benjamin Graham (1894-1976), John Templeton (1912-2008), Warren Buffet (1930-) e Peter Lynch (1944-) são considerados grandes referências e servem como modelo para muitos.

No entanto, nossa crença e filosofia de investimento aproximam-se mais de Keynes e, em segundo plano, de Peter Lynch.

Dessa forma, faremos breve descrição de nossas afinidades com Keynes e contaremos algumas curiosidades de quem foi este notável cientista econômico e investidor.

Autor de mais de 20 obras, com destaques para As Consequências Econômicas da Paz (1919 – logo após a 1ª Grande Guerra), Um Tratado sobre Probabilidade (1921, exercendo seu talento matemático) e, talvez o mais importante, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936). Keynes foi um notável investidor, e o primeiro a investir em ações recursos institucionais (no caso, da King’s College, que administrava recursos e reservas financeiras das universidades de Cambridge e Oxford), permanecendo como CIO (gestor chefe) de 1924 até o ano de sua morte, 1946.

Keynes segregou os recursos da faculdade em dois fundos, o regulado – que representava 92% dos recursos –, e o não regulado, que ele batiza de Nest (Ninho) e tinha autonomia total dos 8% restantes, pois encontrava-se fora da regulação.

Por meio do Nest, ele revolucionou a forma como fundos institucionais eram geridos e alocou praticamente todos os recursos disponíveis em ações, algo inimaginável até então.

Além de gestor da King’s College, Keynes foi um grande investidor e especulador pessoal, usando alavancagem financeira (que lhe trouxe também enormes perdas, tendo chegado mesmo a quebrar em 1920, em apostas erradas em moeda).

Destarte, foi talvez o precursor dos hedge funds, ou fundos multimercados, investindo em ações, dívida de governos, moedas, commodities e imóveis.

Na nossa coluna da semana passada , destacamos Keynes como um dos “Três Magos do Investimento”, ao lado de Benjamin Graham e Charles Munger.

Resumiremos, a seguir, o que ele acreditava e praticava, muito próximo de nossa filosofia de investimento:

1. TOP-DOWN

No início da sua carreira de gestor do fundo Nest, Keynes usava o processo top-down, acreditando que, em razão de seu conhecimento em economia, poderia prever melhor os ciclos econômicos e os desempenhos setoriais.

Devido ao mal desempenho inicial do fundo, ele percebe que, pela imprevisibilidade dos acontecimentos, seu conhecimento não trazia nenhuma vantagem em relação ao mercado.

Ademais, com o mercado usando as mesmas informações, este acaba comportando-se da mesma maneira e leva à sobrevalorização das mesmas ações dos setores preferidos.

2. BOTTOM-UP

Keynes passa a focar mais detalhadamente na análise das empresas. Ao acordar, dedica pelo menos meia hora lendo relatórios e balanços publicados nos jornais.

Ele não gostava de grandes conglomerados econômicos, pois preferia empresas que eram mais fáceis de analisar do que aquelas com uma miríade de negócios combinados, o que torna difícil saber de onde vêm os bons e os maus resultados.

Keynes gostava de empresas e setores simples, que ele podia entender com mais facilidade. Graham usava o mesmo raciocínio e Buffet, seu pupilo, citou Keynes várias vezes em suas cartas anuais aos investidores, chegando a dizer que o Keynes investidor foi tão brilhante como o pensador econômico.

Na Trígono, usamos o mesmo princípio. Deixamos os ruídos macro de lado, nos dedicando profundamente na análise das empresas e evitamos negócios e conglomerados complexos.

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3. DIVIDENDOS

Um princípio que norteava os investimentos de Keynes era o de que investir é uma atividade de projetar rendimentos através de dividendos, enquanto especular é adivinhar o comportamento do mercado.

Vários estudos demonstram que, para investidores de longo prazo, os dividendos representam a maior parte do ganho em ações, pois independem do comportamento do mercado e dependem exclusivamente das empresas investidas.

Somos 100% solidários a essa premissa, sendo os dividendos um dos três vértices que compõem nossa metodologia de investimento e que formam nosso trígono de seleção de empresas.

4. SETORES

Keynes gostava do setor industrial. As fabricantes de veículos Austin Motors e Leyland, esta última que controlava as então britânicas Jaguar, Mini e Land Rover, foram posições importantes.

Na década de 20, o setor automotivo era considerado como de tecnologia. Um século mais tarde, os veículos autônomos também são intensivos em tecnologia.

Tais setores cíclicos oferecem oportunidades, pois investidores top-down vendem ou evitam setores puramente por fatores macroeconômicos e não pelos fundamentos das empresas, dando assim oportunidades para aqueles que usam o bottom-up de montar posições em empresas desprezadas.

Atualmente, os fundos da Trígono estão aproveitando tais oportunidades em setores cíclicos, como o de commodities e o industrial, que estão com preços estabelecidos pelo mercado muito aquém do valor justo ou intrínseco.

5. CONCENTRAÇÃO

Keynes e Buffet seguem o mesmo princípio e contrariam a crença que diversificar reduz o risco. Keynes buscava poucas empresas que ele estudava e conhecia bem, mesmo que no curto o prazo as condições do mercado e dos negócios podiam ser desfavoráveis, pois ele estava sempre preocupado com o longo prazo, desde que a empresa possuísse ótimos administradores.

Essa estratégia segue o princípio de ter poucos ovos no cesto, mas cuidar bem do mesmo. Um cesto com muitos ovos resultará na quebra de muitos deles na turbulência.

O mesmo pode-se dizer a respeito de um cesto cheio de maçã, situação em que maçãs podres apodrecem todas em volta. Keynes dizia aos investidores que, ao invés de diversificar com muitas ações, era melhor investir em empresas que tinham exposição contrária a determinados riscos, como taxa de câmbio ou taxas de juros, neutralizando riscos fora do controle. Observamos que os preços das commodities seguem direção oposta à taxa de câmbio, já que muitas commodities importantes são produzidas em países emergentes sujeitos à oscilação do câmbio.

Fazendo uma analogia, Keynes investiria atualmente em ações da Tesla e em mineradoras de lítio.

Caso o minério encarecesse demais, prejudicando os custos dos carros elétricos, ele ganharia com a empresa de mineração. Seguimos o princípio da concentração, com as cinco maiores posições representando entre 60% a 70% de nossos fundos, e sempre diversificando as empresas relacionadas a commodities, como mineração, química e agronegócio, cada uma sujeita a diferentes variáveis.

6. CONTRÁRIOS

Graham e Keynes tinham a mesma filosofia a respeito de navegar na contramão do mercado. Citando Graham, Keynes dizia que o Senhor Mercado todo dia compra e vende pela cotação do dia.

No entanto, como o Senhor Mercado também é maníaco-depressivo, um dia ele acorda deprimido e joga os preços pra baixo. Em outro dia, eufórico, vai as compras e coloca os preços nas alturas.

Os gestores racionais agem exatamente no sentido contrário do Senhor Mercado e aproveitam os momentos de euforia e depressão para fazer suas vendas e compras na direção oposta. Como gestores, podemos aproveitar oscilações das ações sem nenhum motivo e ajustar as carteiras mantendo o percentual desejado.

Dependemos essencialmente de nossos investidores para aproveitar os momentos de depressão do Senhor Mercado. No entanto, ao ler os noticiários negativos, a maior parte das pessoas – incluindo o Senhor Mercado – acabam sendo contaminados pelas notícias e entram em depressão, vendendo suas ações ou reduzindo seus investimentos relacionados ao mercado acionário.

Esperamos que tenham apreciado esta leitura na qual, humildemente, tentamos contar um pouco do que aprendemos com este gigante das finanças e cujos ensinamentos aplicamos, na medida do possível, na gestão de nossos fundos na Trígono Capital.

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