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Werner Roger estreia coluna sobre investimentos no iG nesta quarta-feira (17)

O livro Meditações é uma espécie de diário pessoal escrito por Marco Aurélio, um dos melhores imperadores romanos, que, além de grande general de campo, foi filósofo, dedicado à corrente conhecida como estoicismo (representada por nomes como Sêneca e Epíteto).

Escolhi uma dentre cinco máximas de Marco Aurélio – uma que traz uma indicação preciosa para guiar nossos investimentos. Sugiro-a a todos, neste momento de tantas incertezas:

"Tu tens as forças para manter o equilíbrio emocional. Quando a força das circunstâncias te deixar como que transtornado, volta depressa a ti mesmo; não fiques fora do ritmo além donecessário, porque serás tanto mais senhor da harmonia quanto mais frequentemente voltares a ela."

Com base na lição transmitida nesta citação, vamos tentar ajudar nossos prezados investidores e leitores a se orientarem ao tomar decisões, não só ligadas a investimentos, mas também, se nos honram com sua permissão, em âmbito pessoal.

A partir de minha experiência profissional, ancorada em diversas fontes, procurei definir os sete pecados capitais dos investimentos e dos investidores:

Avareza : apego demasiado aos bens materiais e dinheiro, deixando Deus em segundo plano. Creio que muitos investidores de fato se apegam ao dinheiro e deixam de desfrutar aquilo que ele proporciona. Nos investimentos, podemos apegar-nos a tipos específicos, setores ou empresas. Desfrute a vida: tire férias, invista o seu tempo na família e nos amigos, alargue seu
universo de investimentos e se desfaça daquilo que não mais atenda a seus objetivos.

Conselho: desfrute a vida e seja flexível.

Inveja : ignora seus próprios desejos e bênçãos e cobiça e prioriza o que pertence a outros. O investidor acredita que outros sabem mais e têm informações privilegiadas (crime, cuidado), e deseja participar deste grupo. Não admite ficar fora de um IPO (sigla em inglês de oferta
pública inicial de ações) porque as corretoras de valores indicam que existem dez vezes mais demanda do que será ofertado. Ele se desfaz de seus investimentos e segue recomendações de terceiros, pois acredita que “a galinha do vizinho é mais saborosa”.

Conselho: esqueça os outros e se desfaça daquilo que não lhe é mais útil, priorizando os próprios objetivos e necessidades.

Você viu?

Ira : sentimento de rancor, ódio descontrolado. Gera sentimento de vingança e desejo de extirpar a causa da raiva. É uma das emoções humanas mais intensas e destrutivas. O sentimento de perda é um dos piores nos investidores, levando-os a uma cautela excessiva (menos frequente) e a decidir no calor desse sentimento. Leva a impulsos ou decisões como "nunca mais investirei em bolsas de valores ou em determinados ativos", ou a voltar-se contra alguém, consultor ou entidade supostamente responsável pelas perdas. Pessoas com tais sentimentos muitas vezes dedicam uma idolatria cega àqueles que permitiram ganhos. Este sentimento de ira recai sobre pessoas, ativos ou empresas vistas como culpados pelas perdas, mas quem sofre com esse sentimento esquece que é ele o responsável final por decisões de investimentos.

Conselho: respire fundo, relaxe, e pense dez vezes antes de decisões precipitadas. Em investimentos não cabem as palavras vingança e remorso.

Gula : mesma palavra em latim. Desejo insaciável, além do necessário, prazer em comida, bebidas, drogas e até sexo. Busca da satisfação imediata e intensa, também se aplica a dinheiro, ou ganho rápido, desprezando o princípio de investir no longo prazo. Aceita tomar muito risco, especulação, alavancagem financeira desmedida.

Conselho: moderação e busca por retornos com horizonte no longo prazo, garantindo uma aposentadora tranquila em vez de enriquecimento rápido por meio de riscos excessivos que muitas vezes se traduzem em perdas definitivas.

Luxúria : sentimento parecido com a gula, é o desejo sensual, material e egoísta. É o deixar-se dominar pelas paixões, o apego ao prazer imediato, a crença em que aquilo que está dando certo continuará a dar certo. Em investimentos, há um estilo, ou técnica, conhecido como momentum. Esse estilo/técnica privilegia investimentos na tendência recente dos mercados, setores ou ações. É muito valorizado por quem aprecia a análise gráfica ou técnica, como se denominam (com a qual não compactuamos). Alguns investidores com este perfil investem em opções que podem gerar ganho rápido e substancial, aumentando as apostas – com o risco inerente de ver tudo subitamente, como se diz no jargão financeiro, "virar pó". É típico também dos investidores em criptomoedas (palavra que, a título de curiosidade, compartilha a mesma raiz etimológica da palavra cripta – sepulcro, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – ou encriptar, relacionado a código secreto ou seguro, cabe ao leitor decidir).

Conselho: devagar se vai ao longe, como diz o dito popular. Ou seja: passos lentos e seguros levarão ao destino final da mesma forma, com a vantagem de proporcionar o desfrute dos prazeres da vida sem os excessos ou as perdas bruscas.

Preguiça : do latim prigritia, representa inatividade, desleixo, negligência, falta de empenho, de natureza física ou psíquico-emocional. Em investimentos, associamos esta palavra à carência de diligência ao apoiar-se em análises rasas e rápidas. Acreditar apenas na conclusão de terceiros, não realizar as próprias análises e pesquisas, falta de interesse na aprendizagem. Mostra acomodação em investimentos de baixo risco e retorno. Investidores com tal perfil se
apegam à zona de conforto e abdicam de mudanças, pela inércia e carência de vontade de se abrir a perspectivas e possibilidades diferentes de investimentos. Adoram mitos, mesmo que falsos, idolatram falsos profetas.

Conselho: pesquise, estude, leia biografia de investidores ou gestores que já provaram sucesso. Como se diz em inglês: move!, aja, saia da inércia e do conforto. Troque o WhatsApp por leituras construtivas – livros e e-books certamente não faltam.

Soberba : do latim superbia, é sinônimo de vaidade, orgulho e arrogância. Para o filósofo São Tomás de Aquino, era um pecado tão grande que deveria ser separado dos demais. A falsa humildade deriva igualmente da soberba. Estes atributos são típicos de pessoas que atingiram grande sucesso pessoal, profissional e político, e daí adquiriram excesso de confiança. Grandes derrotas militares são exemplos do que pode advir deste pecado (erro crasso – Crasso, general romano que ficou famoso por derrotar a revolução comandada pelo gladiador Espártaco, considerado o mais rico romano da história, perdeu a vida e sofreu uma das mais desastrosas campanhas militares de Roma na Pérsia). Para investidores, e especialmente nós, gestores, é um grande risco. Acreditar na infalibilidade, eliminar da memória erros cometidos e fixar-se apenas nos sucessos, tudo isso reduz nossa aprendizagem com erros passados. Investidores soberbos costumam ancorar decisões de investimentos em eventos futuros que consideram positivos, ignorando sinais negativos. Desprezam opiniões alheias. A psicologia comportamental em investimentos considera este um dos maiores riscos: a autoconfiança exagerada, baseada no sucesso recente ou recorrente. Observamos tal comportamento em blogs, portais, youtubers, consultorias etc., alardeando seu conhecimento ou receitas para enriquecimento rápido e fácil. Aqueles que acreditam e seguem cegamente tais promessas reúnem vários dos pecados capitais acima explicados.

Conselho: para combater ou minimizar este pecado, talvez o maior e mais perigoso de todos, humildade, estudo, gratidão e solidariedade. Agradeça a Deus e a todos que o ajudaram no sucesso, reconheça que somos meros instrumentos e não a fonte do sucesso, e compartilhe com a sociedade, família, amigos e colegas profissionais os frutos obtidos.

Explicados os pecados (e como evitá-los ou mitigá-los), na próxima semana escreverei sobre os Dez Mandamentos que nos ajudam a conduzir investimentos ao sucesso.

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