
A Latam é uma excelente companhia aérea. Tem uma malha invejável, uma operação internacional forte e, na minha opinião, a melhor sala VIP do Brasil, em Guarulhos. Mas seus cartões de crédito co-branded com o Itaú estão parados no tempo.
Mesmo nas versões Mastercard Black e Visa Infinite, a sensação é de que o cliente compra uma promessa de experiência premium que raramente se concretiza no mundo real.
Na propaganda, tudo parece sofisticado: upgrade de cabine, embarque prioritário, benefícios exclusivos, experiência diferenciada. Na hora de usar, boa parte disso funciona de maneira burocrática, limitada ou simplesmente distante do que concorrentes já oferecem há anos.
Eu solicitei um Latam Pass Itaú Visa Infinite justamente para testar a experiência, como costumo fazer com inúmeros cartões. E o primeiro banho de água fria veio logo no embarque prioritário.
Ao contrário do que acontece em outras companhias, o grupo prioritário não é automaticamente designado no cartão de embarque. No meio da multidão, é quase como se você tivesse que levantar a mão para avisar: “olha, eu tenho o cartão”.
Chegaram ao absurdo de anotar manualmente meu grupo de embarque no cartão, após eu questionar uma atendente no check-in. A resposta dela veio de forma direta: "Esse cartão não funciona como se o senhor tivesse status na companhia”.
E ela estava certa.
Ali eu percebi o principal problema do produto: o cartão premium da Latam não faz o cliente se sentir realmente premium.
Cancelei o cartão no segundo mês.
O que mais causa estranheza é que se trata da companhia aérea que detém a maior fatia do mercado — quase 40%, segundo dados da Anac — em parceria com o maior banco do país. Ou seja, há potencial para apresentar um produto muito mais relevante.
Enquanto isso, Azul e Gol entenderam algo básico. Um cartão co-branded de alta renda precisa entregar benefícios práticos.
O Azul Itaú Skyline concede categoria Diamante automaticamente, inclui embarque prioritário integrado, Espaço Azul ilimitado, bagagem gratuita, antecipação de voo e até vouchers de upgrade.
Já o Smiles Visa Infinite, comercializado por Banco do Brasil, Bradesco e Santander, entrega status Prata automático, embarque prioritário vinculado diretamente ao bilhete, bagagem gratuita, lounge ilimitado e antecipação sem custo.
Em ambos os casos, o cliente percebe os benefícios imediatamente, sem precisar explicar para ninguém que possui o cartão.
Na Latam, até os upgrades estão cada vez mais distantes da realidade. Recentemente, os portadores dos cartões co-branded passaram a ocupar as últimas posições na fila de upgrade de cabine.
Aqueles trechos cortesia vendidos como diferencial do cartão dificilmente vão colocar alguém na tão sonhada Premium Business de São Paulo para Paris.
E aí fica a pergunta: qual é exatamente o benefício concreto de pagar uma anuidade alta (ou concentrar volume significativo de gastos para obter isenção) em um cartão premium da Latam hoje?
Porque o produto não oferece status automático; não oferece bagagem gratuita despachada; não integra o embarque prioritário de forma natural; e trata o portador do cartão como alguém tentando provar que merece o benefício.
O mais curioso é que a Latam, como companhia aérea, evoluiu muito nos últimos anos.
Os cartões é que ficaram para trás.
Atenção aos programas de companhias aéreas
Outro ponto que precisa entrar nessa conta é algo que já discutimos aqui na coluna. Os cartões co-branded sempre carregam um risco importante. Você fica preso ao programa da companhia aérea.
No papel, as pontuações podem parecer competitivas.
O Azul Itaú Skyline chega a 3,5 pontos por dólar em compras internacionais.
O Smiles Visa Infinite pode alcançar até 5,5 milhas por dólar para clientes Clube Smiles ou categoria Diamante.
Já os cartões Latam Pass Itaú Black e Infinite giram em torno de 3,5 pontos por dólar em compras internacionais.
O problema é que esses pontos já nascem dentro do programa da companhia. Isso reduz drasticamente a flexibilidade do cliente.
Em cartões que acumulam em programas bancários como Livelo e Esfera, por exemplo, existe a possibilidade de transferir os pontos para diferentes companhias aéreas aproveitando bônus de transferência que frequentemente chegam a 80%, 100% ou até mais.
Um cartão aparentemente “menos agressivo” na pontuação pode acabar gerando mais milhas — e mais liberdade de emissão — do que um co-branded que concentra tudo em um único programa.
Por isso, um cartão co-branded premium precisa compensar essa perda de flexibilidade com benefícios realmente fortes na experiência da viagem.
E é justamente aí que os cartões da Latam ficam para trás hoje.