
A possibilidade de comprar por meio de uma inteligência artificial, com um agente digital pesquisando, escolhendo e finalizando a transação com um cartão já cadastrado, vai se tornar uma realidade em um futuro próximo no Brasil. A projeção é do vice-presidente de Produtos e Inovação da Visa, Frederico Succi, que vê o país como um dos mercados mais preparados para esse modelo. Ele falou com exclusividade à coluna.
“A primeira transação agêntica já aponta nessa direção. No Brasil, isso tende a avançar rápido”, afirma.
Em março deste ano, o Banco do Brasil e a Visa inauguraram uma nova era no comércio digital com a primeira transação agêntica do país, em que o consumidor deixa de "clicar no botão" para supervisionar uma IA. Na prática, o cliente define parâmetros, e o assistente virtual realiza todo o processo: da busca por ofertas à finalização do pagamento. Para garantir a segurança, a rede da Visa utiliza a tokenização (que protege os dados reais do cartão sob um código digital), permitindo que a IA feche o negócio de forma autônoma e protegida.
Na entrevista, Succi também aborda o papel da biometria na evolução dos pagamentos. “A tecnologia já está disponível”, diz, ao citar uma solução da Visa que usa o reconhecimento facial como uma camada extra de segurança.
Em um Brasil onde o Pix ganha cada vez mais terreno entre os meios de pagamento, cabe ao mercado de cartões de crédito reforçar seus diferenciais. Nesse contexto, bandeiras e emissores têm uma série de benefícios como trunfo. O executivo fala do crescimento do segmento Visa Infinite (que oferece seguros, salas VIP, concierge, etc.) e do desafio de evitar que clientes de alta renda, mas que não são ultrarricos, se sintam desprestigiados.
Leia abaixo a íntegra da entrevista:
Um mês após a primeira compra feita por IA no Brasil, é possível ver um futuro em que o benefício do cartão deixe de ser, por exemplo, uma sala VIP e passe a ser um algoritmo de economia de tempo?
É uma boa provocação. A gente ainda não tinha pensado exatamente nesses termos, mas o fato é que vamos, sim, ser levados a repensar os benefícios dos cartões. Em um cenário em que agentes passam a comprar em nome do usuário — com autorização prévia —, a lógica muda. Você sai de um ambiente em que disputa atenção do consumidor, como no e-commerce tradicional, para um contexto em que precisa ser relevante para o agente.
Hoje, existe uma disputa para aparecer bem posicionado em mecanismos de busca. No mundo de compras mediadas por agentes, a pergunta passa a ser: como uma loja se mantém relevante para esse agente? Como um emissor indica que aquele meio de pagamento é o mais adequado para determinada compra? E como uma bandeira se posiciona nesse processo? Ainda não existe uma resposta fechada, mas é um novo ambiente que está se formando.
A primeira transação agêntica já aponta nessa direção. No Brasil, isso tende a avançar rápido. O e-commerce aqui é bastante sofisticado, e o usuário já está acostumado a ter o cartão cadastrado, tokenizado, autenticado. A barreira para autorizar uma loja em que ele confia a operar uma compra dentro de certos parâmetros é relativamente baixa.
Como será comprar por meio da IA?
Tem um caminho em que isso acontece dentro do próprio ambiente da loja. Você já tem o seu cartão cadastrado ali, já confia naquele e-commerce. Então a loja passa a usar um agente próprio para te ajudar. Você entra, pede ajuda para escolher um produto, definir o melhor momento de compra, essas coisas. A partir do momento em que você dá o consentimento, esse agente pode executar a compra dentro daqueles parâmetros.
E há um outro cenário, que é mais aberto. Nesse caso, você pode autorizar um agente [ChatGPT ou Gemini, por exemplo] a usar a sua credencial para fazer compras em diferentes lojas. É uma experiência diferente.
Por trás, o que precisa ser implementado é muito parecido nos dois casos: mecanismos de segurança, autenticação e controle. O que muda é o quanto o usuário está disposto, naquele momento, a autorizar esse tipo de uso.
Hoje, o que a gente está vendo é um apetite maior por esse primeiro caso, mais dentro do ecossistema da própria loja.
E a Visa está atuando nos dois lados: com alguns comércios, preparando esse ambiente para esse tipo de jornada, e também em conversas com os grandes players de inteligência artificial para viabilizar esse modelo mais aberto.
Como a Visa trabalha para que o comércio agêntico não se torne um “ralo” de gastos impulsivos invisíveis? Também há preocupação em relação a sites fraudulentos, por exemplo.
Existem dois mecanismos principais. O primeiro é o consentimento. O usuário define as regras: limite de valor, frequência, condições específicas. O agente só pode atuar dentro desse escopo.
O segundo é a própria qualidade dos agentes e do ecossistema. Um agente tende a ter mais capacidade do que um humano para identificar padrões de risco ou inconsistência em um site. Além disso, a Visa está estruturando protocolos de certificação, tanto para agentes quanto para comércios, que garantem que aquela transação segue critérios de segurança. O comércio, por exemplo, só aceita a transação se ela vier com essas validações.
Com o tempo, a tendência é que os próprios agentes priorizem comércios certificados, criando um ambiente mais confiável. Então, embora exista risco, há também uma arquitetura sendo construída para controlar isso, combinando regras definidas pelo usuário, tecnologia e certificação dos participantes do ecossistema.
Biometria como forma de pagamento
O Brasil é reconhecido globalmente pela maturidade do nosso sistema de pagamentos. Fomos um dos primeiros a adotar o chip com senha em larga escala e, nos últimos anos, a adesão ao pagamento por aproximação (contactless) foi uma das mais rápidas do mundo. Olhando para mercados como a China, onde o reconhecimento facial já é comum no varejo, é possível projetar que o Brasil será o primeiro grande mercado do Ocidente a consolidar a biometria, tornando o cartão físico e o próprio celular dispositivos secundários?
É bem possível. Na prática, já está acontecendo. A gente já está implementando no Brasil soluções como o Passkey, que é uma autenticação por biometria vinculada ao dispositivo. Isso permite, por exemplo, autorizar compras com reconhecimento biométrico, independentemente de wallet [carteira digital do celular], criando uma camada adicional de segurança e melhorando a experiência.
Agora, substituir completamente o cartão físico ou até o celular é mais difícil de cravar, porque depende muito do comportamento do usuário. A tecnologia já está disponível. Hoje, mais de 70% das transações presenciais no Brasil são por aproximação, e muita gente já nem usa mais o cartão físico. Então, nesse sentido, o país já mostra um nível de maturidade alto.
Por outro lado, a adoção de novas formas, como biometria no ponto de venda físico, ainda precisa evoluir com cautela. Em ambientes como o varejo presencial ou transporte público, qualquer impacto no fluxo, como tempo o de autenticação, pode ser crítico. Por isso, essas soluções ainda são testadas caso a caso, principalmente em contextos de alto volume.
Qual é o maior desafio hoje: a infraestrutura do varejista ou a barreira cultural de segurança do usuário?
Existe uma combinação de fatores. Do lado da infraestrutura, o Brasil tem um ecossistema bastante complexo, com muitos adquirentes e subcredenciadores, o que exige integração em várias camadas para que uma tecnologia chegue de fato ao usuário. Ao mesmo tempo, a decisão final passa pelo consumidor: é ele quem vai escolher se prefere usar cartão, celular, relógio ou biometria. O papel da indústria é garantir que todas essas opções sejam seguras e funcionem bem dentro da jornada de pagamento.
Cartões de crédito e salas VIP
O lançamento do cartão Visa Infinite Privilege estabeleceu um novo teto para o mercado ultra-high no Brasil. No entanto, o Infinite tradicional passou por uma massificação e hoje sofre cortes de benefícios por parte dos bancos emissores. Como a Visa calibra essa transição para que o cliente Infinite (que ainda é um público de alta renda) não sinta que seu cartão foi rebaixado ou que a exclusividade agora só existe no degrau acima?
Esse movimento é, em grande parte, um atestado de sucesso do próprio segmento. Nos últimos cinco anos, a gente teve um crescimento muito forte, algo como dez vezes o número de cartões dessa categoria. Isso naturalmente traz uma sensação de massificação em alguns momentos.
A segmentação é uma discussão constante, mas ela acontece banco a banco, porque cada emissor define como quer trabalhar o seu público. O que a gente viu primeiro foi os próprios bancos começarem a criar novas camadas dentro do segmento, com versões do Infinite com mais benefícios.
Normalmente, o emissor cria um novo patamar acima e revisa o que oferece no anterior, ao mesmo tempo em que estabelece uma aspiração para o cliente evoluir dentro desse ecossistema.
A Visa acompanha esse movimento de perto e, a partir disso, também está discutindo ajustes. Esse é um público extremamente importante para a gente, então existe uma preocupação em garantir que ele não tenha a sensação de estar sendo despriorizado. Muito provavelmente, a gente também vai ter que repensar a nossa segmentação.
A sala Visa Infinite em Guarulhos é um case de sucesso em termos de marketing, mas hoje as filas contrastam com a promessa de conveniência da bandeira. Ela já opera no limite em horários de pico. Há plano de expansão física ou haverá uma revisão nos critérios de acesso para preservar a fluidez da experiência?
O que você mencionou é real e também é consequência do sucesso da estratégia. A sala passou a ser muito utilizada.
Neste momento, a Visa não está fazendo uma revisão de critérios de acesso. O que a gente está buscando é ampliar as opções para o cliente, seja com salas próprias ou com parceiros.
Hoje, por exemplo, o cliente Infinite já não depende só de uma sala. Ele tem acesso a uma rede ampla, com mais de 1.300 lounges ao redor do mundo com o Visa Airport Companion. O pagamento ou não do acesso depende de cada emissor.
A estratégia, então, é ampliar essa oferta para diluir essa demanda. Ao mesmo tempo, é natural que emissores adotem mecanismos de controle de uso, como critérios de gasto, porque é um benefício com custo elevado e que, em alguns casos, pode ter uso excessivo.
No longo prazo, esse tipo de ajuste tende a preservar a experiência para o cliente que de fato é elegível, garantindo que ele encontre a proposta de valor quando for utilizar o benefício.