A Caatinga é um bioma por vezes mal compreendido. Muita gente pensa em uma região de seca, escassez e falta de oportunidades. Porém, isso é uma injustiça que está prestes a mudar.
O chamado recaatingamento é um movimento que propõe justamente reposicionar o único bioma exclusivamente brasileiro como um ativo estratégico para o país, seja do ponto de vista ambiental, econômico e climático.
A ideia é simples, mas poderosa: preservar a Caatinga não significa apenas proteger a biodiversidade. Significa também reconhecer sua capacidade produtiva, seu papel na regulação climática e sua importância para milhões de pessoas que vivem no semiárido.
"A Caatinga sempre foi muito vinculada à falta de água e de oportunidades. O reecatingamento reposiciona esse bioma como um ativo, com grandes possibilidades para o resto do Brasil redescobrir", afirma Rodrigo Corradi, diretor do ICLEI Brasil (Governos Locais pela Sustentabilidade).
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Essa redescoberta passa por reconhecer algo que já existe. O semiárido brasileiro abriga uma dinâmica econômica relevante, com produção agrícola adaptada às características locais.
O Vale do São Francisco, por exemplo, produz frutas exportadas para a Europa e possui características únicas. "Temos capacidade de produzir frutos em calendários que não existem em outros lugares do mundo. A produção de vinho branco duas vezes por ano é algo único", destaca Corradi.
Ameaças
Mas esse potencial convive com ameaças crescentes. As mudanças climáticas ampliam os riscos de perda hídrica e desertificação em áreas do semiárido. Segundo o especialista, regiões do Ceará e pontos da Bahia já exigem atenção especial.
"A defesa do nosso semiárido passa pelo reconhecimento de que ele recolhe carbono, produz alimentos, abriga biodiversidade e garante ocupação do território. Se desertificarmos essa região, perdemos tudo isso", alerta.
O debate também ganha dimensão global. Neste ano, a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP16) reforçou a importância da gestão hídrica e da adaptação climática para regiões áridas e semiáridas.
Talvez o principal desafio seja justamente abandonar a ideia de que a Caatinga representa apenas vulnerabilidade. Ela também é potência energética, produtiva e cultural.
Em vez de enxergar apenas aquilo que falta no semiárido, talvez seja hora de reconhecer tudo o que já existe ali. E o que podemos perder caso deixe esse bioma desaparecer. “Imagine o Brasil sem a caatinga. Seria um Brasil sem Guimarães Rosa”.