Imagem ilustrativa do futuro data center do TikTok no Ceará
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Imagem ilustrativa do futuro data center do TikTok no Ceará

O gigante TikTok está em maus lençóis: na mesma semana que anunciou seu primeiro data center na América Latina, a ser levantado no Ceará, agora vai precisar explicar de que forma pretende usar um volume de água mais de 7 vezes maior do que o declarado no projeto. Isso em uma região marcada pela escassez de recursos hídricos.

O empreendimento de cerca de R$ 200 bilhões será instalado no complexo portuário de Pecém, em parceria com as empresas Omnia, da gestora Patria Investimentos, e a geradora de energia renovável Casa dos Ventos.

O alto investimento exaltou os ânimos do governo brasileiro, mas pelo visto a conta vai sair mais cara.

De acordo com a apuração do Intercept Brasil, a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (SRH) autorizou a Casa dos Ventos o uso de 144 mil litros de água por dia - sendo que a licença prévia, atestava um consumo diário total de 19,7 mil litros. Este uso intensivo de água acontece em uma região que declarou emergência por seca ou estiagem em 16 dos últimos 21 anos. Ou seja: o perigo é a população ficar sem água enquanto as máquinas sigam muito bem hidratadas.

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Licenciamento polêmico

De acordo com o ClimaInfo, este processo de licenciamento já vinha sendo questionado por organizações da sociedade civil. A obra não teria realizado consulta prévia com os povos originários, prevê desmatamento em área de proteção permanente e consumirá a mesma energia (ainda que seja limpa) de uma cidade de 2 milhões de habitantes.

Em agosto passado, lideranças do povo indígena Anacé, com o apoio de cinco entidades da sociedade civil, pediram que o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual do Ceará (MPCE) investigassem irregularidades na construção dos data centers ligados ao TikTok.

Em sua defesa, as empresas parceiras que pretendem fazer a obra afirmam que utilizarão 100% de energia renovável proveniente de parques eólicos e um circuito fechado de uso de água para resfriamento dos equipamentos - porém, reconheceu que a bacia hidrográfica local enfrenta, sim, dificuldades para atender às demandas de consumo.

Corrida do ouro

Difícil acreditar em puras intenções das Big Techs. Elas estão em plena corrida do ouro. Ou melhor: na corrida por fontes de energia limpa para alimentar os famintos e gigantes data centers que, com a escalada da Inteligência Artificial, tendem a consumir quantidades ainda mais estratosféricas de energia. Uma energia que ninguém tem.

Nesta gincana, aos olhos deles, o Brasil é quase uma Disneylândia: 88% da energia do país é gerada a partir de fontes renováveis, o que faz com que nossa matriz energética seja uma das mais limpas do mundo. Temos muito sol, para geração solar, e ventos para a eólica, além de biomassa e promessas de hidrogênio verde. Porém, este uso indiscriminado de energia pode se tornar predatório. Não existe apropriação de recursos naturais sem impacto nenhum - mesmo que seja sol ou vento.

Portanto, antes de escancarar desta forma as portas do país para as Big Techs seria importante uma regulação mais criteriosa de impactos e um questionamento sobre o real benefício desta vinda massiva de data centers para cá. 

“Fala-se em geração de empregos, mas estes empregos serão basicamente durante as obras. Depois, os equipamentos serão operados por máquinas. Sem contar a isenção fiscal que estas empresas terão aqui e o impacto que elas causarão”, comentou Flávia Lefèvre, advogada, conselheira do Comitê Gestor da Internet no Brasil e do Instituto Nupef (Núcleo de Pesquisa em Direito e Tecnologia), organização da sociedade civil focada em conectar direitos e tecnologia para cidadania e justiça socioambiental. 

“A gente acha que tem excesso de energia no país, mas não tem. Não adianta apenas produzir energia, é preciso infraestrutura, como linhas de transmissão. O Brasil não tem energia para atender a todos os pedidos de implantação de data centers. Já temos 420 no país e muitos pedidos. O consumo deles vai ser bem mais alto do que a nossa disponibilidade, portanto vão acabar tirando a energia da população", aponta. Flávia lembra ainda que a energia eólica e solar são instáveis - e os data centers não podem parar. Por isso, podem lançar mão de outras matrizes não renováveis (e poluentes), assim como já fizeram em outros países, para manterem a estabilidade de suas operações. 

Os data centers estão longe de ser uma galinha dos ovos de ouro como enxerga o governo brasileiro. É preciso mais cautela. Como diz o dito popular: quando a esmola é demais, o santo desconfia.

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