Primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, vem sendo observado ao redor do mundo pela sua postura em relação às tarifas comerciais dos EUA
Nik Martin
Primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, vem sendo observado ao redor do mundo pela sua postura em relação às tarifas comerciais dos EUA

O Canadá vem sendo discretamente elogiado por se recusar a ceder à pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na longa disputa sobre tarifas comerciais. As mais recentes negociações entre os vizinhos norte-americanos fracassaram em 21 de agosto, embora até os momentos finais ambos os lados dessem a entender que um acordo estava prestes a ser alcançado.

Os EUA então impuseram tarifas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares (R$104 bilhões) em produtos canadenses, enquanto Ottawa prometeu aplicar medidas equivalentes sobre importações americanas.

Até o colapso das negociações, a estratégia do Canadá era firmar um acordo que reduzisse as tarifas e mantivesse o funcionamento das cadeias produtivas transfronteiriças, especialmente nos setores automotivo e siderúrgico.

No entanto, negociadores americanos foram acusados de alterar os termos na última hora, algo que, segundo o lado canadense, obrigaria o país a alinhar suas tarifas contra a China às dos EUA.

Para o vizinho, a Casa Branca queria ter influência sobre futuros acordos comerciais canadenses com outros países e impedir que produtos chineses fossem redirecionados pelo Canadá para evitar tarifas americanas.

Questão de soberania

O plano americano de equiparar tarifas criaria uma espécie de fortaleza a seu favor na América do Norte, afirma Dan Ciuriak, pesquisador sênior do Centro para Inovação em Governança Internacional (CIGI), sediado em Waterloo, no Canadá. Segundo ele, o tema acabou virando uma questão de soberania para Ottawa.

"O Canadá é uma nação comerciante", diz Ciuriak à DW. "Se nos alinharmos perfeitamente aos americanos, principalmente em relação à China, acabaremos sacrificando nossa própria política comercial."

Há um precedente recente. Quando os EUA impuseram tarifas de 100% sobre veículos elétricos chineses no ano passado, o Canadá seguiu o mesmo caminho. Pequim respondeu com tarifas de 100% sobre uma das principais exportações canadenses: a canola, um grão desenvolvido por meio de melhoramento genético de uma planta chamada colza.

As exportações canadenses de óleo, farelo e sementes de canola para a China, avaliadas em 4,9 bilhões de dólares (R$25 bilhões), caíram pela metade no ano passado, segundo dados do Conselho Empresarial Canadá-China.

"É o país menor que acaba arcando com a maior parte dos custos nesse tipo de disputa. Esse é um motivo muito forte para que o Canadá mantenha uma política comercial independente", afirma Ciuriak.

Com o fracasso das negociações entre EUA e Canadá, Ottawa também se queixou por Washington ter buscado flexibilizar regras relacionadas a filmes e programas de televisão em língua francesa. O Canadá enxergou uma tentativa de interferência na sua língua e cultura.

Apoio popular no Canadá

Apesar da incerteza e dos custos maiores para as empresas decorrentes do impasse, a estratégia do primeiro-ministro canadense nas negociações com os EUA conta com amplo apoio popular.

Uma pesquisa realizada pelo instituto Angus Reid mostrou que três em cada quatro canadenses apoiaram a postura mais dura adotada pelo governo, apesar das preocupações com os impactos sobre a economia doméstica.

As provocações de Trump ao sugerir transformar o Canadá no 51º estado americano e ameaçar renomear o Lago Ontário para "Lago América" incentivaram canadenses a boicotar viagens e produtos dos Estados Unidos.

Novos dados do governo mostram que os canadenses fizeram quase 500 mil viagens a menos aos EUA nos três primeiros meses de 2026 e gastaram cerca de 800 milhões de dólares (R$ 4 trilhões) a menos nessas visitas.

Também segundo o instituto Angus Reid, 40% dos consumidores canadenses verificavam em julho a origem dos produtos nos supermercados, e a maioria deste grupo evitava mercadorias americanas sempre que possível.

Embora as duas economias estejam fortemente integradas, as novas tarifas americanas afetam apenas cerca de 5% dos 382 bilhões de dólares (R$2 trilhões) em bens que o Canadá exporta para seu vizinho ao sul.

O Royal Bank of Canada alertou que a ausência de um acordo pode afetar 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) e o emprego. Já o economista Trevor Tombe, da Universidade de Calgary, estimou que o impacto pode chegar a 90 mil postos de trabalho.

Mundo observa de perto

Outros governos também acompanham atentamente os desdobramentos da resistência canadense às pressões de Trump.

União Europeia, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e dezenas de parceiros menores aceitaram reduzir tarifas em troca de acesso ao mercado americano, promessas de investimento ou alinhamento à política dos EUA.

Até agora, apenas a China enfrentou diretamente a ameaça tarifária de Trump, respondendo com tarifas equivalentes e negociando de igual para igual como outra superpotência, em vez de aceitar o primeiro acordo oferecido.

Falando durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que potências médias precisam agir em conjunto e advertiu que, se não estiverem "à mesa", acabarão "no cardápio".

Por enquanto, porém, Carney mantém essa posição praticamente sozinho. Novas tarifas canadenses sobre 20 bilhões de dólares (R$ 104 bilhões) em produtos americanos, incluindo aço, alumínio, laticínios, eletrônicos e máquinas agrícolas, entrarão em vigor na próxima terça-feira (08/09). A expectativa é que os EUA respondam com novas medidas retaliatórias.

Embora a estratégia de responder dólar por dólar às tarifas americanas soe agressiva, Ciuriak avalia que ela não precisa necessariamente "punir" a economia canadense.

"As tarifas canadenses se aplicam a produtos que o Canadá tanto compra quanto vende aos Estados Unidos. À medida que as tarifas americanas reduzem as vendas canadenses para o mercado americano, as medidas canadenses criam espaço internamente para essa produção."

Pressão sobre a indústria automotiva

A partir de janeiro, Trump ameaçou aumentar tarifas sobre automóveis, caminhões, autopeças e aço canadenses, a menos que a produção seja transferida para os Estados Unidos.

Ele também se recusou a renovar por mais 16 anos o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês). Em vez disso, o pacto de livre comércio norte-americano, que ainda cobre a maior parte das mercadorias que cruzam as fronteiras da região, passará a ser revisado anualmente.

Sem novas negociações previstas com os EUA, parlamentares canadenses passaram a enfatizar oportunidades comerciais em mercados diferentes e a considerar outras medidas de retaliação, incluindo a possibilidade de desistir da compra de caças americanos.

O Canadá planejava adquirir 88 caças F-35 da Lockheed Martin, dos quais 16 já haviam sido encomendados. As demais aquisições estão agora suspensas.

    Compartilhar
    Tags: Economia
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes