
Uma planta conhecida por fazer parte de receitas tradicionais e usada também como cerca-viva está ganhando espaço entre pequenos produtores. A ora-pro-nóbis, considerada uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), é uma alternativa para a agricultura familiar diversificar a produção e buscar uma nova fonte de renda.
Técnica desenvolvida pela Embrapa Hortaliças e testada com pequenos produtores brasileiros consiste em um sistema de produção próprio para o cultivo da espécie. A proposta ajuda aos tratos culturais e permite realizar a colheita de forma escalonada ao longo do tempo.
Consiste em fazer o plantio adensado para garantir maior produtividade por área programando colheitas sucessivas para manter a arquitetura da planta controlada e evitar emaranhados de galhos e espinhos. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
De acordo com ele, com o aumento do interesse dos consumidores pela hortaliça e sua presença em cardápios de restaurantes de alta gastronomia do eixo Rio-São Paulo, surgiu um novo nicho de mercado.
Para viabilizar a oferta do produto, foi validado o sistema de plantio adensado até cinco mil plantas por hectare com colheitas sucessivas que permitem a condução dessa espécie de forma mais simples e eficaz pelo produtor rural. O espaçamento anterior resultou em cerca de 1.250 plantas por hectare. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
Vantagens
Uma outra vantagem é o sistema da Embrapa Hortaliças, de acordo com Madeira, é que ele dispensa a necessidade de tutoramento da planta para a colheita das folhas, já que prevê a poda das hastes.
O ora-pro-nóbis é uma planta muito rústica e com bom potencial produtivo, sendo opção de diversificação de renda e de cultivo, especialmente para o agricultor familiar, uma vez que a produção em larga escala é dificultada pelas próprias características da planta, já que exige intensa mão de obra. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
Ela é da família dos cactos e cresce como um arbusto, com espinhos distribuídos ao longo dos caules e ramos. Essa característica acaba dificultando o manejo no campo.
Em geral, os produtores não consideram lavouras de ora-pro-nóbis pela dificuldade de lidar com a planta espinhosa. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
Apesar da dificuldade no manejo, a planta já é utilizada há anos em algumas regiões brasileiras. Em Minas Gerais, por exemplo, aparece em receitas tradicionais, principalmente em cidades históricas como Diamantina, Tiradentes e Sabará.
Colheitas
O pesquisador explica que a planta pode atingir mais de quatro metros de altura. Por isso, as colheitas sucessivas, feitas a cada seis ou dez semanas, dependendo das condições climáticas, devem ser manejadas como podas.
Além de facilitar o trabalho com a planta e melhorar a ergonomia, a prática estimula o desenvolvimento vegetativo e a produção comercial das folhas. A Embrapa recomenda o manejo com podas sucessivas justamente para manter a planta controlada e facilitar os tratos no campo.

Nos experimentos da Embrapa Hortaliças, a produção chegou a até dois quilos de folhas por planta a cada corte, com quatro a oito cortes anuais. Isso equivale a uma produção de 20 a 40 toneladas por hectare ao ano.
A planta pode continuar produtiva por até dez anos, desde que sejam feitas adubações periódicas com matéria orgânica, segundo Madeira.
Além desse potencial para a agricultura, a ora-pro-nóbis também chama atenção pelo seu valor nutricional.
A pesquisadora da Embrapa Neide Botrel destacou também ao Jornal Vida Rural que a planta, também conhecida como lobrobó ou pereskia, é considerada uma PANC e apresenta uma quantidade relevante de proteína.
É um alimento de origem vegetal com cerca de três gramas de proteína a cada 100 gramas de folhas Neide Botrel, pesquisadora da Embrapa em entrevista ao Jornal Vida Rural
A folha possui minerais, fibras e substâncias mucilaginosas. A Embrapa destaca ainda a presença de minerais como: potássio, magnésio, zinco, cálcio e ferro.
Estudo citado pela Embrapa também analisou a composição da planta e encontrou nutrientes importantes, como fibras, carotenoides, vitamina C e minerais.
Apesar do destaque nutricional, a ora-pro-nóbis não deve ser vista como substituta das principais fontes de proteína da alimentação, como carnes, ovos, leguminosas e laticínios. A folha pode fazer parte de uma alimentação variada.
Como consumir?
A folha tem sabor suave e pode ser usada em diferentes preparações. Entre as formas mais comuns estão:
- Refogada com alho e cebola;
- No tradicional frango com ora-pro-nóbis;
- Em farofas;
- Em tortas e omeletes;
- Em pães e bolos;
- Em outras receitas do dia a dia.
As folhas jovens e os brotos também podem ser consumidos crus.
Matéria-prima para a indústria alimentícia
Se em Minas Gerais existe uma tradição maior no consumo da planta, em outros estados brasileiros ela ainda é pouco explorada na agricultura e na culinária , tanto fresca quanto processada.
Uma das possibilidades encontradas pela pesquisa é justamente transformar a folha em matéria-prima para a indústria.

Farinha de ora pro nobis
A Embrapa desenvolveu um sistema de produção que permite o cultivo para consumo direto ou para a produção de um concentrado feito com folhas desidratadas e moídas.
Em uma parceria entre a Embrapa Hortaliças e a empresa Proteios, agricultores familiares da região de Palmeira, no Paraná, iniciaram o cultivo da hortaliça para fornecer as folhas à indústria.
A empresa fabrica um produto chamado Complemento Nutricional Funcional (CNF), uma proteína vegetal em pó composta principalmente por folhas de ora-pro-nóbis.
Esse produto é uma espécie de farinha utilizada para enriquecer bebidas e alimentos como pães, massas e barras de cereais. O destaque da composição nutricional é a concentração elevada de proteína, que gira em torno de 28% da matéria seca. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
Produção integrada
O trabalho realizado em 2017 apresentou bons resultados, segundo o pesquisador, porque a produção estava integrada com a indústria e próxima da fábrica processadora.
Durante o estudo, cerca de 50 produtores r ealizaram a colheita em pelo menos oito municípios do Paraná e de Santa Catarina. Cada família cultivava aproximadamente um hectare, utilizando a ora-pro-nóbis como alternativa para diversificar a produção.
A maioria desses produtores também cultivava fumo e já tinha experiência com a venda para a indústria em sistemas de produção contratada. Eles também conheciam o processo de secagem das folhas em estufas.
No sistema de produção validado pela Embrapa, a projeção de rendimento chegava a R$ 4 mil por hectare cultivado com folha verde, em valores corrigidos de 2023.
Em média, oito quilos de folhas verdes rendem um quilo de folhas desidratadas. Na época do estudo, a empresa pagava R$ 24,50 pelo quilo da folha seca, em valores corrigidos, enquanto a folha verde rendia cerca de R$ 2 por quilo.
Ou seja, além de vender a folha fresca, o produtor pode encontrar outra possibilidade de comercialização ao investir no processamento.
Da folha fresca ao produto processado
A folha fresca tem uma vida útil limitada e precisa chegar rapidamente ao consumidor. Já a desidratação permite transformar o produto em farinha ou pó, aumentando as possibilidades de armazenamento e comercialização.
Mas, para o agricultor, o processamento exige planejamento. É preciso considerar o custo dos equipamentos, a mão de obra e a existência de compradores antes de investir na estrutura de secagem.
Conservação após a colheita
A pesquisa da Embrapa também avaliou formas de aumentar a vida útil das folhas.
De acordo com os resultados apresentados pela empresa, quando embaladas e armazenadas sob refrigeração a 10ºC, as folhas podem permanecer em boas condições por cerca de 12 dias.
A conservação adequada pode ajudar o produtor a reduzir perdas e ter mais tempo para comercializar a hortaliça.
Segurança alimentar
Madeira destaca ainda recomendações relacionadas ao consumo da planta. Para os agricultores que utilizam as folhas na própria alimentação, a Embrapa recomenda a poda apical, conhecida como “quebra da ponta”, cerca de dez dias antes da colheita.
Segundo o pesquisador, a prática pode favorecer o rendimento das folhas ao direcionar nutrientes para o desenvolvimento vegetativo.
Antes, o potencial do ora-pro-nóbis era subutilizado, já que na Região Sul não havia tradição de consumir a planta. Nuno Madeira, pesquisador em entrevista ao Jornal Vida Rural
Além da ora-pro-nóbis, outras hortaliças não convencionais também são estudadas pela Embrapa, como: almeirão-de-árvore, amaranto, anredera, azedinha, beldroega, bertalha, capuchinha, cará-do-ar, caruru, fisális, jambu, major-gomes, mangarito, maxixe-do-reino, muricato, peixinho, serralha, taioba e vinagreira.
Uma opção para o pequeno produtor
A ora-pro-nóbis, que durante muito tempo ficou mais ligada aos quintais e às receitas tradicionais, começa a encontrar novas possibilidades no campo, na alimentação e na indústria.

Para a agricultura familiar, o cultivo pode ser uma alternativa para diversificar a produção. O plantio adensado e as colheitas sucessivas facilitam o manejo, enquanto a possibilidade de desidratar e transformar as folhas em matéria-prima cria outra opção de comercialização.
A Embrapa aponta justamente esse potencial, produzir a hortaliça para consumo direto ou trabalhar com a folha desidratada e moída para atender à indústria alimentícia.
*Estagiária sob supervisão