Casas Bahia e Nestlé: o que explica a crise de grandes grupos

iG ouviu economistas que apontaram fatores e mudanças na relação de consumo que podem estar desencadeando a situação, especialmente no varejo

Casas Bahia e Nestlé: demissões e fechamento de unidades
Foto: Divulgação
Casas Bahia e Nestlé: demissões e fechamento de unidades

Grandes companhias anunciaram recentemente a adoção de medidas contra crise financeira, divulgando planos de reestruturação que incluem desde fechamento de lojas e demissões em massa, até pedidos de recuperação judicial . O iG ouviu economistas que apontaram os fatores econômicos que podem estar desencadeando a crise, especialmente no setor varejista.

No varejo brasileiro, Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok estão entre as grandes companhias, que estão passando por processo de recuperação judicial, anunciado recentemente, além de multinacionais espalhadas pelo mundo.

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O Grupo Casas Bahia  é o caso mais recente; com R$ 17,3 bilhões em dívida, entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo, no domingo (16), depois de anunciar o fechamento de quase 300 lojas e a demissão de quase 2 mil funcionários.

pedido de recuperação judicial ainda não foi deferido pela Justiça de São Paulo, embora a varejista tenha conseguido medidas emergenciais para proteger a operação diante da crise financeira, a magistrada responsável pelo caso determinou uma análise prévia antes de decidir se o processo de recuperação judicial será efetivamente aceito.

Já a rede de móveis Marabraz protocolou um pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, também no último domingo. A empresa busca reorganizar suas finanças e renegociar cerca de R$ 140 milhões em dívidas.

Um pouco menos recente foi o anúncio do pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça de São Paulo do Grupo Toky, controlador das  redes Tok&Stok e Mobly, em junho de 2026, com um passivo superior a R$ 1 bilhão. O plano de reestruturação apresentado em agosto de 2026 prevê conversão de dívidas em ações e potencial venda de ativos.

Tok&Stok
Foto: Reprodução/Tok&Stok
Tok&Stok

Mas o balanço da companhia, apresentado neste mês, mostrou um prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre. No mesmo período do ano passado, a perda havia sido de R$ 88,9 milhões.

E ainda dentro do grupo de empresa que atuam no Brasil, com dificuldades financeiras, o Grupo Apex Partners, plataforma brasileira de investimentos e serviços financeiros, com sede em Vitória (ES), enfrenta dificuldades obstáculos em sua recuperação judicial. O processo, que envolve um passivo de R$ 986 milhões, é pressionado por pendências documentais e cancelamento de visitas técnicas na sede.

Fatores econômicos e mudanças na relação do consumo

Na opinião da economista Luiza Sampaio, o aumento nos casos de operação judicial, de reestruturações e fechamentos de lojas não significa que há uma quebra generalizada do varejo. 

Para ela, trata-se, na realidade, de uma dificuldade mais concentrada de determinados segmentos, especialmente aqueles mais dependentes de crédito e mais expostos às mudanças no comportamento do consumidor. A economista aponta uma série de fatores e, entre eles, o avanço do comércio online.

Temos os juros, que ainda estão muito elevados, as famílias que estão muito endividadas, o acesso ao crédito que está mais restrito e também o consumidor que mudou a forma de poder comprar. A concorrência ficou muito mais intensa com o avanço dos marketplaces e das plataformas digitais. Então, isso exige que as empresas sejam mais eficientes, que tenham maior capacidade de adaptação e também que tenham uma gestão financeira bem mais cuidadosa. Não existe uma crise sistêmica no setor varejista; estamos diante de uma crise seletiva
Luiza Sampaio, economista


Também para o economista Cícero Pimenteira, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a mudança no comportamento do consumidor e na relação do consumo  têm peso importante no atual cenário do varejo.

Ele afirma que o mundo vivencia uma nova forma de consumir bens, com o consumidor mais atraído por comprar bens pela internet . Na opinião de Pimenteira, existe crise no sistema varejista, se considerarmos que o sistema varejista do passado vai deixar de existir em breve; as lojas físicas vão ser espaços do passado.

Porque houve um salto tecnológico e as pessoas vão passar a comprar cada vez mais os seus bens pela internet, na confiança da avaliação do bem por outros consumidores e não mais por um vendedor. Vai ficar ainda um resíduo desse comércio nas áreas de bairro, mas a tendência é que esses espaços deixem de existir; como o serviço bancário. Mas é uma realidade que ainda vai ser calibrada e quem vai calibrar essa realidade vai ser a satisfação do consumidor. As relações humanas tendem a ficar diferentes, mas é uma realidade que não podemos deixar de imaginar para o nosso futuro
Cícero Pimenteira, economista


Reestruturação global

A crise econômica também tem provocado reestruturação global em muitas outras empresas, em diferentes setores.

Em outubro de 2025,  a Nestlé anunciou um plano global de reestruturação,  prevendo uma redução de aproximadamente 16 mil posições em diferentes mercados até 2028. A empresa não divulga detalhamentos por país.

Sobre esse plano, em nota, a Nestlé esclarece que suas operações no Brasil seguem normalmente e que a companhia mantém seu plano de investimentos de R$ 7 bilhões no país até 2028, atualmente em plena execução.

O Brasil é a terceira maior operação da Nestlé no mundo, e todas as 18 fábricas da companhia no país seguem em funcionamento, incluindo a unidade de Caçapava (SP), responsável pela produção de KITKAT®.

Ainda no setor alimentício, alegando reorganização dos negócios, a marca de  sorvetes Häagen-Dazs anunciou nesta semana que deixará de ser distribuída no Brasil após 29 anos, como parte da reorganização dos negócios da General Mills. A mudança acontece após a empresa divulgar, em março deste ano, um acordo para vender sua operação brasileira à 3corações, incluindo as marcas Yoki e Kitano. A venda inclui as estruturas da empresa no país, entre elas as unidades de produção e distribuição em Pouso Alegre (MG) e Campo Novo do Parecis (MT).


Ainda no mercado internacional,  Braskem Idesa, joint venture entre a Braskem e a mexicana Idesa, que atua no setor petroquímico e químico, entrou com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos (Chapter 11), para reestruturar uma dívida de US$ 2,5 bilhões, em acordo negociado com acionistas e credores que poderá reduzir US$ 920 milhões do débito.

Um dia depois, a companhia recebeu autorização da Justiça dos Estados Unidos para acessar um financiamento milionário, do tipo DIP (Debtor-in-Possession), modalidade de financiamento destinada a companhias que passam por processos de recuperação financeira; a maior parcela dos recursos, de US$ 409 milhões, será fornecida pela própria Braskem e integra o pacote de US$ 476 milhões anunciado anteriormente para reforçar a liquidez da companhia.

Também a gigante americana de distribuição de produtos de jardinagem e horticultura BFG Supply entrou com pedido de recuperação judicial pelo Chapter 11 nos Estados Unidos em 18 de agosto de 2026, declarando ativos e passivos entre US$ 100 milhões e US$ 500 milhões e buscando a venda supervisionada de seus ativos.