
Clientes correram para aproveitar os últimos dias de funcionamento da loja da Tok&Stok no D&D Shopping, na zona sul de São Paulo. A unidade encerra as atividades neste sábado (23) e entrou na lista de operações fechadas pela rede.
A marca está oferecendo descontos que chegam a 70% em móveis, itens de decoração e utensílios domésticos, com o objetivo de esvaziar os estoques.
O encerramento das atividades acontece em meio a um dos momentos mais delicados enfrentados pela empresa desde sua fundação. Nos últimos anos, o crescimento das dívidas acabou dificultando a reorganização financeira da companhia.
Diante desse cenário, o Grupo Toky, controlador da Tok&Stok e da Mobly, entrou recentemente com pedido de recuperação judicial. A empresa informou que as dívidas ultrapassam R$ 1 bilhão.

Tok&Stok Pompéia (LOJA FECHADA)
Além da unidade do D&D Shopping, a empresa também encerrou recentemente as atividades das lojas da Pompeia e do Shopping Cidade São Paulo, na Avenida Paulista.
Fechamentos avançam em diferentes regiões
Na Bahia, a situação não é diferente. A unidade da Tok&Stok no Salvador Shopping também deixou de funcionar.
A loja encerrou as atividades no último dia 16. Inaugurada em 2021, a operação marcou a chegada de um conceito mais moderno da marca à capital baiana, apostando em experiência, integração de ambientes e produtos voltados para casa e decoração.
Em 2023, a varejista já havia fechado cerca de sete unidades espalhadas pelo país. As lojas estavam localizadas em São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal. Na época, a empresa contratou a consultoria Alvarez & Marsal para tentar reorganizar uma dívida estimada em cerca de R$ 600 milhões.
Nos últimos anos, a companhia enfrentou uma sequência de problemas, o que aumentou ainda mais a pressão sobre a operação. Entre eles estão o crescimento do endividamento, mudanças de comando, disputas entre investidores e dificuldades na reorganização após a aproximação com a Mobly.
Recuperação Judicial
Enquanto reduz sua estrutura física, o Grupo Toky protocolou no último dia 12 o pedido de recuperação judicial. Segundo o processo, a dívida da companhia já chega a aproximadamente R$ 1,1 bilhão.
A empresa afirmou que a crise foi agravada por juros altos, restrição de crédito e aumento do endividamento das famílias, fatores que diminuíram a confiança do consumidor e afetaram o setor de móveis e decoração.
Em comunicado ao mercado, o grupo afirmou que o ambiente econômico mais difícil acabou reduzindo o consumo e levando muitos consumidores a adiarem compras consideradas de maior valor.
Troca de comando
Na semana passada, dias após entrar com o pedido de recuperação judicial, o Grupo Toky também anunciou mudanças no comando da empresa. A troca acontece em meio à tentativa de reorganizar as operações e tentar conter o avanço da crise financeira enfrentada pelo grupo.
Nos bastidores, a mudança é vista como uma tentativa de acelerar decisões estratégicas e reorganizar a companhia em um momento considerado decisivo para o futuro da operação.
Além das dívidas bilionárias, o grupo também enfrenta dificuldades relacionadas ao fluxo de caixa, estoque e reorganização interna após a aproximação entre Tok&Stok e Mobly.
Dívida continuou crescendo
O Grupo Toky informou que já vinha tentando renegociar débitos com credores da Tok&Stok. Mesmo assim, o passivo financeiro continuou aumentando nos últimos meses.
Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários ( CVM), a empresa afirmou que, apesar dos esforços para reestruturar o endividamento, a situação financeira seguiu se agravando.
Diante desse cenário, o grupo decidiu recorrer à recuperação judicial para tentar reorganizar as contas e evitar um agravamento ainda maior da crise.
Empresa cita risco de colapso financeiro
No pedido apresentado à Justiça de São Paulo, o Grupo Toky afirmou enfrentar risco de “dano irreparável” caso medidas urgentes não sejam adotadas rapidamente.
Um dos principais pontos envolve a l iberação de cerca de R$ 77 milhões relacionados a vendas realizadas no cartão de crédito. Segundo a companhia, os valores estariam retidos pela SRM Bank, situação que teria afetado diretamente o caixa da empresa.
Com isso, despesas consideradas essenciais passaram a ficar ameaçadas, incluindo salários de mais de 2 mil funcionários.
Grupo pede suspensão de cobranças
A empresa também pediu à Justiça a suspensão temporária de cobranças e ações relacionadas às dívidas pelo período de 180 dias. A medida, costuma ser usada para dar um respiro financeiro às empresas enquanto elas renegociam débitos e reorganizam as operações.
Outro desafio é a logística. Diferente de varejistas que trabalham com produtos menores, o segmento de móveis opera com mercadorias grandes, pesadas e de alto custo operacional. Sofás, armários e mesas exigem transporte especializado, armazenagem maior e entregas mais complexas.
Quando as vendas diminuem, os custos fixos continuam altos. Além disso, muitas empresas passaram a trabalhar com lojas mais voltadas para a exposição dos produtos, enquanto grande parte das mercadorias fica armazenada em galpões e centros de distribuição.
Apesar de reduzir o espaço físico das unidades, esse modelo também pode deixar a operação mais vulnerável a problemas logísticos e atrasos na reposição dos produtos.
Fim da pandemia mudou o ritmo do mercado
Durante a pandemia, o mercado de móveis e decoração viveu um forte crescimento. Com mais tempo dentro de casa, muitos consumidores passaram a investir em reformas, conforto e renovação dos ambientes.
Mas o cenário mudou após a reabertura da economia. Parte do consumo voltou a migrar para viagens, lazer e serviços. Ao mesmo tempo, inflação elevada e juros altos passaram a dificultar compras parceladas.
Empresas que expandiram operações ou assumiram dívidas apostando na continuidade daquele ritmo acelerado acabaram enfrentando um ajuste mais difícil nos anos seguintes.
No caso da Tok&Stok e da Mobly, o desafio ficou ainda maior porque ambas passaram por mudanças importantes em suas estruturas justamente em um momento de desaceleração da demanda.
O que significa recuperação judicial?
Apesar do impacto do anúncio, recuperação judicial não significa falência. O mecanismo permite que empresas consigam proteção temporária contra cobranças, enquanto tentam reorganizar dívidas e negociar com credores.
Entre as medidas mais comuns nesses processos estão renegociação de pagamentos, alongamento de prazos, venda de ativos e fechamento de operações consideradas menos lucrativas.
O maior risco costuma ser operacional. Fornecedores podem reduzir entregas ou exigir pagamentos antecipados, o que afeta diretamente estoques e a continuidade das vendas.
Para consumidores que possuem compras pendentes, acompanhe os pedidos, guarde comprovantes de pagamento e mantenha registros de conversas e protocolos de atendimento. Dependendo do andamento do processo, clientes que aguardam entregas ou reembolsos podem se tornar credores da empresa.
As lojas seguem funcionando, mas o clima já é de incerteza. Em algumas unidades, o funcionamento ainda acontece normalmente. Já em outras, prateleiras vazias e placas de promoção mostram que a marca atravessa um dos momentos mais delicados da sua história.
*Estagiária sob supervisão