Igreja e riqueza: como o cristianismo enxerga o acúmulo de fortunas
Vatican Media
Igreja e riqueza: como o cristianismo enxerga o acúmulo de fortunas

A recente declaração do Papa Leão  sobre os perigos de Elon Musk vir a se tornar o primeiro trilionário gerou um debate entre fãs do magnata e religiosos: o que a Igreja pensa sobre o acúmulo de riquezas?

Segundo o professor Gerson de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a resposta está na Doutrina Social da Igreja, formulada no fim do século 19 como alternativa tanto ao socialismo quanto aos abusos do capitalismo.

Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo.
Bret Hartman/TED
Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo.


“Dentro desse contexto, olhando especificamente para a questão das grandes fortunas, o que se percebe é que isso acaba sendo um grande perigo” , explica.

“A concentração de riquezas pode gerar despotismo, desmandos, injustiças e exploração.”

Esse alerta parece ainda mais atual diante de um cenário em que, no Brasil, os 0,01% mais ricos detêm, em média, R$ 151 milhões de patrimônio líquido cada, segundo o IBGE.

O dinheiro como bênção ou maldição

O professor ressalta que a questão central não é a existência da riqueza, mas o uso que se faz dela.

“O problema não está necessariamente nas riquezas, mas no mau uso que se faz delas. Afinal, a riqueza pode ser uma bênção, mas se mal administrada pode se transformar numa maldição.”

Dinheiro
Tay Rodrigues
Dinheiro


Essa preocupação ecoa nos evangelhos. Jesus, por exemplo, falou mais sobre dinheiro do que sobre qualquer outro tema além do Reino de Deus. E o apóstolo Paulo já alertava que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” . O risco, segundo Gerson, é transformar o dinheiro em divindade:

“Quem coloca a sua confiança, a sua vida, e deposita todas as expectativas da vida no dinheiro, passa a ser escravo dele.”

Esse risco ganha contornos práticos no Brasil contemporâneo, onde a desigualdade segue sendo um desafio. Em 2022, o rendimento médio dos 10% mais ricos foi 14,4 vezes maior do que o dos 40% mais pobres, de acordo com levantamento oficial.

Vista da comunidade do Morro Azul e prédio no bairro do Flamengo
Tânia Rêgo/Agência Brasil - 14/02/2023
Vista da comunidade do Morro Azul e prédio no bairro do Flamengo


Desigualdade e o dever da caridade

Para a Igreja, o acúmulo de riquezas não pode ser dissociado do problema da desigualdade social.

“Toda riqueza nasce do fruto do trabalho de alguém” , explica Gerson.

“Quando você tem acumulação de riqueza de um lado e exploração do trabalhador de outro, isso gera injustiça social.”

Esse cenário é particularmente visível entre mulheres e negros, que continuam entre os mais afetados pela pobreza no país, segundo dados do IBGE. Para a Igreja, a caridade se torna uma espécie de remédio diante desse quadro.

Igreja católica
Carol Garcia/GOVBA
Igreja católica


“O dever de caridade acaba sendo uma forma de conter os danos de algo estrutural, que é muito problemático” , afirma o teólogo.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja, documento oficial do Vaticano, reforça essa visão ao afirmar que ajudar os pobres não é apenas um ato de generosidade, mas de justiça: trata-se de devolver-lhes aquilo que lhes é de direito.

Um alerta que atravessa os séculos

A crítica de Jesus ao jovem rico, registrada nos evangelhos, ilustra bem a tensão entre riqueza e fé. Na passagem, Ele afirma:

“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.”

Para Gerson, a ideia não deve ser entendida literalmente, mas como uma denúncia do perigo de substituir Deus pelo dinheiro.


“É impossível alguém que coloca o seu coração nas riquezas herdar o Reino dos céus, porque prefere servir a outro senhor, que foi entronizado no coração: a riqueza.”

Isso não significa, no entanto, que todo rico esteja condenado.

“Com a riqueza, você tem um perigo a mais. Se não tomar cuidado, você faz do dinheiro o senhor da sua vida.”

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