Para especialistas, no entanto, a solução pode ser a porta de entrada para o superenvididamento
Fernanda Capelli
Para especialistas, no entanto, a solução pode ser a porta de entrada para o superenvididamento

A inflação — que corrói o poder de compra das famílias— também tem sido responsável por desestabilizar o orçamento em meio ao encarecimento de itens básicos de consumo. Se antes o brasileiro parcelava e usava o cartão de crédito para adquirir bens duráveis, agora as compras do dia a dia também estão sendo pagas assim. O brasileiro está vivendo um dia de cada vez, e com o agravamento da crise não há mais limites para dívidas. A crise tem popularizado o parcelamento de itens essenciais como compras de supermercado, alimentos, botijão de gás, gasolina e medicamentos de uso contínuo. O intuito das lojas é oferecer facilidades no pagamento e fidelizar os clientes.

A DMCard, administradora de cartões de crédito private label — os cartões de loja —, registrou crescimento de 61% no ano passado, na comparação com 2020. O volume da carteira de crédito foi de R$ 809 milhões. No volume de pagamentos, os cartões DMCard movimentaram R$ 4 bilhões no ano passado. Esse montante representa um crescimento de 37% comparado ao ano anterior. O tíquete médio foi de R$ 163,95, um crescimento de 11% acima do verificado em 2020, que foi de R$ 147,98.

O mercado tem crescido tão rápido que há substituição de cartões por pagamento via tecnologia facial. A Payface, startup que desenvolve tecnologia de reconhecimento facial para pagamentos, já iniciou o pagamento com reconhecimento facial de um cartão de marca própria.

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Para especialistas, no entanto, a solução pode ser a porta de entrada para o superenvididamento. Os juros dos cartões, no caso de atraso de pagamento ou do pagamento mínimo, são altos. Dados da pesquisadora Viviane Seda, coordenadora das Sondagens do FGV IBRE, mostram que quanto mais baixa a renda familiar, maior é o percentual de pessoa com dívida em atraso. No recorte até R$ 2.100, o número chega a 57,8%.

A servidora pública Niara Limoeiro, de 38 anos, fez um cartão de supermercado pela primeira vez motivada pelas vantagens de desconto e parcelamento que o estabelecimento oferecia para a compra de uma geladeira. Ela então passou a utilizar o cartão para compras de alimentos e outros produtos no supermercado. Os parcelamentos levaram a um descontrole de crédito. Ela conseguiu renegociar a dívida, e cancelou o cartão do supermercado. A família posteriormente decidiu adquirir outro cartão de outro estabelecimento. Desta vez, com limite menor de compras e sem a possibilidade de parcelamento.

— O limite dele é mais baixo e não deixa eu me endividar. Uso mais no fim do mês, depois do fechamento da fatura para pagar somente um mês depois — explica Niara.

Para o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), os mercados e lojas que oferecem cartões próprios na verdade estão interessados em vender produtos financeiros que são mais lucrativos e fidelizam os clientes. Segundo Ione Amorim, economista e coordenadora de produtos financeiros do Idec, os produtos são um meio para viabilizar a modalidade que tem sido lucrativa para as empresas.

Falta regulamentação

Para Ione Amorim, economista e coordenadora do Programa Financeiro do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), falta fiscalização e regulamentação dos cartões de lojas e de supermercado:

— Falta de informação clara sobre estes produtos e a forma como estão sendo vendidos. Parece uma solução rápida, fácil, mas que pode levar a descontrole financeiros por causa de juros elevados. Quem está fiscalizando isso? Quem deixa colocar esse tipo de produto no mercado — questiona Ione.

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Questionado sobre dados do setor e transações com estes cartões, o Banco Central informou que não dispõe das informações. Segundo o órgão, os cartões chamados no mercado de “private label” — emitidos por grandes varejistas e que só podem ser usados no estabelecimento que o emitiu ou em redes conveniadas — não estão sujeitos à regulação do Banco Central e por isso não são supervisionados.

A Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviço (Abecs) informou que desde 2013 não produz estudos sobre o setor.

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"Ia trocar a geladeira e fiz o cartão pois, no site do supermercado, havia a informação de que o valor seria mais barato com o pagamento no cartão da loja, com parcelamento em 12 vezes sem juros. Depois da compra, eu acabo tendo que manter o cartão para pagar as parcelas. Utilizo o mínimo possível para evitar pagar a anuidade do cartão. Quando lembro que não pagaria anuidade, sempre acabo comprando uma coisinha, ou abasteço o carro em um posto que aceita aquele cartão do supermercado. Tento usar o mínimo possível ou numa eventualidade. Além disso, tenho outros dois cartões de crédito para compras com limite maior na transação".

Acesso rápido e facilitado com juro alto

A forma da oferta de crédito em muitos casos é umas das armadilhas do envidamento, explica o subcoordenador do Núcleo de Defesa do Consumidor, Thiago Basílio. Segundo ele, o acesso facilitado aos cartões, com rápida análise de crédito, promessas de desconto, parcelamento e facilidades, escondem as armadilhas dos juros altos e do consumo por impulso, agravado por um momento de recrudescimento da crise , queda na renda e disparada de preços:

— O grau de comprometimento da renda com as despesas ordinárias, os gastos corriqueiros do dia a dia, tem aumentado o drama das famílias. A questão da necessidade leva a uma armadilha. A pessoa começa a gastar um dinheiro que não tem. O sistema financeiro oferece mais crédito, e a bola de neve vai aumentando — ressalta o defensor.

Já o professor Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV, faz as contas e sugere que em caso de necessidade é ideal é parcelar itens com maior durabilidade. Um exemplo é verificar se o botijão de gás dura mais de um mês na casa, e parcelar pelo tempo que o produto ainda estará em uso:

— Se o botijão dura 3 meses, é possível parcelar em três vezes, porque a família terminará de pagar quando tiver que comprar novo produto e não terá um passivo para pagar e ainda o próximo botijão. É assim que o consumidor deve fazer suas contas. Com orçamento no limite, ir empurrando as contas do mês para frente, mas uma hora a conta não fecha. A pessoa compra comida todo mês, mais de uma vez por mês, se for atrasando o pagamento chega uma hora que está pagando o que consumiu lá atrás e mais o que vai ter comer — professor Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV.


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