Diretor de Concessões e Privatizações do BNDES, Fábio Abrahão, afirma que o banco já tem uma carteira de investimentos no setor de R$ 90 bilhões
Sophia Bernardes
Diretor de Concessões e Privatizações do BNDES, Fábio Abrahão, afirma que o banco já tem uma carteira de investimentos no setor de R$ 90 bilhões

Diretor de Concessões e Privatizações do BNDES, área responsável pela estruturação de projetos de leilões de saneamento na instituição, Fábio Abrahão afirma que o banco já tem uma carteira de investimentos no setor de R$ 90 bilhões. Esse número ainda deve crescer em cerca de 20% a 25%, já que o banco negocia com novos estados. O BNDES desenvolve um trabalho que inclui a montagem de projetos e a atração de investidores para leilões de saneamento — o que já foi feito no Rio e em Alagoas e está sendo desenvolvido em outros estados, como Amapá e Rio Grande do Sul.

Qual a avaliação do BNDES sobre os leilões realizados até agora?

Tem sido um grande sucesso sob vários aspectos. O primeiro aspecto é a capacidade de a gente estruturar leilões que conseguem unir os três pilares do bom projeto: atender a política pública, fazer algo voltado para o consumidor e atrair o mercado investidor. E a gente consegue fazer essa composição em escala. Não adianta fazer um modelo excelente, mas aplicável apenas para uma cidade, não resolve o Brasil assim. A nossa carteira de saneamento hoje, e ela está expandindo, impacta algo em torno de 30 milhões de pessoas. Tem os leilões de Alagoas, Rio de Janeiro, Amapá, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraíba e Sergipe.

Há conversas com outros estados?

Temos. Mas como estamos em processo de fechar os contratos, não divulgamos. Vamos expandir bastante. A gente é capaz de aumentar nossa carteira, no curto prazo, na ordem de 20% a 25%. É muita coisa.

Qual o trabalho desenvolvido pelo BNDES nos projetos?

Tem uma vertente da estruturação, cujo cliente é o poder concedente, a conjugação de estados e municípios. A gente avalia a necessidade de engenharia, as opções de investimentos, os impactos ambientais, a parte econômica do projeto, a aderência à questão regulatória e a modelagem do edital. E duas partes invisíveis. Uma é a ativação do mercado investidor. Fazemos road shows constantes, conversando com companhias que operam no Brasil e companhias do exterior, com bancos. Esse é um processo contínuo de troca de informação e de ideias, de mostrar o pipeline. E tem a terceira parte, também de forma contínua, que é estabelecer conversas com o público em geral e com os órgãos de controle. Isso tem dado certo e gera um equilíbrio entre ser capaz de atrair investimento privado, atender a política pública e produzir algo que seja vantajoso para o consumidor.

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Há necessidade de o banco buscar aportes para financiar os projetos?

Não precisa. A gente faz o que se chama de crowding in, estamos atraindo bancos e instituições para os projetos. A nossa carteira hoje de saneamento tem uma mobilização de capital de R$ 90 bilhões. É muito importante abrirmos o mercado brasileiro para outras fontes de capital competitivas. Buscamos trazer outras entidades que vão fazer parte desses projetos. Com esse volume gigantesco de capital que vai vir para o Brasil, quanto mais fontes ativas, melhor. Vemos o interesse enorme de fontes privadas e de organismos multilaterais.

A formação de blocos regionais é fundamental nos leilões. Está havendo dificuldade nisso?

O país está aprendendo a fazer isso. É uma decisão de municípios associados aos estados. É um processo de aprendizado, mas ainda tem muito para evoluir. Um caso emblemático é o Acre. Esse é um projeto pronto, mas que Rio Branco tomou a decisão de não seguir. Se os grandes municípios e os municípios organizados caminharem sozinhos, vai deixar gente para trás. Não é esse o espírito. É muito importante que os municípios maiores e mais organizados façam parte dos blocos. Isso funcionou muito bem em Alagoas, no Rio de Janeiro, está funcionando na modelagem do Amapá. É algo que a gente acredita fortemente.

O Amapá também tem comunidades pequenas espalhadas. Como o projeto resolve isso?

A gente incluiu no Amapá que para cada montante de outorga há uma contrapartida de investimento nas comunidades remotas. Sai da lógica de atender só núcleos urbanos e começa a ter capacidade de atender uma capilaridade através do mesmo projeto. Essa é a importância de blocos.

Depois que faz o leilão, o BNDES continua no processo?

Do ponto de vista de estruturação, o BNDES sai. A regulação do setor está em processo de amadurecimento. Então, nas nossas modelagens, a gente incorpora elementos para fortalecer a regulação. Um é o alinhamento e submissão às normas da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), que também está em processo de amadurecimento. Também apoiamos o fortalecimento das agências locais. A gente faz isso direcionando recursos do processo de concessão para as agências locais. Muitas vezes, também colocamos ferramentas de apoio, como verificadores independentes. Então, embora o banco não faça mais parte do projeto após o leilão, a gente cria nos contratos as ferramentas para fortalecer a regulação.

É possível mensurar o impacto dos projetos na geração de empregos?

Isso é muito rápido. O concessionário de Alagoas, até o fim do ano, vai abrir 2.200 posições diretas. Normalmente, o indireto é quatro ou cinco vezes isso. E as obras ainda não começaram. No Rio de Janeiro, os operadores estão abrindo 6 mil posições diretas. Além do impacto ambiental muito forte, o saneamento tem impacto em saúde, ele é uma máquina de geração de emprego no país, e emprego descentralizado. A gente acaba transformando a vida das pessoas em várias dimensões.

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