Banco Central do Brasil
Redação 1Bilhão Educação Financeira
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O Banco Central (BC) deve aumentar em um ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, para o ano de 2021. A previsão é um consenso entre os analistas de mercado ouvidos pelo GLOBO para a revisão que será anunciada nesta quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Com isso, a taxa que hoje está em 4,25% subiria para 5,25%. Até o fim do ano, porém, a expectativa é que haja novos aumentos, levando a Selic para o patamar de pelo menos 7%.

Caso as previsões se concretizem, essa seria a maior alta desde o dia 5 de dezembro de 2017, quando o comitê aumentou a Selic em 1,15%. Já a taxa anual de 5,25% seria a maior desde 18 de setembro de 2019, quando bateu 5,5%. A última vez que a Selic encerrou um ano perto dos 7% foi em 2017.

Há dois fatores que influenciam no aumento dos juros no Brasil neste momento: a inflação, que já acumula alta de 4,88% em 2021, e o risco fiscal no país.

Até o dia 22 de julho, o mercado estimava que o Copom pudesse aumentar a Selic em 0,75 ponto percentual em agosto. No entanto, com a divulgação no dia 23 da prévia da inflação de julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que veio em 0,72%, a maior variação para o mês desde 2004, os analistas revisaram a expectativa para uma alta de um ponto percentual.

"O IPCA-15 veio acima das expectativas do mercado, influenciado principalmente pelo aumento da conta de luz, em função da crise hídrica", explica Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual Digital.

O custo da energia elétrica para os consumidores subiu 4,79% na prévia da inflação de julho, depois de já ter subido 3,85% em junho.

Aumentar a taxa de juros é uma estratégia utilizada pelo Banco Central para frear o consumo e, assim, reduzir a demanda, fazendo com que haja menos espaço para aumento de preços.

Risco fiscal pode impactar na inflação

Uma política de injeção de recursos na economia, como o aumento do valor do Bolsa Família, por exemplo, que vem sendo estudado pelo governo, pode acabar gerando mais inflação e, consequentemente, uma maior taxa de juros, explica Caio Megale, economista-chefe da XP.

"Há dois lados nessa questão. Uma política expansionista dá mais combustível para o consumo. E, por outro lado, há o risco fiscal, caso o teto de gastos seja rompido, o que faz com que o dólar suba, aumentando os preços, o que também gera mais inflação", aponta.

Para Rachel de Sá, chefe de Economia da Rico Investimentos, discussões e incertezas atuais sobre as regras fiscais, com um Bolsa Família aumentado e a incerteza sobre o pagamento dos precatórios, pesam nas expectativas de inflação.

"No Brasil, essa questão de expectativa de aumento da inflação é ainda mais importante para a política monetária, pelo nosso passado. Então, pressões correntes, mesmo que sejam temporárias, já afetam as expectativas futuras mais do que estruturalmente deveriam. E isso se torna mais forte, conforme a percepção da situação fiscal piora."

O objetivo do BC é manter a inflação o mais próximo possível da meta, que é de 3,75% este ano, sendo que a margem de tolerância é de 1,5 ponto percentual, ou seja, de 2,25% a 5,25%.

No último relatório, divulgado no fim de junho, a autoridade monetária estimava que o IPCA, que é a inflação oficial do país, fecharia o ano em 5,82% no cenário base. O mercado já aponta para uma inflação de 6,5% a 6,75% este ano.

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Apesar do cenário de pandemia, com 14,8 milhões de desempregados no país, e grande parte da população com poder de compra reduzido, o superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, Fernando Machado Goncalves, explica que a interferência do BC se faz necessária para conter a demanda agregada como um todo, tanto de consumo, quando de investimentos.

"Se o BC não aumenta a Selic, a inflação desancora, e o custo de trazer o índice para baixo é muito maior. No final das contas, a atividade econômica acabaria sofrendo ainda mais."

Novas altas até o fim do ano

Apesar de boa parte dos analistas esperarem uma Selic de 7% no fim do ano, há quem diga que a taxa pode chegar a até 7,5%.

Dos 75 investidores institucionais ouvidos pela XP entre 2 e 3 de agosto, 77% acreditam que o Copom anunciará um aumento de mais um ponto percentual em setembro, seguido por 0,75 pontos em outubro e 0,5 pontos em dezembro, com zero ou menos em fevereiro. Para o fim do ciclo, a mediana dos investidores indica taxa Selic final em 7,5%.

Relatório do BTG também indica Selic nessa faixa e já precifica até mesmo em 7,75% caso a inflação continue superando as expectativas.

O Itaú projeta novos aumentos de 0,75 p.p. em outubro e 0,5 p.p. em dezembro, fazendo com que a taxa feche o ano em 7,5%. Já XP espera que haja um novo aumento de 0,5 p.p. em novembro, com a Selic encerrando o ano em 6,75%.

Larissa Quaresma, analista da Empiricus, acredita que para que a Selic encerre o ano acima de 7% seria necessário que houvesse algum evento inesperado, como a intensificação da pandemia com o avanço da variante Delta.

"As cadeias produtivas estão voltando ao normal, e isso contribui para uma inflação decrescente."

Álvaro Frasson, do BTG Pactual Digital, porém, acredita que ainda há espaço para a inflação crescer.

As quedas na temperatura, por exemplo, prejudicam as safras de alimentos no país, levando a uma redução de oferta e, consequentemente, um aumento nos preços que ainda não foi contabilizado pelo IPCA.

Além disso, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) manteve a bandeira vermelha patamar 2 para o mês de agosto.

"Hoje os contratos de DI futuros, que mostram a expectativa do mercado para a taxa de juros, estão em 4,5%. Para o início de janeiro, o DI esperado é de 7,75%, ou seja, o mercado de juros já projeta mais de 7% para o início do ano", afirma o economista.

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