Ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ser convocado pela CPI da Covid
Alan Santos/Presidência da República
Ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ser convocado pela CPI da Covid

Após o depoimento do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta , o vice-presidente da CPI da Pandemia, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que “tornou-se inevitável a convocação do ministro da economia, Paulo Guedes ”, pela comissão. Durante a oitiva, Mandetta afirmou que a equipe econômica ignorava alertas e "não compreendia o tamanho" da crise.

"Acredito que torna-se urgente , é uma avaliação minha, a apreciação da convocação do requerimento do ministro Paulo Guedes" disse o senador.

Randolfe Rodrigues é o autor do requerimento que pede a convocação do ministro da economia. Segundo ele, ficou evidente, com o depoimento de Mandetta, que havia dois comandos na direção das ações em relação à pandemia, e que o conflito entre saúde e economia contou com a participação de Guedes.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), informou que apoia a convocação do ministro da economia. 


Principais motivos que justificam a convocação do ministro da Economia 


1. "Distanciamento"

Em resposta a um questionamento da senadora Leila Barros (PSB-DF) durante a audiência desta terça-feira, Mandetta afirmou que havia um “ distanciamento ” entre as equipes do Ministério da Saúde e da Economia, e que isso teria afetado a avaliação dos impactos econômicos da pandemia e as respostas do governo até em relação ao auxílio emergencial. Na avaliação de Mandetta, “muitas tomadas de decisão acabaram sendo equivocadas”.

"Ouso dizer que essa ideia de que iria haver um efeito rebanho e de que [a pandemia] acabaria em setembro, outubro, como eles pensaram: 'Olha, em setembro, outubro isso acabou, porque já tem o efeito rebanho'. Acho que isso acabou induzindo a fazerem a proposta de um auxílio de R$ 600, imaginando que haveria três, quatro meses de auxílio e depois ele se desfaria, não vendo que a doença estava só no seu primeiro terço" afirmou Mandetta.

2. Contrapor saúde e economia

Para Mandetta, o governo passou a contrapor saúde e economia , um grande erro, já que os países que colocaram a saúde em primeiro lugar tiveram melhores resultados econômicos. Para ele, isso talvez tenha acontecido por influência do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes. Parte da equipe econômica e do governo, continuou, acreditava que a pandemia acabaria no final de 2020. Em resposta à senadora Leila Barros, que perguntou sobre o descompasso entre Saúde e Economia na pandemia, Mandetta voltou a afirmar que equipe econômica ignorava alertas e "não compreendia o tamanho" da crise. 

"Eu disse a todos eles quando a pandemia ia crescer, quando ia ser o aumento, quando que ela ia estabilizar, quando ela ia cair, o intervalo para ter uma segunda onda, o número possível de mortes em 2020, o número possível de mortes até o final da pandemia. Todas essas informações eles tinham. Agora, por que pautaram de uma maneira diferente, eu realmente fico em dívida com a senhora" afirmou Mandetta em resposta à Leila Barros.

Além disso, Mandetta acusou Guedes de ser " desonesto intelectualmente " por ter insinuado que ele não teria agido para a compra de vacinas. 

Logo em seguida às respostas do ex-ministro da Saúde, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) comunicou a apresentação de requerimento para convocar o ministro da Economia, Paulo Guedes, a prestar depoimento à CPI.

3. Testes vencidos

O senador Izalci Lucas (PSDB-DF) quis saber por que o SUS não tem um sistema informatizado unificado. Mandetta disse que isso sempre foi um desafio, mas havia projeto nesse sentido antes da pandemia, interrompido após sua gestão.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) perguntou a opinião de Mandetta sobre a execução de medidas sanitárias pelo governo. Para o ex-ministro, o país permitiu a continuação de atividades de alta contaminação e só agiu depois do " leite derramado ".

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Instado pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), sobre gastos do governo testes de coronavírus que logo teriam a validade vencida, Mandetta disse que vai entregar à CPI dados sobre compra de testes. 

4. Cloroquina

No início da tarde, em resposta ao relator da CPI da Pandemia, Renan Calheiros (MDB-AL), Mandetta falou sobre um suposto documento que tratava da bula do medicamento conhecido como cloroquina .

"Eu testemunhei várias vezes reunião de ministros em que o filho do presidente [Carlos Bolsonaro], que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás tomando as notas da reunião. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da Presidência. Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca havia conhecido. O presidente tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus. O próprio presidente da Anvisa, Barra Torres, que estava lá, que falou: "Isso não". E o ministro Jorge Ramos falou: "Não, isso daqui não é nada da lavra daqui. Isso é uma sugestão". Mas é uma sugestão de alguém. Alguém pensou e se deu ao trabalho de botar aquilo num formato de decreto. Eu imagino que ele construiu fora do Ministério da Saúde alguns aconselhamentos que o levaram para essas tomadas de decisões que ele as teve, mas eu não saberia nomear a cada uma delas" disse Mandetta.

Simone Tebet se disse perplexa.

"O que me espantou  foi o fato de que, embora os próprios ministros tenham se recusado a dizer que esse documento era oficial, ali um servidor público federal colocou aquele documento sobre a mesa. Fica aqui a minha maior perplexidade diante desse fato. O que demonstra que, de alguma forma, houve erros e esses erros precisam ser punidos, seja de quem for. Repito: do prefeito, do governador, da autoridade federal, porque nós estamos falando de crime contra a humanidade. Pandemia não atinge apenas o cidadão ou a cidadã brasileira. A nossa ação ou a nossa omissão interfere na vida das pessoas de outras nacionalidades. É por isso que nós hoje somos párias para o mundo" afirmou a senadora.

5. 411 mil mortos

A líder da bancada feminina no Senado, senadora Simone Tebet (MDB-MS), quis saber de Mandetta se o número total de mortos no Brasil poderia ser menor se o governo tivesse levado em conta os alertas científicos. Segundo Mandetta, o governo poderia ter evitado o colapso do sistema de saúde e amenizado o avanço da pandemia se tivesse promovido as medidas sanitárias. 

"Teríamos feito muito melhor, senadora. Essa segunda onda é o ápice desse tipo de decisão tóxica e equivocada. Acredito que essa segunda onda seria menor" disse Mandetta.

Em resposta a Simone, Mandetta disse que o ministério havia preparado campanha publicitária contra covid-19, mas o governo Bolsonaro não queria comunicar medidas de precaução: preferia um tom "ufanista".

Outros requerimentos

Segundo Randolfe, ainda não há data definida para a votação do requerimento de convocação de Guedes, mas ele considera possível incluí-lo na reunião administrativa desta quarta-feira (5), o que depende de um acordo. Entre os requerimentos já “consensuados” para votação, segundo Randolfe, está o que pede a vinda de Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação do governo federal, e de representantes de laborátorios e instituições que produzem vacinas contra a covid-19. 

O senador também espera ver aprovada a convocação do ministro da Justiça, Anderson Torres, que disse em entrevista à revista Veja que vai requisitar à Polícia Federal informações sobre os inquéritos que envolvem governadores em supostos desvios de dinheiro da saúde.

"É inevitável apreciar amanhã [quarta-feira] o requerimento relacionado ao senhor Fabio Wajngarten, a convocação [dos representantes] dos diferentes imunizantes e, acredito, a do ministro da Justiça por conta de sua recente entrevista" disse Randolfe.

Para o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), o depoimento de Mandetta foi “além de qualquer expectativa. Sobre a audiência com o ex-ministro Eduardo Pazuello, que estava prevista para esta quarta-feira (5) mas acabou sendo transferida para o dia 19, Renan afirmou que o adiamento representou simultaneamente "perda e ganho".

"Uma perda porque só vamos ouvi-lo no dia 19, e ganho porque parece que está havendo uma conversão: ele quer depor remotamente porque é contra a aglomeração" declarou Renan.

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