Críticas de Lula a Bolsonaro: especialistas alertam que situações dos governos são diferentes
Montagem/Reprodução
Críticas de Lula a Bolsonaro: especialistas alertam que situações dos governos são diferentes

Em seu discurso após ter as condenações no âmbito da Lava-Jato anuladas , o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a política econômica do governo Jair Bolsonaro e fez comparações entre ele e atual mandatário do país. O petista afirmou ser contra a dolarização dos preços dos combustíveis , ressaltou o aumento no valor da cesta básica e criticou a queda no Produto Interno Bruto (PIB) . O iG ouviu especialistas para comparar a política econômica dos dois governos.

Em críticas a Bolsonaro, Lula afirmou que o país “não tem governo e não cuida da economia”. O ex-presidente também rechaçou as privatizações que estão em pauta no Ministério da Economia.

"Esse país não tem governo. Esse país não cuida da economia. Não cuida do emprego, não cuida do salário, não cuida da saúde, não cuida do meio ambiente, não cuida da educação dos jovens, da meninada da periferia. Ou seja, do que eles cuidam?", afirmou.

"Vocês já ouviram o Guedes falar em desenvolvimento econômico, geração de emprego, distribuição de renda? É só vender, vender. O que vai fazer nossa dívida diminuir em relação ao PIB é desenvolvimento econômico", concluiu o petista.

Lula criticou as ações da Lava-Jato e afirmou que a operação causou a redução de 4,4 milhões de empregos e prejuízo econômico de R$ 172 bilhões, baseado em pesquisa Dieese-CUT.

"Por conta da Lava Jato, o Brasil deixou de receber, em investimento, R$172 bilhões. E a destruição que ela fez na corrente geradora de emprego do Brasil, provocou a perda de 4.400.000 de empregados", ressaltou.

O professor de economia do Ibmec-SP, Paulo José de Azevedo, afirma que a situação nos últimos 10 anos mudou e que o ex-presidente não deve responsabilizar seus sucessores para a crise atual.

“Nos governos Lula a economia mundial era muito favorável e ele aproveitou esse momento. Nos últimos 10 anos a economia mundial estava pior e a Dilma estava no comando. Não dá para atribuir a culpa no Temer e no Bolsonaro somente”, afirma.

Azevedo explica que a crise foi provocada por erro na política econômica durante o governo Dilma Rousseff. No entanto, acredita que Bolsonaro também pode ser responsabilizado pelos problemas econômicos atuais.

“O Bolsonaro tem uma parcela de culpa nisso. Ele tem um discurso que não tem certeza, ele muda muito de opinião. Ele tem uma visão liberal, mas ele intervém em diversos pontos, nos ministérios e estatais”, ressalta.

Preço dos combustíveis

O ex-presidente Lula afirmou ser contra a dolarização do preço nos combustíveis, ou seja, o aumento nos valores depende dos reajustes no barril do petróleo no mercado internacional. Ele ressaltou a produção de petróleo no Brasil e ressaltou não haver necessidade de comprar o produto de outros países, como Estados Unidos.

“Não é possível permitir que o preço do combustível brasileiro tenha que seguir o preço internacional, se nós não somos importador de petróleo. O Brasil é exportador, se nós produzimos a matéria-prima aqui, se nós retiramos do fundo do mar, se nós conseguimos refinar aqui, nós produzimos gasolina de avião, nós produzimos diesel, e nós produzimos na qualidade que produz a União Europeia”, disse.

Na época, o valor do etanol nas bombas dos combustíveis era de R$ 1,48, enquanto a gasolina custava R$ 2,52 e o diesel R$ 1,93. Em 2019, o valor dos produtos variavam entre 3,15 e R$ 4,55.

O especialista em agronegócio, José Carlos de Lima Júnior, afirma que a mudança nessa política neste momento poderá causar prejuízos econômicos ao país. Lima Júnior remeteu as atitudes de Dilma Rousseff nas contas de energia para comparar as interferências nos preços.

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“Desde 90, os países se comprometeram em não intervir nas empresas para modificação de preços. As interferências fazem que os países não vejam com bons olhos essas mexidas. Os investidores precisam de previsibilidade para colocar dinheiro. Isso acaba gerando um posto de vista negativo e poderá trazer prejuízos financeiros”, disse o especialista.

“A interferência nas contas de energia em 2012 fora muito danosa para a economia do país. Naquele momento o custo estava alto por falta de água”.  

Sobre a produção do petróleo, o especialista em agronegócio lembra que o país precisa aumentar a produção e valorizar o produto internacionalmente.

“Há uma ausência de política energética. O setor que puxa a economia é o agronegócio. Esse problema se desdobra na parte de energia elétrica. Hoje o Brasil produz muito mais óleo do que produz há 10 anos. Isso é porque para aumentar a extração de óleo cru e não a refinação”, ressaltou.

“A gasolina ainda está 3% atrás para atingir a paridade internacional. Todo mundo culpa a Petrobras, mas ela não tem nada com isso. A culpa é da defasagem do real perante o dólar”, explica Lima Júnior.

Emprego

Em seu pronunciamento, Lula afirmou que o país perdeu 4,4 milhões de oportunidades de trabalho após a deflagração da Operação Lava-Jato. Ele ainda fez um contraponto entre seu governo e o atual mandato e criticou a falta de valorização ao trabalhador.

“Só por conta da Lava Jato, segundo estudo do Dieese, o país perdeu 4,4 milhões de empregos. Esse povo não está precisando de arma, está precisando de emprego”, afirmou.

Em seu último ano de governo, o país tinha 8,1% da população desempregada, um aumento de 2% se comparado à 2008. Em 2019, sob comando de Jair Bolsonaro, o emprego cresceu 0,6%, mas o desemprego chegou a atingir 15% da população.

Na época, o secretário de Trabalho do Ministério da Economia, Bruno Dalcolmo, afirmou que os dados apresentavam recuperação da economia do Brasil.

"Mais um sintoma de retomada da economia brasileira e da confiança do empresariado na política econômica do governo", afirmou

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O Dia
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O professor do Ibmec-SP, Paulo José de Azevedo, explica que as políticas econômicas e de controle da inflação devem ser planejadas. Ele lembra que os governantes precisam equilibrar fator econômico e empregatício para garantir a estabilidade econômica.

“Não dá para mexer na taxa de juros e aumentar o emprego e diminuir inflação ao mesmo tempo. Se eu aumento os juros, posso ter prejuízo na geração de empregos e queda na inflação. Se a taxa cai, o emprego aumenta e a inflação sobe”, explica.

PIB e Inflação

Enquanto em 2009 o PIB do Brasil fechou em estabilidade, com recuo de 0,3% e faturamento de 3,2 trilhões, dez anos mais tarde a economia do país encerrou com alta de 1,1% e arrecadação de 7,3 trilhões. Embora tenha diferenças entre os números, o professor de economia do Ibmec-SP afirma que não podemos nos iludir e comparar as épocas entre os dois mandatos.

“O Lula encontrou uma política economia mais estável que o Bolsonaro. No primeiro governo, a economia mundial era mais estabilizada. Em 2008, a economia do governo conseguiu segurar o baque da crise nos EUA. No entanto, comparar os dois governos é uma situação muito complicada. Não trocou apenas o presidente, houve várias mudanças mundiais”, afirma.

Embora o consumidor sinta o aumento nos preços nos alimentos e queda no poder de compra, os dois mandatos apresentaram índices parecidos no indicador de inflação em 2009 e 2019. No último ano de Lula no Planalto, o ICPA encerrou o ano em 4,5% e no primeiro ano de Bolsonaro o índice fechou em 4,31%.

Já em relação ao PIB, o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou na ocasião que os dados eram positivos e mostram melhora nos indicadores de confiança no país. 

"À medida que as reformas vão acontecendo, e elas vão ser implementadas, o Brasil vai reacelerando. Então, está tudo dentro do previsto. Eu nem entendi essa comoção toda: 'Ah, 1,1%'. O que que eles esperavam? Era 1% que nós tínhamos dito que ia crescer no primeiro ano. No segundo ano, a gente acha que é acima de 2%, prosseguindo com as reformas", disse Guedes em 2019. 

Azevedo alerta para as diferenças econômicas entre os dois momentos, mas lembra que o índice medido pelo IBGE não contabiliza alguns setores que são essenciais para compor a relação de preços do país.

“A pesquisa não contabiliza todos os setores. Não da para comparar ambos justamente porque são épocas distintas. Há uma participação do Bolsonaro na crise, mas não podemos tirar os méritos dos outros presidentes”, concluiu

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