Ford anunciou que encerrará as atividades no Brasil
Reprodução/ iG Minas Gerais
Ford anunciou que encerrará as atividades no Brasil

Na manhã desta terça-feira, João Paulo Pereira, gerente de vendas da concessionária Ford Studio , na Zona Oeste da capital paulista, recebeu apenas um pedido de cancelamento de venda, a de um automóvel que havia vendido no fim de semana.

Isso acabou sendo interpretado como um bom sinal por ele, que agora espera que vendas da marca sigam bem no país depois do anúncio, na segunda-feira, do fechamento das fábricas da Ford no Brasil.

"Foi um baque, todo mundo está assustado. Mas, até agora, parece que os consumidores estão reagindo melhor que no anúncio do fechamento da fábrica de São Bernardo" disse. "Mas vamos ter que acelerar nossa adaptação", completou.

Profissionais de vendas de automóveis como Pereira e especialistas no setor afirmam que os automóveis da Ford em circulação no país devem perder valor com o fim da fabricação dos modelos no Brasil, mas, por outro lado, os interessados em comprar um carro novo podem encontrar descontos sobre os estoques da marca a caminho das concessionárias.

Entenda o que deve mudar em três pontos:

Carros perdem valor

Raphael Galante, consultor da Oikonomia Consultoria Automotiva, diz que a desvalorização é uma consequência inevitável para quem acabou de tirar um Ford zero da concessionária, mas ainda não se sabe quanto.

"Quem comprou um carro Ford nos últimos 60 dias realmente viu seu produto desvalorizar. Quanto, ainda não sabemos. Por outro lado, se você pensar em uma pessoa que quer comprar um carro e quer aproveitar um bom desconto, essa é a hora. Ford e distribuidores vão ter que desovar todo o estoque que eles têm. Podemos ter boas opções de compra de um carro Ford que vai sair de linha, mas com um preço interessante", afirma Galante.

Descontos podem favorecer quem quer comprar

Pereira concorda com Galante. Ele espera que a montadora e a rede de concessionárias anunciem logo descontos a serem aplicados aos automóveis em estoque e no pátio das fábricas. Isso ocorreu quando a empresa decidiu parar a fabricação de caminhões no Brasil, lembra o gerente de vendas.

Já era conhecido o plano da Ford de priorizar SUVs e pick-ups, em detrimento de modelos como Ka e EcoSport, que são considerados defasados pelo mercado. Neste ano são esperados quatro lançamentos de veículos de maior valor agregado da Ford.

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Com sua experiência na gerência de vendas, Pereira avalia que, para este tipo de consumidor, o fato de o carro ser importado de fábricas da Argentina ou do Uruguai não assusta.

"Eu antes vendia duas Ranger por mês, quando tinha a fábrica em São Bernardo. Este mês, até o dia 12, já vendi oito. Claro que isso não é simples. A gente vendia muito Ka, dava volume, ajudava na moral dos vendedores" diz ele, cuja concessionária emprega 60 pessoas. "Por outro lado, a manutenção e os serviços vão continuar, somos a concessionária que mais movimenta em serviços da marca na Grande São Paulo", concluiu.

Para Fernando Alves Trujillo, a situação gerada pelo fim da produção da ord no país é diferente do que ocorreu com outras marcas no passado, como as chinesas JAC ou Chery, em sua primeira vinda ao Brasil sem o grupo Caoa, em que houve uma forte desvalorização dos automóveis quando a fabricação foi suspensa:

"A marca Ford é relevante, ela continuará aqui, tem boa rede de concessionários. E a empresa vai tentar se posicionar de forma mais premium . Não é preciso correr para vender um carro Ford, ele vai se desvalorizar um pouco, mas continua sendo de uma empresa confiável", disse o especialista.

Direito de assistência é garantido

O advogado Igor Marchetti, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), afirma que todos os direitos dos motoristas que compraram carros da Ford no país estão mantidos:

"O fato de a fábrica não estar mais no país não limita os direitos do consumidor, existindo obrigação das concessionárias e da rede Ford de fornecer as peças de reposição, bem como de garantir seus direitos caso eventuais problemas com os veículos surjam durante a utilização".

Ele pondera, no entanto, que o consumidor poderá lidar com prazos maiores para a reposição de peças:

"A única dificuldade pode ser em relação ao tempo para o recebimento das peças, uma vez que não haverá mais fábrica no país. No entanto, todos os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor devem ser respeitados".

A Ford informou que manterá a fabricação de peças no país por mais algum tempo para não causar desabastecimento nas redes de serviços. A empresa informou que vai manter a assistência total ao consumidor, com operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia para seus clientes no Brasil e na América do Sul.

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