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Joyce N. Boghosian/White House
Reportagem do The New York Times diz que Trump pagou só US$ 750 em imposto de renda no ano em que foi eleito e ficou 10 anos sem pagar

O jornal norte-americano The New York Times publicou neste domingo (27) trechos daquele que era considerado um dos segredos mais bem guardados do presidente Donald Trump: suas declarações de imposto de renda, que, diferentemente de seus antecessores na Presidência, ele sempre se recusou a revelar.

Os documentos mostram uma série de manobras fiscais que permitiram a Trump não pagar imposto de renda em dez dos 15 anos anteriores a sua eleição, em 2016. Quando o fez, ele desembolsou valores pequenos diante de suas posses: em 2016, Trump pagou apenas US$ 750 (R$ 4.171) em imposto de renda à Receita federal, mesmo valor desembolsado em 2017, quando já ocupava a Casa Branca.

Os documentos obtidos pelo jornal incluem as declarações de renda feitas por Trump e por suas empresas por mais de duas décadas, com exceção das declarações de pessoa física para os anos de 2018 e 2019. Eles mostram que o imposto pago pelo presidente é muito inferior à média desembolsada pelos bilionários americanos, de 24%, que já é considerada baixa.

Segundo o jornal, os números mostram a extensão da Organização Trump, que compreende cerca de 500 companhias e projetos, que operam em uma rotina de ganhos e perdas na casa dos milhões de dólares.

A participação de Trump na franquia do reality show "O Aprendiz", por exemplo, lhe rendeu US$ 427,4 milhões (R$ 2,37 bilhões), dinheiro esse investido em boa parte em propriedades, como seus campos de golfe e hotéis, que, por sua vez, registram perdas anuais de algumas dezenas de milhões de dólares.

A relação de ganhos e perdas milionárias é justamente o mecanismo que lhe permitiu evitar pagar impostos por tanto tempo, ou então desembolsar um valor quase simbólico para o homem que usa a sua fortuna como símbolo de sua alegada capacidade de gestão. Nos quatro anos que antecederam a eleição, seus contadores conseguiram fazer com que não pagasse nem um centavo sequer, mesmo em um período em que seus ganhos subiram.

"Essa equação é um elemento chave na alquimia das finanças de Donald Trump: usar os rendimentos obtidos com sua celebridade para comprar e incrementar negócios de risco, depois usando seus prejuízos para evitar os impostos", escreveu a reportagem, pontuando ainda que Trump é o dono da maior parte dos negócios que levam o seu nome, permitindo que se utilize dessa ferramenta prevista nas leis americanas.

Em um dos raros períodos em que pagou impostos, entre 2005 e 2007, quando não tinha prejuízos acumulados para usar em suas declarações de renda e quando suas contas estavam sendo abastecidas pelo dinheiro obtido com a franquia de "O Aprendiz", Trump desembolsou cerca de US$ 70 milhões (R$ 389 milhões). Nos anos seguintes, deu início a uma série de compras de empresas e propriedades, muitas das quais jamais deram lucro.

Apesar de mostrar com detalhes o funcionamento das contas do presidente/empresário, os documentos obtidos pelo The New York Times não trazem informações sobre casos polêmicos, como os pagamentos à atriz Stormy Daniels, com quem teria tido um caso em 2006, ou sobre negócios questionáveis com a Rússia. Contudo, o jornal promete novas reportagens sobre os registros, que foram obtidos através de uma fonte que tinha acesso aos documentos.

Os advogados do presidente afirmaram que os fatos "não parecem corretos", e que ele pagou "dezenas de milhões de dólares" em impostos nos últimos anos. Em entrevista coletiva, Trump chamou a reportagem de "notícia falsa" e disse ter pagado milhões em impostos de renda ao estado de Nova York.

Ele não falou da disputa que trava nos tribunais com a Receita dos EUA em torno de restituições no total de US$ 72,9 milhões (R$ 405 milhões) que recebeu a partir de 2010, relacionadas a grandes prejuízos apontados em suas declarações. Se for derrotado, pode ter que pagar mais de US$ 100 milhões (R$ 556 milhões) em multas.

Trump foi o primeiro candidato à Presidência a não revelar suas declarações de renda desde 1976, e  ainda na campanha travava uma batalha para manter seus ganhos e perdas em sigilo. Em julho, a Suprema Corte afirmou que ele não pode impedir que promotores tenham acesso aos documentos, em especial na Justiça de Nova York, onde ele é alvo de investigação por pagamentos considerados suspeitos. Por outro lado, conseguiu uma vitória política ao impedir que a Câmara dos Deputados acesse as informações, na prática impedindo que elas viessem a público antes das eleições de novembro.

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