Racismo
Arquivo pessoal
Bernardo Marins, de 20 anos, denunciou racismo em supermercado

Morador do bairro Galo Branco, em São Gonçalo, o confeiteiro e cake designer Bernardo Marins, de 20 anos, tinha resolvido passar seu aniversário do último dia 18 do jeito que aprendeu no curso de gastronomia: fazendo um bolo para si. Para isso, ele foi, no mesmo dia, até o Extra Hipermercado do bairro Alcântara, na mesma cidade, para comprar os insumos. Chegando lá, o jovem afirma que um segurança do estabelecimento começou a segui-lo.

"Ele falava no rádio, de uma forma nada discreta, para que a câmera me seguisse para ver se eu estava colocando alguma coisa na minha sacola. Ele fazia questão de que eu ouvisse que ele estava falando de mim. Eu fui para outro corredor e o mesmo se repetiu. Ele ficava vindo atrás de mim e ficava falando das minhas características pelo rádio", disse o rapaz, que é negro.

Depois de passar pelo caixa, Bernardo foi até o SAC do hipermercado e pediu para falar com o gerente sobre o ocorrido. Neste momento, o segurança retornou, aos berros, falando que os bolsos dele "estariam cheios". Depois do gerente falar que nada ocorreu, Bernardo, ao sair da loja, foi chamado de "ladrãozinho" pelo mesmo segurança.

"Eu questionei ele, perguntei se ele tinha algum problema comigo e ele disse: 'você acha que eu sou cego, algum babaca?'. Então eu voltei no gerente, informei isso e ele me disse que o segurança já tinha marcado a minha cara, insinuando que eu já tinha roubado no mercado. Saí de lá aos prantos e pedi ajuda para a minha mãe. Ali acabou o meu aniversário", relata o jovem que ainda está assimilando tudo o que aconteceu.

"Eu tinha uma tradição de passar todo aniversário de cabelo descolorido. Neste dia, eu cheguei em casa e a primeira coisa que fiz foi pintar o cabelo de preto para não ser mais confundido com ladrão", afirma.

Bernardo fez um Boletim de Ocorrência nesta segunda-feira (24) na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Centro, junto dos advogados Daniele Coutinho e Bruno Cândido. O jovem pretende abrir um processo contra o hipermercado e um ato está marcado para o dia 12 de setembro para conscientizar as pessoas e o estabelecimento sobre o ocorrido.

"É preciso que eles façam um treinamento para os seguranças porque já aconteceu isso antes lá e eles não fizeram nada para mudar. O segurança me seguia toda vez que eu ia lá, mas essa foi a primeira vez em que eu fui humilhado. Depois que eu postei meu depoimento, muita gente disse que sofreu a mesma coisa lá", disse o estudante.

Em nota, o Grupo Pão de Açúcar , que administra a rede Extra, informou que, quando teve conhecimento do ocorrido, no dia 19 de agosto, acionou a loja e começou um processo interno de apuração. A empresa teve contato com o cliente no último dia 20 para se desculpar e o incluiu no processo de averiguação dos fatos.

O segurança foi afastado enquanto o caso ainda está sendo analisado. O hipermercado também informou que não orienta os funcionários para tomarem atitudes discriminatórias ou desrespeitosas, condenando os mesmos no Código de Ética e na política de diversidade e direitos humanos da rede.

A empresa também informou que disponibiliza um canal para recebimento e apuração de denúncias que infrinjam o código de ética da companhia e que participa da Coalização Empresarial pela Equidade Racial e de Gênero, que estimula a implementação de políticas e práticas empresariais no campo da diversidade.

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