greve dos entregadores
Roberto Parizotti/Fotos Públicas
Entregadores de aplicativos fazem nova greve nacional neste sábado (25) cobrando direitos, maior remuneração e menos bloqueios

Os motoboys que atuam como entregadores de aplicativos fazem neste sábado (25) uma nova greve nacional, o segundo "Breque dos Apps" no mês de julho, lutando contra a  precarização do trabalho e pela elevação das taxas pagas pelas empresas aos trabalhadores, que dizem estar "rodando" cada vez mais atrás das entregas e recebendo menos desde o início da pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2).

Com o objetivo de fazer uma paralisação nacional ainda maior do que a primeira, em 1º de julho , a greve dos entregadores deste sábado deve ocorrer em dezenas de capitais brasileiras e também se espalhar por outras cidades, como Niterói (RJ) e Santos (SP). Em Brasília, capital federal, a expectativa é que o ato seja ainda maior que o do início do mês e siga rumo ao Congresso Nacional.

Muitas vezes confundidos com os Entregadores Antifascistas, grupo de entregadores que alia a luta dos motoboys com posicionamentos políticos contra o fascismo e o presidente Jair Bolsonaro , os grevistas reforçam que o movimento nacional de entregadores não tem teor político.

Simões, entregador de Niterói, é objetivo quanto a isso: "Nosso grupo não tem nada a ver com política, com Bolsonaro, com Lula, o nosso grupo é organizado através da internet e das redes sociais, com lideranças de todo o País. Não tem nada a ver uma coisa com a outra [greve e o grupo Entregadores Antifascistas]. As pessoas estão nos apoiando, e nós recebemos apoio. Se aparece agora uma pessoa lá do Bolsonaro querendo nos ajudar, nós estamos aqui. Do PT, do PSOL, do PDT, do Aliança não sei de que, quem quer nos apoiar, a gente está aberto a receber ajuda, porque somos trabalhadores em busca dos nossos direitos e nossa luta não é contra "A" e nem contra "B", mas sim contra os app, a precarização dos app".

Paulo Lima, o Galo, líder do grupo autointitulado Entregadores Antifascistas , concorda. De acordo com o motoboy, "A greve não é contra ou a favor do Bolsonaro, tem muitos lá dentro que apoiam ele, mas aderem [à greve] porque são contra a precarização do trabalho e querem direitos e proteção para os entregadores. É importante deixar claro que a gente apoia totalmente a greve, mas uma coisa são os Entregadores Antifascistas e outra coisa é a greve dos entregadores".

As principais reivindicações dos motoboys na greve deste sábado são basicamente as mesmas da greve de 1º de julho: fim dos bloqueios considerados injustos dos entregadores - ou pelo menos que seja criado um canal de defesa, sem que o bloqueio seja automático -, aumento na taxa mínima de entrega no Brasil, reajuste anual dessa taxa, seguros contra roubos, furtos, acidente e seguro de vida. Outros pedidos comuns são a criação de espaços de apoio para descanso e alimentação dos trabalhadores e o fim do sistema de pontuação e ranking do aplicativo, que as empresas dizem já ter desativado, o que os entregadores negam e dizem que acaba tirando sua autonomia.

Bloqueios, ranking, afastamentos e acidentes

Sorriso, um dos organizadores da greve em Brasília, que além de entregador é presidente da Associação dos Motoboys Autônomos e Entregadores do Distrito Federal (AMAE-DF), diz que a luta dos motoboys tem como foco o aumento das taxas de entrega , o fim dos bloqueios sem justificativa e também do sistema de "score", um ranking de motoboys que acaba direcionando entregas aos mais bem classificados pelos aplicativos, privilegiando quem trabalha por mais horas na hora em que chegam os pedidos. Segundo as empresas, esse tipo de sistema já deixou de ser usado, mas Sorriso garante que muitos entregadores seguem sendo afetados por uma eventual má avaliação nos critérios dos apps. Ele diz ainda que falta transparência em relação aos valores pagos por corrida.

"Fazemos reivindicações aqui desde o início do ano e cerca de 50 motoboys foram bloqueados sem justificativa após um ato. Eles veem pela localização quem está na região da manifestação e aparece lá no nosso celular que fomos bloqueados", conta Sorriso, que diz ter sofrido com isso em janeiro, quando a Loggi o bloqueou justamente após cobranças por direitos em uma dessas reivindicações públicas dos motoboys. Segundo o entregador, bloqueios após atos regionais contra as empresas são comuns, o que não ocorre em uma greve nacional, acredita. "Com mais cobertura dos jornais e da TV, eles bloqueiam menos porque fica feio, né. No dia da greve nacional eles só comunicaram que apoiavam o livre direito à manifestação, mas a gente sabe que nem sempre é assim".

Assim como a Loggi, outras empresas de entregas, como iFood, Uber Eats, Rappi e James negam que bloqueiem entregadores que se manifestem contra as plataformas, como denunciam motoboys de muitas partes do Brasil. Sorriso cita os grupos de WhatsApp dos entregadores, o canal de comunicação direta dos trabalhadores, para lembrar de outros casos de bloqueios ligados a manifestações em Santos, Niterói, Rio de Janeiro e São Paulo.

Simões, entregador de aplicativo de Niterói, conta ao iG que sua rotina é cada vez mais complicada e desgastante. Segundo ele, trabalha "mais de 12 horas por dia, 6 a 7 dias por semana, e sábado e domingo trabalho direto". Para ele, a pandemia agravou a má condição de trabalho: "as entregas antes da pandemia eram uma coisa e durante a pandemia é outra. Muita gente fala que aumentou o número de entregadores, porém aumentou o número de entregas também. A quantidade de pessoas trabalhando na rua não mudou nada porque a quantidade de entregas foi muito superior, porque as pessoas estavam em casa, e uma vez que elas estavam em casa, elas pediam de casa [pelos aplicativos]".

No dia da entrevista, Simões disse estar de repouso em casa devido ao cansaço e sua voz parecia afetada por uma inflamação. Segundo ele, não conseguiu levantar da cama de manhã por conta da sequência de dias "rodando" atrás de pedidos sob sol e chuva. O entregador também lembra casos mais graves envolvendo amigos entregadores de Niterói.

Marcinho, motoboy, se afastou durante a pandemia por ter desenvolvido sintomas da Covid-19 , mas não tem a confirmação se teve a doença porque não conseguiu fazer o teste. Durante o afastamento, segundo Simões, Marcinho não recebeu nenhum tipo de auxílio dos aplicativos para os quais realiza entregas, apesar de ter contado sua situação.

Além do caso de Marcinho, Simões conta também a história de Douglas Mumuzinho, o  Mumu , entregador que se acidentou, fraturou a bacia e está hospitalizado. Sorriso, de Brasília, também citou o caso de Mumu, reclamando da política de assistência do iFood quanto a acidentes dos entregadores. Além de Mumu ter sofrido o acidente e não conseguir trabalhar, sua esposa está desempregada, grávida de oito meses e vive uma gravidez de risco.

Os entregadores dizem que o iFood cobre custos de R$ 1 mil a R$ 15 mil em casos de acidentes, mas, para isso, exige que o trabalhador fique em hospital particular pagando do próprio bolso. A política de assistência, na verdade, acaba funcionando como uma política de reembolso, o que, segundo Sorriso, impossibilita ajuda a muitos entregadores que se acidentam, já que eles não conseguem arcar com os custos de uma internação em hospital particular, mesmo que a empresa diga que vá pagar depois. Ele lembra ainda que, em casos mais leves, não há cobertura. "Como tem o valor mínimo de R$ 1 mil, quem tem um ferimento mais leve, do dia-a-dia, que acontece, infelizmente, tem que ir em hospital público ou se virar para pagar", lamenta Sorriso.

Como a mulher de Mumu está desempregada, ele está sem renda desde o acidente e a família não tem condições de arcar com os custos da internação, Simões e outros entregadores começaram uma  "vaquinha" online chamada "Ajude Mumu e Família", buscando arrecadar R$ 10 mil. Até esta sexta-feira (24), foram levantados R$ 6.935. Na iniciativa, o caso é detalhado e a gravidade de uma fratura na bacia também é destacada. O acidente do motofretista ocorreu em 13 de julho.

Posicionamento do iFood

Em nota, o iFood disse que oferece "seguro de acidente pessoal gratuitamente" desde 2019 e que tal benefício cobre "atendimento médico e odontológico de emergência até R$15 mil". Confira o posicionamento na íntegra:

"Desde outubro de 2019, o iFood oferece  seguro de acidente pessoal gratuitamente para os entregadores. O seguro oferece cobertura não apenas durante as rotas de entregas como também no retorno para casa. Sendo assim,  o entregador de moto e carro estará coberto até 1h e 30 quilômetros depois da última entrega. Para aqueles que usam bicicleta e patinete, o período sobe para até 2h, mantida a distância de 30 quilômetros. O benefício cobre atendimento médico e odontológico de emergência até R$15 mil, além de invalidez permanente total/parcial e morte acidental. Até o momento, a apólice já indenizou mais de  R$ 430 mil a entregadores parceiros.

Para acionar o seguro, é importante que o entregador guarde todas as suas despesas médicas. No Portal do Entregador , além de todas as informações, estão disponíveis os formulários para acionar, bem como todos os documentos necessário. Em seguida, ele deve entrar em contato com a Seguradora Metlife para a abertura do sinistro e também para tirar dúvidas durante o processo."

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