Na semana que antecede o Dia Internacional da Mulher, celebrado dia 8 de março, a co-fundadora do banco digital NuBank, Cristina Junqueira foi a escolhida pela revista Forbes para estampar a capa quinzenal da publicação.

Essa foi a primeira vez, no Brasil, que uma mulher grávida apareceu na capa da revista internacional focada em economia que prestigia nomes em destaque no mercado de trabalho.

Na fotografia da Forbes, Cristina posa em sua 40ª semana de gestação ao ser considerada uma das 20 mulheres mais importantes do País. No mundo, o reconhecimento de gestantes em revistas de negócios não é comum.

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Para se ter uma ideia, a primeira vez que isso ocorreu foi em agosto de 2019, em que Audrey Gelman, CEO e co-fundadora do The Wing foi capa da Inc. Magazine.

Pelo ineditismo no Brasil, a publicação da revista Forbes levantou o debate sobre os avanços nas relações entre mulheres que equilibram a maternidade e a carreira. 

Relatório do grupo de pesquisa norte-americano Corporate Women Directors International mostrou que, na América Latina, apenas 47 das 100 maiores empresas têm pelo menos uma mulher nos conselhos de administração.

Conciliar a vida profissional com a tarefa materna ainda é visto como um desafio, principalmente por preconceito e falta de compreensão nos ambientes de trabalho. Um levantamento do site Trocando Fraldas revelou que três em cada sete mulheres sentem medo de engravidar e serem demitidas.

Apesar dos desafios constantes e barreiras estruturais , as mulheres e mães lutam para assumir o protagonismo no mercado de trabalho todos os dias. 

Maria Oldham
Foto: Divulgação
Maria Oldham, presidente da iZettle no Brasil

Maria Oldham, presidente da iZettle no Brasil, trabalha no setor de fusões e aquisições há 13 anos. Em junho de 2018, Maria foi surpreendida com o convite para assumir a posição máxima na operação da iZettle, enquanto estava grávida.

“Quando eu recebi a proposta, pouco depois descobri que estava grávida e já me veio um sentimento de insegurança por não saber como falar aos chefes, por medo da reação deles”, conta a CEO.

Apesar das incertezas sobre achar que poderia perder o cargo ao contar da gestação, a surpresa foi positiva e a equipe de trabalho entendeu a situação e não retirou o convite, pelo contrário.

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“Eu lembro que a primeira coisa que a minha chefe me falou é que a notícia era fantástica porque ia me ajudar no desenvolvimento profissional e a me tornar uma pessoa melhor, como mãe e gestora ”, pontua Maria. 

A CEO destaca que apesar dos avanços das mães ocuparem mais cargos no mercado de trabalho, em muitos momentos, ela tentava planejar o futuro da carreira em dez ou cinco anos, e não enxergava outras mulheres nas posições almejadas. “Na minha área de trabalho, no setor financeiro, é um ambiente muito mais masculino e eu sempre observei isso”, conta. 

Maria diz que os desafios sempre estiveram presentes em sua trajetória e muito se deve ao simples fato de ser uma mulher, e agora também mãe. “Em muitos momentos a gente precisa se provar , ir além porque há essa desconfiança”.

Ela conta que a capa da Forbes é inspiradora porque é uma admiradora da Cristina Junqueira, e ter uma mulher dos negócios grávida na publicação gera um debate na sociedade. “Por qual motivo uma mãe não poderia estampar uma revista?”, questiona. 

Atualmente, a filha da presidente da iZettle no Brasil tem um ano e ela busca sempre o equilíbrio entre a carreira e os momentos com a família. “Essa dosagem vai muito do interesse de cada um, eu consigo conciliar o meu trabalho porque gosto da minha carreira, tenho energia. Mas, no momento em que estou com a minha filha, eu desligo de tudo. Essa é a forma que encontrei”, diz.

Dados revelam que no Brasil apenas 13% das empresas possuem uma mulher na presidência . O levantamento é da Panorama Mulher 2019, da Talenses em parceria com o Insper.


Capacitação

Em 2017, a executiva Juliana Oliveira e a advogada Anne Caroline Prudêncio fundaram o Compliance Women Committee (CWC) com o propósito de empoderar e capacitar mulheres em cargos de liderança.

A advogada entende que apesar de nos últimos anos as mulheres terem alcançado posições de destaque no mercado de trabalho, ainda são poucas as que chegaram ao topo das organizações, em posições de CEO de grandes empresas.

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"São diversas as causas que impedem que mais mulheres atinjam o topo das organizações, as quais destacamos preconceitos, julgamentos antecipados em razão de estereótipos, a falta de flexibilidade no trabalho que permita que a mulher tenha um equilíbrio entre a vida familiar e corporativa, a ausência de metas de diversidade e de programas internos que promovam a capacitação e desenvolvimento profissional das mulheres e a falta de preparação de líderes mulheres dentro das corporações para que elas ocupem as mais altas posições", explica Prudêncio.

Driblar estatísticas para chegar ao topo

A gestora Andrea Kohlrausch, 43, também precisou burlar as estatísticas para chegar ao cargo que almejava.

Mãe de dois filhos, um de dez e outro de três anos, ela já soma 25 anos de carreira na Calçados Bibi, empresa de referência no mercado de calçados infantis. Atuou em diversos setores na empresa , sendo office girl , desenvolvendo projetos para a marca e ajudando no setor comercial. 

Mas, em abril de 2019, data em que a marca comemorou os 70 anos de atuação no Brasil, ela foi chamada para assumir a presidência da empresa . O processo de escolha durou sete anos, passando pela escolha de um conselho e treinamento dos envolvidos. Ela conta que no início, em 2012, só tinha um filho e verbalizou o desejo de ter outro, na época, e isso não foi impeditivo. 

Por telefone, Andrea, que estava no México a trabalho, contou que atualmente para dar conta da carreira e da família precisa de uma rede de apoio . “Além do meu marido, eu tenho uma pessoa que me ajuda com as crianças há 14 anos. É importante ter essa base para desenvolver um bom trabalho”, frisa. 

Andrea Kohlrausch
Foto: Divulgação
Andrea Kohlrausch se tornou presidente da Bibi e se divide entre a maternidade e a gestão da empresa

Buscar equidade nos cargos, principalmente os mais altos, é, na opinião de Andrea, um diferencial para as empresas. “Eu acho que a maternidade ainda é encarada com um empecilho, mas isso depende da postura das empresas, acho que já mudou bastante, mas precisa melhorar”, defende. 

Para ela, a divisão entre as tarefas do pai e da mãe precisa ser justa, não é só a mulher que deve ser cobrada. “Mas, sei que meu esposo nunca vai ser mãe. Estou hoje no México pelo meu trabalho, mas lembrando ao meu marido que ele não esqueça da reunião dos pais da escola, embora ele também receba as informações do colégio. Quando temos filhos, não é só a nossa agenda que importa , é a deles também”, diz. 

Empreender é um caminho para mães

Clara
Foto: Arquivo Pessoal/Clara Nogueira
A pernambucana Clara Nogueira usou o tempo em casa para desenvolver o seu projeto com bordados

Obstáculos para chegar ao mercado de tabalho formal e imposições patriarcais da sociedade brasileira levam muitas mães a serem autônomas e empreenderem para poder dar conta dos filhos e do sustento.

Por meio das linhas e do bordado , a artista e mãe de dois filhos Clara Nogueira, 34, criou o próprio negócio. "O bordado foi a ferramenta que usei para estudar minha situação enquanto mulher-mãe e terminou sendo meu sustento e é até hoje", conta.

Formada em Arquitetura e Urbanismo, Clara nunca exerceu a profissão no mercado de trabalho formal. Para ela, "as mulheres que ficam grávidas durante o período de trabalho são vítimas de preconceito estrutural da sociedade machista".

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Quando tomou conhecimento da capa da Forbes, a sensação foi uma mistura de sentimentos. "A que estrutura econômica e trabalhista essa mulher grávida estava inserida que conseguiu empreender essa capa histórica? Não li a matéria, mas como trabalho com imagens, serviu-me de reflexão e de encantamento. Aquela mulher poderosa carregando anos de invisibilidade ", destacou a artista.

Em 2015, Clara iniciou o trabalho com artes no projeto "Linhas de Fuga". Ela explica que o nome veio como analogia a fuga que estava vivendo durante a inércia produtiva que a maternidade trouxe.

"Arrumei uma fuga, uma forma de subverter a realidade de uma mulher que trabalhava os três turnos e depois se vê em casa, com um bebê e totalmente dependente financeiramente do marido", pontua.

Ela começou a carreira vendendo mini-bordados em acessórios (colares, imãs) e depois realizou exposições do trabalho, em galerias do Recife, em Pernambuco. "A maternidade me trouxe a vontade de expor minha situação , pensamentos, colapsos e revoluções e transformá-las em discurso político, em arte".

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As conquistas existem, mas engravidar ainda é visto por muitas empresas como algo negativo, seja pela licença-maternidade ou pela divisão na dedicação após o nascimento de um filho.

Dados também mostram que os constrangimentos no mercado de trabalho por causa da maternidade são motivo de queixa para mais da metade das mães.

Uma pesquisa da Vagas.com aponta que 52% das mães que trabalham dizem ter passado por esse tipo de situação durante a gravidez ou no retorno da licença-maternidade.

Cícera ao lado da filha
Foto: Arquivo Pessoal/Cícera Amorim
Cícera ao lado da filha

A jornalista Cicera Amorim, 25, se formou em 2016 e em 2017 engravidou. Desde então tem experimentado o desprazer de uma sequência de “nãos” após as entrevistas de emprego.

Por morar longe da família dela e da do pai da criança, ela precisou esperar até que a filha completasse seis meses para colocá-la em um escolinha. 

Disposta e se dedicar ao lado profissional , Cícera participou de seleções, mas chegou a ouvir que a filha poderia atrapalhar o seu desenvolvimento.

“A entrevistadora era uma mulher e me perguntou se eu era casada ou tinha filhos. Falei que era divorciada e tinha uma filha de menos de um ano. Ela me disse que seria difícil me contratar porque eu estava muito ligada ao bebê e não me concentraria”, lamenta a jornalista.

A consultora de marketing digital Taísa Silveira, 34, acredita que conquistas são tímidas . Um dos maiores medos de uma mulher grávida que atua no mercado de trabalho é voltar à empresa e ser desligada . “Precisamos entender que essa responsabilidade não é só das mulheres, é como se a figura do pai não existisse”, argumenta. 

 “Eu já tive uma funcionária que ficou grávida e na empresa onde trabalhávamos não tinha elevador. Ela precisou subir escadas até o sétimo mês de gravidez , mesmo que eu brigasse com o meu superior para ela ser realocada a um andar mais baixo. Como a situação não se resolvia e ela teve inclusive problemas na gestação, eu precisava descer e subir todos os dias com o material de trabalho dela para o primeiro andar, pensando na saúde dela. Achei o tratamento da empresa desumano ”, lembra Taísa. 

taísa
Foto: Arquivo Pessoal/Taísa Silveira
Taísa Silveira acredita que é importante que as mulheres alcancem a igualdade não apenas no local de trabalho, mas também em casa

Por outro lado, ela destaca que há muitas empresas que já entenderam a importância dos primeiros meses da criança , dessa relação com a mãe para o desenvolvimento cognitivo.

"Hoje em dia muitas oferecem espaços, como creches próximas ao local de trabalho para facilitar essa relação da mãe com o filho ", conta. 

São iniciativas que visam não excluir essas mulheres do mercado de trabalho, mas sim, incluir. Recentemente, Taísa ministrou um workshop para um grupo de empreendedoras e duas mães participaram do evento. Elas levaram as crianças e todas as outras participantes entenderam.

"Foi um momento bacana, de diversidade, as crianças brincaram e choraram. A capacidade de empatia da turma foi muito maior porque eram mulheres, não sei se com homens a mesma cena teria se repetido. Mas são iniciativas como essas que aproximam ainda mais essas mães de ocuparem cargos além da maternidade".

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