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Alan Santos / PR
Presidente Jair Bolsonaro durante visita ao Templo de Akshardham na Índia

Dentre as previsões econômicas para os próximos anos, uma das que prometem causar grande reviravolta global será a entrada da Índia no clube dos três maiores PIB globais .

Segundo país mais populoso do mundo e atual sexta maior economia, sua riqueza já ultrapassou a da França em 2018, e pode fazer o mesmo com a Grã-Bretanha, neste ano.

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Com o crescimento chinês desacelerando – e, no momento, afetado pelo surto de coronavírus – sobrou para a Índia o posto de única grande economia com capacidade de expansão acima dos 6% anuais.

Mas aproveitar o potencial de comércio com esse colosso de negócios não será fácil. O presidente Jair Bolsonaro esteve no país entre os dias 24 e 27 de janeiro e assinou 15 acordos bilaterais com o primeiro-ministro e chefe de governo, Narendra Modi.

A grande maioria deles trata mais de intenções, mas sinaliza que a aliança pode ser vital no futuro. O mais relevante é o acordo de cooperação para facilitar investimentos .

“Esta viagem foi feita pensando no futuro ”, diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro. “A Índia é a China de alguns anos atrás: sem infraestrutura e com grande potencial.”

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O fluxo de comércio entre os dois países foi de US$ 7 bilhões em 2019, e o governo tem uma “meta realista de US$ 15 bilhões ”, a ser atingida até 2022. Via Twitter, Bolsonaro mencionou que o comércio com a Índia poderia ir a US$ 50 bilhões, baseado em previsão de Modi.

Isso poderia ajudar o Brasil a diminuir a sua dependência da China e dos EUA (41,3% do total exportado no ano passado). 

O problema, no entanto, é que tanto a Índia quanto o Brasil são muito protecionistas , sendo os dois únicos dos 10 maiores exportadores sem destaque no fluxo de comércio internacional. A Índia fez 1,67% do comércio global em 2018 (19ª posição) e o Brasil 1,23% (27ª colocação).

Christian Clavadetscher

Outro desafio é diversificar a pauta de exportações, ainda muito dependente do petróleo , responsável por 35% das vendas para o país asiático entre janeiro e novembro de 2019.

“A Índia tem quase a população da China com um terço do território”, diz Castro. “Com tal densidade demográfica , ela não tem espaço para crescer sem importar.”

Entre os acordos assinados estão a promessa de abertura para as exportações brasileiras de gergelim e importações de sementes de milho.

Na indústria, a Weg irá ampliar a sua fábrica nos arredores de Bangalore. Segundo o governo indiano , há hoje US$ 6 bilhões de capital do país no Brasil, contra US$ 1 bilhão de aportes nacionais na Índia.

A proximidade entre os chefes de Estado, no entanto, ultrapassa interesses comerciais. Modi ascendeu na política com o Partido Bharatiya Janata (PBJ), ao se posicionar como conservador religioso e pró-mercado.

Ele captou o desejo do eleitor por um líder enérgico e duro com a minoria muçulmana, enquanto promoveria reformas importantes.

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Assim, venceu as eleições de 2014 e elevou o número de assentos no Parlamento ano passado, colocando em segundo plano o Congresso Nacional Indiano, partido que mandou na política do país desde a independência e é ligado à família Nehru-Gandhi.

Mas, nos últimos tempos, o perfil de homem forte e sectário tem ofuscado o de liberal e reformador .

Desde que foi reeleito no ano passado ele acelerou ações que vão contra as tradições multiculturais do país, que abriga diversas línguas e, mesmo com uma população 80% hindu, acolhe milhões de muçulmanos, cristãos, budistas, jainistas e sikhs.

Ele dividiu em dois e tirou o status especial do estado Jammu & Caxemira, o único de maioria muçulmana, sitiou 7,5 milhões de habitantes do Vale da Caxemira e quer recontar os indianos.

O motivo seria confirmar a cidadania dos habitantes e evitar a invasão de imigrantes hostis aos hindus, apesar de haver mais estrangeiros saindo que entrando no país. Na prática, muçulmanos pobres que não tenham documentos e certificados de nascimento podem perder direitos políticos .

No meio de tudo isso, as reformas de Modi pouco avançaram ou foram muito polêmicas. Entre elas, a tributária e a iniciativa de invalidar 86% do papel moeda em circulação para combater a riqueza ilícita.

Mesmo assim, o governo prevê US$ 5 trilhões de PIB até 2024 , o que exigiria crescimento anual acima de 8%, o que parece improvável. O Fundo Monetário Internacional, por exemplo, reviu de 6,1% para 4,8% o avanço de 2019, e cortou de 6,7% para 5,8% a previsão de 2020.

Agora, resta saber se a questão religiosa vai minar o potencial da república que nasceu com a luta de Mahatma Gandhi.

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