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Entre janeiro e abril, a capital perdeu 6,6 mil postos de trabalho, pior saldo do país, e viu comércio encolher com cerca de 10 mil lojas fechando

carteiras de trabalho de funcionarios empilhadas
Jana Pêssoa/Setas
Demissões frequentes foram registrados no comércio e na indústria de transformação no Rio de Janeiro

Campeã em demissões no ano de 2019, a cidade do Rio de Janeiro  perdeu, até abril, 6.667 postos de trabalho. Desse total, 97% das demissões (6,5 mil) foram no comércio, segundo dados divulgados pelo cadastro geral de empregados e desempregados (Caged).

Em torno de 10 mil lojas fecharam as portas neste ano, segundo o presidente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de janeiro e do Sindicato de Lojistas do Rio de Janeiro, Aldo Gonçalves. Ele reforça que a cidade é um “ponto fora da curva”. Segundo ele, a “desordem urbana, mendigos e camelôs” somados às crises financeira e política do Estado do Rio de Janeiro são as causas do declínio no setor. “Basta dar uma caminhada pela cidade para ver o número de lojas com portas fechadas. A loja fecha e uns oito, 10 funcionários perdem o emprego”, afirma.

A capital fluminense  seguiu a alta de empregos registrada em todo o país no mês de abril, fechando o período com saldo positivo de pouco mais de mil vagas, a maior parte na área de serviços. No entanto, no acumulado do ano, o total é o mais negativo do Brasil, sendo puxado para baixo pelas demissões que atingem também a indústria de transformação. “É o ciclo vicioso: crise, violência, desemprego, competição com camelôs… aí as lojas não se aguentam e fecham as portas”, reitera Andréa Mury, da assessoria do Sindicatos de Lojistas do Rio de Janeiro.

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Impactos da Reforma Trabalhista

Para Márcio Ayer, presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, as demissões em massa nas lojas e supermercados cariocas foram facilitadas pela Reforma Trabalhista , aprovada no final de 2017. Com as mudanças nas leis, “os empresários se sentiram livres para demitirem como quisessem”, opina, lembrando que “antes dela, as empresas tinham que lidar com o sindicato quando  decidiam demitir seus funcionários”.

As novas regras também puseram fim à obrigatoriedade das homologações junto com o (extinto) Ministério do Trabalho ou sindicatos. "Com isso, perdemos o controle sobre o número de demissões",  explica Ayer. A ausência da homologação também abre espaço para rescisões de contrato mal calculadas e prejuízos ao trabalhador, segundo avaliação do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos ( Dieese ).

Demissões antes do reajuste salarial

Segundo os sindicalistas cariocas, normalmente há uma estagnação nas demissões no mês de abril e isso se deve à data-base do reajuste salarial, fixada em maio. O motivo seria puramente matemático. Se o patrão demite seu funcionário sem justa causa com menos de 30 dias antes da correção salarial da categoria (1º de maio para lojistas e dia 12 para funcionários de supermercados), o trabalhador deve receber uma indenização no valor de seu salário mensal.


Os números fornecidos pelo Caged dão força à teoria, defendida pelo Sindicato de Lojistas do Rio de Janeiro . Analisando o saldo entre contratações e demissões, desde janeiro, é evidente que a maioria das demissões é feita antes do prazo estipulado pela lei para a indenização.