Presidente da China. Xi Jinping
Divulgação/Governo da Rússia
China não vai aceitar boicotes contra o seu desenvolvimento


Em meio a crescentes indicações de que a China usará suas reservas de terras raras como barganha na guerra comercial com os EUA, o Ministério do Comércio chinês afirmou nesta quinta-feira (30) que Pequim está disposta a atender uma "demanda razoável" de outros países pelos 17 minerais essenciais à indústria eletrônica e de alta tecnologia.

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O ministério da China ressaltou, porém, que não aceitará que países que usarem terras raras chinesas para fabricar seus produtos pretendam boicotar o seu desenvolvimento.

O país asiático é o maior produtor mundial de terras raras, e a origem de 80% das importações americanas desses minerais. Em meio às restrições impostas pela Casa Branca de Donald Trump à importação de produtos chineses , crescem os sinais de que Pequim poderá anunciar em breve algum tipo de controle nas exportações.

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O primeiro deles veio na semana passada, quando o presidente Xi Jinping esteve em uma fábrica de ímãs feitos com terras raras, dias depois de os EUA colocarem a Huawei, gigante chinesa do setor de telecomunicações, na lista negra do país, alegando razões de segurança nacional. A decisão, na prática, impede que a empresa tenha acesso a software e semicondutores produzidos por empresas americanas.

A visita por si só foi considerada uma declaração de Pequim : a liderança do governo sabe da importância das terras raras para a indústria de alta tecnologia, sabe que é o maior produtor e sabe que mudanças nas políticas de exportação têm efeitos em todo o mundo.

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Na última terça-feira veio um novo sinal, agora da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma. Em entrevista publicada no site do organismo, uma autoridade da comissão disse que "se alguém quiser tirar proveito da exportação de produtos que usem terras raras para conter o desenvolvimento da China, o povo chinês não ficará feliz".

Na mesma linha o "Diário do Povo", ligado ao Partido Comunista, publicou editorial com um alerta, dirigido especificamente aos Estados Unidos, sobre uma eventual restrição nas exportações das terras raras. "A indústria da China e dos EUA é altamente integrada e se complementa. Uma guerra comercial não tem vencedores. Por isso aconselhamos os EUA a que não subestimem a capacidade da China de defender seus direitos e interesses de desenvolvimento", disse o editorial.

"Não há um automóvel vendido nos Estados Unidos ou feito nos Estados Unidos que não tenha peças de terras raras", alertou à agência Bloomberg Jack Lifton, co-fundador da Technology Metals Research LLC, envolvido com terras raras desde 1962.

Em reação às ameaças chinesas, nesta quarta-feira o Departamento de Defesa dos EUA pediu mais verbas para aumentar a produção doméstica de terras raras. O pedido foi feito em relatório ao Congresso.

Punição na OMC em 2014

Para especialistas ouvidos pela agência Reuters, a China pode se valer de um argumento recentemente usado pelos Estados Unidos caso a disputa vá parar na Organização Mundial do Comércio: o da segurança nacional. O problema é que a própria OMC já delimitou o que se enquadra nesse argumento, dizendo que ele só pode ser usado em questões diretamente ligadas à defesa de um país.

A “carta” das terras raras já foi usada pelos chineses como ferramenta de comércio exterior há alguns anos. Ainda em 2006, o governo começou a aplicar cotas de exportação desses produtos. Em 2010, quando as restrições aumentaram, EUA, Japão e União Europeia reclamaram.

Os chineses alegaram que o corte tinha como objetivo proteger o meio ambiente dos impactos da mineração. Mas os importadores consideraram que, na verdade, o governo buscava obter uma vantagem para as empresas locais, que podiam usar as terras raras sem restrições, sem estarem sujeitas às variações de preços do mercado internacional.

O caso foi parar na OMC em 2012, por iniciativa dos EUA. Dois anos depois, a OMC considerou que as restrições chinesas violavam as regras da organização. Além disso, afirmou que a China não conseguiu provar que as medidas tenham sido motivadas uma preocupação ambiental legítima.

China tem 70% do mercado global de terras raras

Estima-se que as reservas chinesas de terras raras estejam em torno de 44 milhões de toneladas, representando cerca de 36% do total mundial, com uma produção anual de 120 mil toneladas. Em 2010, o país era responsável por cerca de 97% das exportações globais, um percentual que hoje está em torno de 70%.

Esses 17 elementos não são exatamente raros na natureza, mas ganharam o nome de terras raras justamente pela dificuldade em obtê-los. Na indústria possuem os mais variados usos, especialmente na alta tecnologia. O praseodímio, por exemplo, está presente em peças para a aviação. O neodímio é usado em discos rígidos de computadores, turbinas de produção de energia eólica e veículos híbridos. Já o lantânio é usado em lentes de fotografia e cinema, além de equipamentos de iluminação de estúdios. A maioria vem da China .

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