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Tamanho do questionário, "maior que de países desenvolvidos", voltou a ser alvo do ministro, que diz que "não é intervenção" buscar cortar os gastos

Paulo Guedes, ministro da Economia
José Cruz/Agência Brasil
Paulo Guedes voltou a atacar o censo do IBGE, argumentando que "muita coisa não é importante"

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fez sua primeira declaração sobre o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde que o instituto informou, na última semana, que o questionário do Censo 2020 será reduzido para que seu orçamento seja aprovado pela União. Segundo ele, "muita coisa não é importante" no questionário.

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Para o ministro, a medida é necessária por uma "questão econômica". Em entrevista à Globo News na noite da última quarta-feira (17), Guedes voltou a criticar o tamanho da pesquisa realizada no Brasil, citando os censos de países desenvolvidos, onde o questionário tem "10, 12 perguntas".

"O Brasil é um país pobre e faz 360 perguntas. Custa muito caro e tem muita coisa do nosso ponto de vista [do governo federal] que não é tão importante", defendeu, demostrando desconhecimento sobre o real tamanho do Censo brasileiro, que tem em torno de 150 questões.

Questionado se o corte  seria uma forma de intervir no instituto de pesquisas, o ministro foi categórico ao citar conversa com Susana Guerra, atual presidente do IBGE . "Não é intervenção. Nós não estamos dizendo nada. A moça [Susana Guerra] disse que precisava de R$ 2,7 bilhões para fazer o Censo que sempre foi feito. Eu disse: não tenho esse dinheiro. Não vou dar". "Ah, mas nós vamos ficar sem Censo?", teria questionado a presidente do instituto. "Não. Faz o que quiser para baixar esse custo. Vende prédio. Engraçado é que, se a empresa fosse privada, como o Ibope, e estivesse com dificuldades, a pesquisa encolheria e ninguém falaria em intervenção", respondeu o ministro.

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Há dois anos, a presidência do IBGE alerta para as dificuldades financeiras para a realização do Censo 2020 , cujo orçamento inicial era de R$ 3,4 bilhões, para a contratação de 250 mil recenseadores temporários que visitarão, ano que vem, os quase 70 milhões de lares brasileiros. Em fevereiro, durante a cerimônia de posse da nova presidente do instituto, o ministro da Economia já haviad sugerido pela primeira vez que o IBGE vendesse parte de seus prédios para viabilizar o Censo. Ele também já havia feito a recomendação, publicamente, que a pesquisa fosse simplificada, com menos perguntas.

Pressionado pelo governo federal a cortar custos, o instituto anunciou, na semana passada, que o orçamento da pesquisa será reduzido para R$ 2,3 bilhões, pois a "diretriz do governo federal é de restrições orçamentárias". Em nota, o IBGE informou ainda que "a operação está sendo revista, de modo a ter um custo cerca de 25% menor que a previsão inicial. Com isso, torna-se necessário ajustar os questionários, de modo que se possa eleger que informações fundamentais devem ser pesquisadas no Censo e quais podem ser obtidas por outras pesquisas amostrais". O instituto garantiu que não haverá perda de informações com o corte.

A primeira reunião do Conselho Consultivo do Censo depois do anúncio do corte terminou com o grupo rachado e o corpo técnico do instituto descontente com o tamanho da redução determinada pela presidente. Segundo um dos participantes do encontro, Susana impôs um corte "substancialmente" maior que o esperado ao questionário que será aplicado na pesquisa da população, sem apresentar uma planilha de custos que comprove a economia do ajuste. Isso teria desagradado parte dos conselheiros e do corpo técnico, que chegou a apresentar uma proposta de Censo mais enxuto, mas foi descartada por Susana.

A presidente teria pedido um corte maior que o apontado pelos técnicos, ainda que não tenha especificado a quantidade de perguntas a serem eliminadas e sobre quais temas. O IBGE informou que o corte do questionário ainda está em estudo, e uma proposta deverá ser elaborada pelo economista Ricardo Paes de Barros, que integra a comissão.

Especialistas em estatística, entretanto, defendem que a diminuição do número de perguntas pode trazer prejuízos ao País, já que o Censo gera uma série de informações sobre a população. A cada dez anos, recenseadores do IBGE percorrem todo o território nacional, domicílio por domicílio, para coletar dados sobre a população. Os testes de coleta do Censo 2020 começaram no mês passado, em 53 municípios brasileiros. O questionário está programado para ir a campo em agosto do ano que vem. 

Em entrevista concedida ao jornal O Globo no mês passado, o ex-presidente do Instituto Internacional de Estatística de 2015 a 2017, Pedro do Nascimento Silva, reforçou que a pesquisa "é um alicerce para outras e para a tomada de decisões pelo Estado e a definição de políticas públicas", pois só o Censo dá informações detalhadas sobre os mais de cinco mil municípios brasileiros e constitui a base para a União distribuir recursos a estados e municípios, direcionar campanhas de saúde e definir a quantidade de vacinas necessárias em cada cidade, além de ser norteador da construção de escolas e da alocação de vagas.

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Ele explicou que o Brasil não tem como ter um Censo tão enxuto como o de países desenvolvidos, colocando em xeque a posição de Paulo Guedes , porque pesquisas de apoio e outros tipos de registros públicos permitem levar à rua uma pesquisa menor e garantem facilidade à relização dos questionários.