A presidente Dilma Rousseff sancionou uma nova lei no último dia 8 de março que estende a licença-paternidade de cinco para 20 dias, além de garantir outros benefícios importantes aos homens. Os pais agora poderão se ausentar do trabalho por até dois dias para acompanhar a mulher a consultas e exames médicos durante a gravidez, e ganharão um dia por ano para acompanhar a criança a consultas médicas nos primeiros seis anos de vida. Pais adotivos também fazem parte dos beneficiados.

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A Suécia foi o primeiro país a garantir a licença remunerada igualitária entre gêneros, em 1974

As novas regras foram destaque no noticiário no Dia Internacional da Mulher como uma conquista pela igualdade de direitos – e deveres - entre gêneros. Contudo, algumas dúvidas começam a borbulhar a partir do momento em que o texto entra em vigor. Afinal, a nova lei é obrigatória ou não? Quem poderá requerer pelo direito? Como posso pedir pela licença de 20 dias?

Apenas cadastrados no "Empresa Cidadã"

De início, é importante destacar que o benefício não atinge todos os funcionários que se tornaram pais no Brasil, pois as mudanças são obrigatórias apenas nas companhias cadastradas no ‘Empresa Cidadã’, programa do governo regulamentado em 2010 – e que já garantia a dedução nos impostos das empresas que adotaram a licença maternidade de 6 meses (e não 4 meses conforme a lei). Segundo a Receita Federal, até agora, há 2,9 milhões de trabalhadores registrados em empresas participantes, entre homens e mulheres – o que significa menos de 10% do total dos 39,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil, de acordo com dados de janeiro do Ministério do Trabalho.

A partir do momento em que a corporação adere ao programa , é obrigada a anunciar aos funcionários seus novos direitos e, consequentemente, a adotar as novas regras propostas. No entanto, caso não seja este o caso, a empresa continua sendo obrigada a dar a licença de 5 dias, como acontece desde a Constituição de 1988.

Outra questão que merece entendimento é que a nova licença paternidade não é aleatória: faz parte do Marco da Primeira Infância, ou PLC 14/2015, que focaliza questões legais relacionadas desde a gestação até o sexto ano da criança. “Até agora, a gente tinha apenas o ECA, que foi e é muito importante, mas precisávamos de algo específico para a primeira infância, especialmente de 0 a 3 anos, que é o momento mais sensível do desenvolvimento da criança”, explica o Gerente de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Eduardo Marino.  

Vale lembrar também que o Marco Regulatório da Primeira Infância não modifica as regras para a licença-paternidade no serviço público, que pode ser de até 30 dias, dependendo do Estado, pois este período é definido pelo órgão ou administração ao qual o servidor é vinculado, respeitando os cinco dias previstos por lei.

Para o advogado José Carlos Wahle, sócio da área trabalhista da Verano Advogados, a ampliação do benefício é um alinhamento com a tradição da Lei Trabalhista Brasileira, um movimento natural pela cultura do País, protecionista ao empregado.

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Em 2013, as leis de 79 países providenciam a licença-paternidade, segundo dados da OIT

“Se considerar um panorama internacional, percebe que a lei trabalhista brasileira é bastante protecionista. Diferente de modelos como dos asiáticos, que tem regras restritivas aos trabalhadores com licenças mínimas ou mesmo inexistentes, e de países como a Inglaterra e os Estados Unidos, que também possuem licenças menores. Somos próximos a países da Europa Continental, como Itália e Espanha; o que não é ruim, porque a grande massa dos trabalhadores brasileiros não tem condições de se defender sozinha”, analisa.

Além disso, o advogado considera a extensão da licença paternidade como consequência de um movimento comportamental da população, que traz maior percepção e sensibilidade sobre questões sociais e familiares. 

O custo da licença estendida

Muitas pessoas podem se perguntar sobre o custo real da extensão da licença paternidade. Vale a pena o investimento? Quais os números da licença estendida?  

Para as empresas, além de questões administrativas como adaptação da equipe à falta do funcionário durante mais tempo, por exemplo, os impactos são quase mínimos, já que financeiramente elas possuem subsídio do governo. É bom lembrar que a regra só vale para as empresas que têm tributação sobre lucro real.  

“O valor do custo de subsidio do governo hoje chega a R$ 100 milhões de reais por ano; porém, se você considera o conjunto de imposto que elas pagam, é muito pouco. O que falta agora é a sensibilidade, a adesão das empresas. Inclusive, já existem pesquisas que mostram que o retorno para a corporação é positivo”, pontua Eduardo Marino.

Já para o Estado, há impacto financeiro, mas é pouco significativo. Segundo um estudo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), se o pedido de licença paternidade for requerido por todos os 7,6% dos trabalhadores formais que terão filhos em determinado ano, o custo direto do aumento de 15 dias pode variar em R$ 4,9 milhões, em 2016, com a adesão de 5% das empresas do País no Empresa Cidadã.

Ainda de acordo com o estudo, para o cenário futuro, em 2030, com 25% das empresas aderidas ao programa, há investimento de pouco mais de R$ 25 milhões, valor que se manteria ao longo do tempo – uma vez que o cenário da demografia brasileira tende à diminuição de natalidade, diminuição da população jovem e aumento da população mais velha. 

“Deixar de manter a figura clássica dos ‘Tempos Modernos’, como mostrou Charles Chaplin, e reconhecer que existe um lado humano no trabalho, faz com que, além de maior produtividade, haja maior lealdade do funcionário a empresa”, destaca o advogado trabalhista.  “Rotatividade alta gera custos – treinar funcionários diminui produtividade. Não é só produção, é fidelidade. Não é só dinheiro, mas também valorização”, finaliza José Carlos.

A licença paternidade pelo mundo

O número de países que concedem a licença paternidade aumentou de 41 para 79, entre 1994 e 2013, segundo dados da OIT (2014). Desses, 90% têm benefício remunerado. As licenças mudam muito de um lugar para o outro, variando entre 1 e 90 dias. Em alguns casos, ocorrem benefícios extensos (com mais de duas semanas), como na Finlândia, Islândia, Lituânia, Portugal e Eslovênia.

De acordo com a OIT, em todo o mundo, apenas 3 países têm a licença paternidade compulsória - que ajuda a garantir que os pais dividam as responsabilidades e cuidados com o bebê e permite o envolvimento masculino nos estágios iniciais do desenvolvimento da criança. 

O que os pais acham disso?

O iG quis saber qual a opinião dos pais sobre a nova licença paternidade sancionada no país. Afinal, cinco dias foram suficientes? O que eles pensam da extensão do período ao lado da mulher e bebê?

Rodrigo Schiefler Fernandes, 37 anos, bancário, pai de Luisa, de 2 anos, e Helena, de 1 mês

“Eu tirei a licença de cinco dias corridos e, para mim, foi suficiente. Acho que o benefício deveria ser flexível – para que o homem possa optar por mais tempo. Penso que deveria ter um desconto parcial de dias trabalhados, caso o funcionário opte por mais de cinco dias, se não, vira festa.”

Murilo Andrade Filho, 41 anos, engenheiro de segurança do trabalho, pai de Miguel, de 5 anos

“Acho interessante a extensão da licença paternidade do ponto de vista paterno. Como pai de primeira viagem, teria apreciado mais tempo. Depois da cesárea, a Patrícia, minha mulher, ficou bastante debilitada, e o Miguel teve de, efetivamente, aprender a mamar, foi um processo complicado e durou alguns dias. Assim, as correrias externas, como ir a supermercado, farmácia, eu que fazia. Não que o homem necessite da licença, mas eu pude perceber que a mulher precisa desse apoio. Muita gente encara como um período de descanso, mas não é. É um momento de apoio”.

Daniel Oliveira, 30 anos, estatístico, pai de Cauã, de 1 ano e 11 meses

“Não tem o que falar, a licença paternidade estendida seria melhor para todos os pais. Em cinco dias, a ficha nem cai! Você fica deslumbrado. Vejo dois colegas meus que voltaram após 5 dias e estavam desnorteados. Eu emendei as férias com a licença, tentei ajudar a Flávia, minha mulher: revezava os cuidados quando o Cauã chorava, ou coisas como buscar água para ela durante a amamentação, porque tinha muita sede. Vinte dias ainda não é muita coisa, porque o primeiro mês é muito tenso, muito tenso mesmo, mas já é alguma coisa.”  

Bruno Calderon Trenti, bancário, pai de Mateus, de 1 ano e 1 mês

“Tirei apenas 5 dias e foi um período muito importante para estar com meu filho e, principalmente, com minha esposa. A mulher precisa de muita de ajuda para cuidar da criança. E, se pudesse, gostaria de ter mais tempo de licença. Afinal, há benefícios para a criança, com mais estímulos, e também a ajuda paterna nas atividades de casa”.

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