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Gestores criam nova geração de veículos lastreados em garrafas refinadas

NYT

Jorge Mora, na Casa Lever, que administra o Bottle Asset Fund, que investe em vinhos
Karsten Moran/The New York Times - 27.1.2014
Jorge Mora, na Casa Lever, que administra o Bottle Asset Fund, que investe em vinhos

Enquanto a crise financeira consumia Wall Street em 2008, James Corl deixava o cargo de diretor de investimentos de Cohen & Steers, administradora de investimentos, onde era investidor imobiliário bem remunerado e arriscou-se por conta própria.

Corl achou que surgiriam oportunidades no mercado imobiliário em apuros e criou seu próprio fundo de private equity [ compra de participação em empresas ] para correr atrás dessas transações.

"Momentos diferentes pedem estratégias diferentes", ele disse.

Amante de vinhos, ele começou a frequentar leilões locais da bebida. A maioria dos compradores tinha dinheiro sobrando, restaurantes vazios não reabasteciam as adegas e Corl conseguiu embolsar borgonheses franceses avaliados na casa de dezenas de milhares de dólares com 40% de desconto.

"Sou basicamente um autodidata, mas eu sei do que gosto. Sou fã do vinho borgonhês, e sabia que nunca mais voltaria a ver aqueles preços."

O sucesso nos leilões animaram Corl. Assim, em 2010, quando foi convidado a investir em um fundo de vinhos, ele não hesitou, entregando mais de US$ 500 mil a um grupo liderado por Jorge Mora, banqueiro de investimentos com paladar sofisticado e faro por barganhas.

'O prêmio sobe sempre que uma garrafa é aberta', diz empresário

Chefiado por Mora e alguns amigos, o Bottled Asset Fund faz parte de uma nova geração de veículos de investimento alternativo, fundos criados especificamente para investir em vinhos refinados – não para beber, mas visando ao lucro.

"Num mundo de grande incerteza sobre o destino dos mercados financeiros, o vinho é um ativo real, e quando se fala nos nomes principais, é um ativo em falta. O prêmio sobe sempre que uma garrafa é aberta, e menos ficam disponíveis", disse Mora.

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Centenas de milhões de dólares são investidos em fundos de vinhos, que existem há pelo menos 15 anos. A maioria tem sede em Londres e investe principalmente em vinhos franceses, que dominam o mercado do vinho de luxo. E embora muitos fundos tenham tido anos instáveis, deixando clientes de elevado patrimônio líquido de mãos abanando, alguns têm derrotado continuamente os mercados de participação acionária.
Quatro anos depois daquele investimento inicial, o investimento de meio milhão de dólares de Corl está começando a pagar dividendos.

O Bottled Asset Fund pagou a primeira divisão de lucros há pouco tempo – 20% do desembolso inicial do investidor – e pretende distribuir 20% a cada seis meses durante os próximos anos. Os sócios cotistas do Bottled Asset Fund, como Corl, esperam pelo menos dobrar o dinheiro durante os cinco anos de duração do fundo.

Corl afirmou que seu investimento no fundo de vinho se mostraria ainda mais lucrativo do que os investimentos no leilão.

"Se eu fosse liquidar tudo que comprei no leilão, não daria duas vezes o patrimônio líquido. Esses caras derrotaram meu próprio investimento em vinhos da Borgonha."

Baixa regulamentação cria mercado arriscado

Nem todo fundo se saiu tão bem quanto o Bottled Asset Fund. No ano passado, o Vintage Wine Fund, que já chegou a administrar mais de US$ 100 milhões, devolveu o dinheiro aos investidores e fechou. Os culpados foram a enxurrada de resgates, um mercado imprevisível para os vinhos em sua carteira e lucros deploráveis.

Outro fundo famoso, Nobles Crus, que também já administrou mais de US$ 100 milhões, foi suspenso pelos órgãos reguladores de Luxemburgo no ano passado depois que ficou sem dinheiro e não conseguiu pagar os investidores. E embora o Wine Asset Managers, fundo londrino gerindo perto de US$ 20 milhões, ainda esteja operando, o valor da carteira caiu em relação ao ponto máximo.

A volatilidade dos fundos, e algumas quebras espetaculares, explicam a natureza instável do mercado para investimento em vinhos finos.

"Fundos dessa natureza quase não são regulamentados", afirmou Miles Davis, sócio da Wine Asset Managers, e antes corretor do Bear Stearns. "Ninguém vai inspecionar as avaliações."

Ao contrário, os gestores dos fundos atribuem valores às propriedades tomando por base os resultados dos leilões e a Liv-Ex, bolsa que registra o valor de vinhos finos de destaque. Tais práticas criaram problemas para Nobles Crus e Vintage Wine Fund, tornando os investimentos nesses vinhos inerentemente arriscados.

Os fundos de vinhos também correm risco porque investem principalmente nas principais marcas de vinhos da Borgonha e Bordeaux, ou seja, eles acompanham o mercado vinícola como um todo. Durante os bons tempos, essa pode ser uma vantagem para os fundos. A partir de 2009, compradores chineses entraram com tudo no mercado internacional, comprando milhões de dólares em tintos finos franceses.

"Eles queriam qualquer coisa nas quais pudessem botar as mãos. Tinha a ver com o consumo visível, compra pela marca, exibição, presentes e até mesmo para corrupção. O movimento derrubou os preços", disse Davis.

Porém, em meados de 2011 enquanto um novo governo se preparava para assumir na China, o esbanjamento chegou ao fim. A venda de Bordeaux chegou ao limite, o preço caiu nos leilões e o valor de muitos vinhos chegou ao fundo do poço.

"Eles deram um tempo nesse esbanjamento, e o vinho foi um dos principais beneficiários disso. Toda aquela revolução terminou por completo", afirmou Davis.

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Fundos fechados são nova aposta contra turbulência

A maioria dos fundos de vinhos não tem prazo específico, isto é, os investidores compram fatias de um veículo de investimento que detém um grande estoque de vinho fino, e podem pedir o dinheiro de volta a qualquer instante. Em essência, é como comprar um fundo de índice que acompanha o mercado de vinho fino como um todo.

Alguns deles, como o Wine Asset Managers e outro grande concorrente sem prazo específico, o Wine Investment Fund, sobreviveram ao tumulto dos últimos anos graças a uma mistura de bons investimentos em finos que mantiveram o valor contando com a sorte de que nem todos os investidores pediram o dinheiro de volta ao mesmo tempo.

Davis disse que a Wine Asset Managers geria investimentos para cerca de 120 clientes, uma mistura de indivíduos ricos, fundos de famílias e clientes empresariais. Depois de praticamente dobrar de valor no ponto máximo do surto de compras chinesas no começo de 2011, o valor do fundo de vinhos do Wine Asset Managers, subiu modestos 20 % sobre o valor de referência de 2006.

Contudo, em uma aposta para evitar os caprichos do mercado global, Mora e associados tomaram uma série de medidas para diferenciar o Bottled Asset Fund de seus concorrentes maiores.

Mora recrutou o amigo Sergio Esposito, fundador do Italian Wine Merchants, como consultor do projeto. Esposito fez carreira promovendo vinhos italianos e convenceu Mora de que um fundo composto principalmente por vinhos finos italianos não estaria sujeito às oscilações do mercado como um todo porque tais vinhos têm quantidade mais limitada e demanda constante.

O fundo de Mora também compra vinhos diretamente de produtores da Itália, e não de distribuidores, cortando intermediários e garantindo o lucro.

E em vez de copiar as estruturas de fundo de índice de Wine Asset Managers e Wine Investment Fund, Mora tornou seu empreendimento um fundo fechado, semelhante às estruturas tradicionais de private equity . Os investidores poderiam injetar uma quantia determinada de dinheiro e esperar a distribuição em cinco anos. Mora e os sócios ficariam com dois por cento pela gestão e 20% dos lucros.

"O problema com os fundos abertos é que se as pessoas quiserem sair, todas querem sair ao mesmo tempo", explicou Mora.

Mora lançou o fundo em 2010 com uma gestão de US$ 8,5 milhões. O fundo adquiriu uma coleção de vinhos italianos raros e novos lançamentos diretamente dos produtores, além de champanhes franceses e tintos espanhóis.

Os vinhos estão armazenados no Octavian Vaults, casamata ao estilo militar nos arredores de Londres destinada a proteger a coleção do clima feroz.

O fundo agora está liquidando os ativos vendendo em leilões e a varejistas, para pagar aos investidores. Enquanto o fundo chega ao fim, Mora aceita investidores para o próximo Bottled Asset Fund, que deve administrar US$ 20 milhões.

"De uma perspectiva de risco e remuneração, o que realizamos é muito atraente. Para perdermos dinheiro, seria preciso que uma bomba atômica explodisse em Londres destruindo nossa adega e a seguradora", garantiu Mora.

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