Criada em 2005, marca de sapatos colecionáveis quebrou em 2010; quatro anos depois já planeja expansão internacional

“Ser empresário no Brasil é atestado de loucura”. A afirmação é de Cristiano Bronzatto, idealizador da marca brasileira de sapatos colecionáveis Louloux . A declaração diz muito sobre o próprio designer, que mesmo depois de enfrentar a falência de sua empresa não desistiu das suas extravagantes criações e decidiu continuar sendo a alma por trás da Louloux, só que desta vez como funcionário.

A Louloux nasceu em 2005, com um investimento de R$ 1,5 mil do bolso do próprio sapateiro. No seu início, segundo ele, a Louloux era como qualquer outra fabricante de calçados brasileira: produzia e repassava seus pares para os lojistas venderem. E durante alguns anos, a empresa, seguindo a tradição calçadista de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, cresceu e atravessou a fronteira. Chegou a ter loja em Nova York, nos Estados Unidos.

Até que veio a crise de 2008, que engoliu todo o mundo, especialmente setores exportadores como o de sapatos, uma vez que ninguém mais comprava nada. Segundo Cris, a dificuldade foi resultado da crise, da sua falta de experiência com negócios, do próprio modo de funcionamento do mercado e da dificuldade de ser empresário em uma País de muito impostos. “A Louloux era uma marca convencional, que fazia coleção e vendia em feira. Só que esse formato de mercado é terrível: se a pessoa não vende, a culpa é tua e ela simplesmente não te paga mais”, relata.

Em tom de desabafo, ele continua: "Eu nunca quis ter uma fábrica de sapatos, mas sempre tive vontade de fazer um produto diferente e desde o início encontrei resistência da indústria. Sempre quis criar sapatos com modelos novos, mas não é isso que a moda brasileira quer. Eles procuram pessoas que saibam tirar boas fotos de vitrines na Europa, filtrar bem a coleção dos outros para depois copiar”. De acordo com o criativo, ter uma fábrica foi a forma de fazer seus sapatos, mas sofreu as consequência de não saber como gerenciá-la: “Eu não tinha experiência nenhuma e nesse formato nós fracassamos”.

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Em 2010, mesmo quebrado, Cris resolveu continuar fazendo sapatos para poder pagar as contas. “Acreditava no produto, mas tinha alguma coisa errada no meio, que era esse filtro da moda, do lojista e do cliente. Os sapatos que os lojistas menos gostavam são os que mais vendemos hoje. A gente faz sapatos do jeito que queremos para quem quiser comprar e ponto. E eu só segui nesse negócio porque nós conseguimos encontrar as nossas pessoas”.

Cristiano Bronzatto, idealizador da Louloux
Ricardo Toscani/Divulgação
Cristiano Bronzatto, idealizador da Louloux

O acerto que vem do erro dos outros

Com a Louloux oficialmente quebrada, Cris se viu apenas com uma bicicleta e uma prateleira de restos de couro. “Um dos fatores dessa nossa má administração era o desperdício, a falta de habilidade de gerenciar o material de produção, o que comprávamos demais ou quando errávamos na conta. Não tínhamos grana e a única coisa que sabíamos fazer era sapato. Então, pegamos esses restos e começamos de novo".

Segundo o sapateiro, seus modelos sempre foram assim, recortados, cheios de peça, só que antes eles eram pensados assim desde a concepção. "Eu escolhia de antemão as cores com as quais iria trabalhar em cada coleção. Mas quando resolvemos recomeçar, tinha nessa prateleira restos de quatro, cinco anos de trabalho, e uma coisa não conversava com a outra. Começamos a descombinar e desse processo surgiram novas combinações, que é o que a gente faz até hoje”, conta Cris.

A diferença dessa segunda fase da marca é que logo a Louloux percebeu que não era a única com problemas em gerenciar a produção. Segundo o emrpesário, até quem está há muito tempo no mercado desperdiça material. “Hoje a gente trabalha no erro dos outros, nesses restos que sobram e que as fábricas revendem por menos”. Além disso, segundo Cris, 50% desse material que sobra não é erro, é fruto do que ele chama de moda perecível. “A parte que temos que comprar de primeira mão não chega a 10%. E se hoje a gente resolvesse quintuplicar a produção, certamente encontraríamos desperdício para tanto”.

O renascimento da Louloux teve duas frentes: a loja online, que segundo Cris vende 50% de todo o faturamento da empresa, e da aposta em lojas temporárias. Hoje, a Louloux possui três lojas físicas, duas em shoppings de Porto Alegre e uma no Jardins, bairro paulistano.

Para o ano que vem, o idealizador da marca adianta que a Louloux deve continuar apenas com a loja paulista e que um terceiro formato de ponto de venda, entre a temporária e a física, deve surgir. Para este ano ainda está prevista a internacionalização da empresa. O site em inglês já está em desenvolvimento e até o final de 2014 a empresa deve começar a vender para vários países da Europa, a começar pela Inglaterra.

Sapatos Louloux são 100% feitos a mão
Reprodução
Sapatos Louloux são 100% feitos a mão

Loja tem sapatos com preço médio de R$ 169 por opção

A nova fase da Louloux também se reflete na forma como a empresa encara o seu negócio. Cris quer se distanciar de outras fábricas de calçados que são conhecidas por pagar pouco para o seu funcionário e que apenas visam o lucro. Segundo o idealizador, a Louloux busca ser conhecida por ser uma marca humana.

E ainda que a Louloux tenha saído de um pequeno bazar atrás de um café em Porto Alegre, em 2010, para três lojas físicas em 2014, o lucro é pequeno e a empresa cresce devagar. De cinco funcionários em 2010, pulou para 85 neste ano.

“Tudo aqui é meio colaborativo. Uma campanha só é feita com fotógrafo amigo que cobra em sapatos para a mulher. Nosso lucro é pequeno porque tentamos manter a mão de obra com um bom salário. Nós vendemos barato se pensarmos no trabalho que dá fazer esse sapato. E não adianta sapato que não vai para rua. Não existe bom design que as pessoas não podem usar”, ressalta Cris.

O sapateiro diz ainda que não concorda com essa postura da indústria de que algo legal precisa ser caro e que por isso aplicou uma lógica diferente na marca que idealizou. “Nós somos como todo mundo. Eu, por exemplo, compro no cartão de crédito, parcelo e faço prestação de carro e apartamento como todo mundo. Se as coisas legais não fossem tão caras eu teria mais coisas legais do que eu tenho. Na hora de pensar o preço do meu sapato eu não posso ter a cabeça do cara que me impede de comprar o que eu quero porque cobra um preço é muito alto, né”. 

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O preço médio de um sapato da Louloux é de R$ 169. Por vezes, quando deseja exercer sua criatividade, o designer cria modelos que acabam custando mais, porque também não se limita ao preço. “Nosso produto é difícil de fazer, tem sapatos que tem 52 peças recortadas. Para fazer cinco pares por dia eu preciso de quatro mulheres costurando por oito horas”.

Hoje, segundo ele, um terço do valor de um sapato colecionável é de material, um terço vai para o bolso do funcionário e um terço volta para a Louloux para ser reinvestido. Para crescer como outras empresas do setor, segundo Cris, o preço do sapato deveria ser 80% maior, mas essa não é a vontade da Louloux: “Queremos cobrar um preço que seja justo para mim, para quem faz e para quem compra. Hoje, atingimos somente 5% dos potenciais clientes da Louloux. Quando encontrarmos mais pessoas do que eu chamo de nossas pessoas vamos lucrar mais e crescer ainda mais rápido”, afirma.

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