A Estrada do Pacífico, que liga o Brasil ao maior oceano do planeta, terá seus últimos metros inaugurados nesta sexta-feira, mas o governo peruano pagará a obra pelos próximos 15 anos. A parte mais cara e complicada, que tem 710 km e corta os penhascos dos Andes e a alagadiça Amazônia peruana, custou US$ 1 bilhão (R$ 1,6 bi) – aproximadamente metade do total da via. A execução desse trecho só foi possível graças a uma parceria público-privada entre Lima e a construtora brasileira Odebrecht.
“Governo não tinha capacidade de investimento, construtora financiou a obra”, diz diretor
O pagamento funcionou da seguinte forma: a Odebrecht (na verdade, o consórcio na qual a construtora é líder, com 70% de participação) completava um trecho com recursos próprios e emitia um título, com vencimento de longo prazo; o governo verificava a obra e validava o título com um certificado oficial, que deixava baixíssimo o risco de quem comprava o papel; investidores adquiriam os títulos e resgatavam no vencimento, ganhando juros de 8,25% ao ano.
O risco dos títulos é basicamente o “risco Peru”, um país que conseguiu grau de investimento antes do Brasil. Cerca de 90% deles foram adquiridos pelo banco Merryl Linch, o resto foi comprado por fundos de pensão peruanos. “O governo não tinha capacidade de investimento imediata, por isso a construtora basicamente financiou a obra”, diz Eleuberto Martorelli, diretor de investimentos da Odebrecht no Peru.
A construtora também será remunerada através da concessão da estrada, que irá administrar pelos próximos 20 anos. O governo pagará US$ 10 milhões (R$ 16 mi) ao ano pela manutenção e operação da via. Na verdade, menos que isso, porque desse valor será descontado aquilo que for arrecadado com pedágios – serão cinco, que custarão US$ 1,50 (R$ 2,40) por carro de passeio ou por eixo de veículo de carga. “A construtora não podia correr o risco de depender da demanda, que é relativamente baixa”, explica Martorelli.
A empreiteira fatura ainda com construções feitas no chamado “direito de via”, como postos e restaurantes. Mas a previsão é de que esses ganhos não sejam expressivos.
A Odebrecht é a empresa brasileira com maior atuação no Peru. Tem US$ 2 bilhões (R$ 3,2 bi) em contratos no país, onde atua há 30 anos. Além disso, possui US$ 1,2 bilhão (R$ 1,9 bi) em obras de investimento próprio – no caso, a hidroelétrica de Chaglla. O país representa a terceira maior operação internacional da construtora baiana, atrás apenas de Angola e da Venezuela.
“O primeiro milagre”
Há algumas semanas, a extremidade sul da baía de Lima ganhou um cristo redentor. Com braços abertos para o Pacífico, a estátua tem quase o mesmo tamanho do original carioca – porém, é feita de acrílico – e foi presente da Odebrecht. A novidade já atrai turistas e visitantes, mas sua instalação ali não foi unanimidade.
A prefeita de Lima, Susana Villarán, conhecida pelo discurso esquerdista, achava que o cristo era uma cópia sem autenticidade, um traço de dominação cultural. Pediu que fosse instalado ao longo da rodovia feita pela construtora, no interior do país, já que o presente tinha sido dado pela empresa. Allan Garcia, o presidente, achou que seria uma falta de educação – e não só ratificou a localização litorânea como deu US$ 25 mil (R$ 40 mil) do próprio bolso à construção.
A atitude acabou dando combustível para os críticos, que passaram a questionar as contas pessoais de Garcia – a estátua, como um todo, custara US$ 800 mil (R$ 1,3 mi). A imprensa peruana se interessou pela polêmica. Mas, depois de semanas de argumentação, a estátua acabou mesmo no penhasco à beira mar, abençoando a capital.
Então, pouco depois da inauguração, foi divulgada a notícia de que a Odebrecht ganhara a concorrência para construir uma nova linha de metrô em Lima. A empresa sempre teve enorme presença no Peru, o que leva a crer que um fato não tem nada a ver com outro. Mas um espirituoso jornal local não perdeu a deixa e estampou na manchete: “O primeiro milagre do Cristo!”.
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