Nomes cotados para a Vale desagradam parte do governo

Alinhados com a política de Agnelli, executivos não seriam os melhores para realizar mudanças como o aumento na produção de aço

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro | 01/04/2011 14:13

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Os nomes cotados para assumir a presidência da Vale – os executivos da mineradora Tito Martins e José Carlos Martins, além do ex-diretor da companhia Fábio Barbosa - desagradam à ala do governo que está reformulando o setor de mineração. Segundo fontes do Planalto, o governo quer que a Vale seja mais alinhada com as diretrizes iniciadas por Luiz Inácio da Silva e mantidas pela presidenta Dilma Rousseff.

“São nomes muito alinhados com a gestão de Roger Agnelli - boa para os acionistas mas não para o País. Nada muda com essas pessoas e Vale vai continuar exatamente igual, resistindo às mudanças que o governo quer fazer”, disparou uma fonte do governo ao iG.

Em sua gestão à frente da Inco, mineradora canadense adquirida pela Vale, Tito Martins deu provas de que não declina de suas posições em negociações com trabalhadores. O executivo enfrentou uma greve de mais de um ano no país e não cedeu às reivindicações do sindicato local. Nome mais comentado pelo mercado para assumir a Vale, Tito Martins está na Vale desde 1985.

José Carlos Martins é diretor de Vendas e Marketing da Vale, mas por muito tempo ficou à frente da diretoria de Minerais Ferrosos, onde ajudou a conduzir importantes projetos como a expansão de Carajás. Já Fábio Barbosa foi diretor financeiro da mineradora por 8 anos, de 2002 a 2010. Pessoas ligadas ao executivo avaliam pouco provável a nomeação de Barbosa, que foi com toda a família para Londres para assumir o cargo de diretor de uma petroleira multinacional.

Mais aço e menos exportação de ferro

Nos últimos anos, o governo vem reunindo argumentos técnicos para subsidiar as mudanças que pretende fazer na mineração. Uma delas é estimular o País a exportar menos minério de ferro e produzir mais aço, para gerar emprego e mais valor ao produto. Outra alteração trata da cobrança de royalties e regras mais precisas para evitar que se repita nos próximos anos o imbróglio de R$ 4 bilhões entre Vale Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) relativo ao pagamento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), como é chamado o royalty da mineração.

Estudo do Ministério de Minas e Energia (MME) mostra que produtores de bens primários da cadeia do ferro pagam, em geral, muito menos impostos que as empresas que geram maior valor agregado, tornando mais competitivas as matérias-primas do que os produtos finais brasileiros no mercado internacional. Em cinco anos, a Vale destinou 22% do valor da produção ao governo, enquanto a parcela da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) chega a 43%, segundo dados coletados de 2002 e 2007. No caso da Petrobras, estatal de capital misto, o percentual que cabe ao Estado dispara para 59%. Pelas regras atuais, as empresas não pagam impostos sobre exportações.

Um dos pontos de divergência entre Agnelli e Lula foi justamente a construção de usinas siderúrgicas. O governo petista queria que a Vale construísse mais siderúrgicas em vez de vender tanto minério ao exterior.

“Em qualquer país do mundo, quando se tem empresas muito grandes, os governos querem que sua gestão caminhe junto com o País. Isso não é só aqui no Brasil, mas na Austrália, nos Estados Unidos”, avalia outro membro do governo que acompanha as discussões.

Subsolo mais barato do mundo

Outro relatório do MME aponta o subsolo brasileiro entre os mais baratos do mundo. As alíquotas da CFEM vão de 0,2% sobre pedras preciosas e metais nobres; 1% sobre ouro; 2% para minério de ferro, fertilizantes e carvão; e 3% sobre minério de alumínio, manganês e potássio. Na Austrália, um dos maiores produtores do mundo, a taxação de royalties sobre ferro varia de 2,75% a 7,5% das vendas do produto, dependendo da região. Sobre o carvão australiano incide uma alíquota de até 10%. No Chile, o governo anunciou recentemente a possibilidade de elevar as alíquotas atuais, de 4% a 5%, para até 9% a partir de 2017. No Canadá, outro grande produtor mundial, o preço da extração do minério de ferro pode variar de 15% a 20% das receitas tributáveis.

Representantes da mineração, por sua vez, ponderam que não apenas o royalty tem que ser levado em consideração pelo governo na hora de avaliar o custo da Vale, mas também impostos, que são maiores no Brasil do que nos demais países produtores.

Três nomes por head hunter

O acordo de acionistas da Vale prevê que a substituição do seu presidente seja realizada com a participação de empresa especializada em contratação de executivos (head hunters). "O diretor presidente será selecionado em lista tríplice elaborada por empresa internacional de seleção de executivos (head Hunter) e eleito em reunião do Conselho de Administração da CVRD", diz o acordo. Um analista observa que isso não funciona na prática, mas somente na teoria, pois, segundo ele, a escolha será feita diretamente pelos donos da mineradora.

A Vale é controlada por uma holding a qual um grupo de fundos de pensão liderados pela Previ, o fundo do Banco do Brasil, a empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDESPar); a Bradespar, empresa do banco Bradesco, e a japonesa Mitsui, divedem o poder.

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