Criadores de porcos enfrentam pressão para aumentar chiqueiros

Mais baratos, criadouros apertados são criticados por ambientalistas e empresas anunciam a intenção de deixar de utilizar produtos de origem suína produzidos nestes locais

NYT - Stephanie Strom |

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A matriz 44733 quebrou o ombro de uma de suas colegas de chiqueiro, atacou outra que estava acuada em um canto e estava mascando a orelha de uma terceira.

Outros animais no cercado exibiam feridas, orelhas machucadas e rabos sangrentos – lembranças dos carinhos da matriz 44733.

Esse é o tipo de comportamento que leva criadores como Tom Dittmer a isolar certos animais em áreas individuais conhecidas como celas de gestação, pouco maiores que os próprios porcos.

"A razão de o setor ter adotado as celas não foi porque quiséssemos machucar nossos animais", afirmou Dittmer. "Fizemos isso porque pensamos que seria o melhor para eles." Essa estratégia também manteve relativamente baixo o preço da carne de porco para os consumidores, afirmou.

Stephen Mally/The New York Times
Celas de gestação são criticadas por serem um pouco maior do que os próprios porcos


Entretanto, este ano, Dittmer e outros criadores de porcos estão sendo cada vez mais pressionados pelos grandes compradores de carne de porco e pelos grupos de direitos dos animais para voltar à velha prática: colocar os porcos em chiqueiros coletivos.

Apenas na última semana de setembro, três empresas – Dunkin' Donuts, ConAgra Foods e Brinker International, proprietária da Chili's – anunciaram que ao longo da próxima década deixarão de utilizar produtos de origem suína produzidos a partir de porcos criados em celas de gestação.

Recentemente, a rede de panificadoras Bruegger's também se juntou ao grupo. Dessa forma, chegou a 32 o número de redes de fast-food e de outras empresas do setor que se comprometeram a deixar de consumir esse tipo de produtos de origem suína – uma impressionante vitória da Humane Society dos Estados Unidos, que trabalhou por anos para convencer os produtores a mudar de comportamento.

O Conselho Nacional dos Produtores de Porcos afirmou não saber exatamente quanta carne de porco essas empresas compram, mas estimam que seja cerca de um quinto de toda a produção.

Fazendeiros como Dittmer não aprovam a tática e se preocupam que os custos serão insustentáveis para os criadores, elevando o preço da carne de porco para o consumidor.

Não acho certo que uma grande rede de restaurantes de Chicago que não sabe nada sobre criação de animais nos diga como devemos cuidar dos porcos", afirmou Glen Keppy, um criador aposentado cujos filhos terminam de criar os porcos de Dittmer para o mercado, referindo-se ao McDonalds, que prometeu em fevereiro parar de comprar produtos de origem suína feitos a partir de porcos criados em celas de gestação. "Eles diriam para a Microsoft de que forma devem fazer seus computadores?"

Uma porca com os leitões. Os Dittmers dizer que nenhum dos 500 leitões que nascem a cada dia no Grandview Farm cada dia estão confinados em caixas. Foto: Stephen Mally/The New York TimesPorca destinada ao abate com cicatrizes de ataques de outras porcas em chiqueiro coletivo na Fazenda Grandview em Eldridge, Iowa. Foto: Stephen Mally/The New York TimesPorcas destinadas ao abate no chiqueiro coletivo na Grandview, em Eldridge . Foto: Stephen Mally/The New York TimesTom Dittmer disse que colocou as porcas em chiqueiros coletivos para garantir a segurança dos animais. Foto: Stephen Mally/The New York TimesCriadores de porcos enfrentam pressão para aumentar chiqueiros
. Foto: Stephen Mally/The New York Times

Os pesquisadores não sabem ao certo qual o melhor tipo de espaço para o bem estar dos animais, de acordo com a revisão feita por uma equipe contratada pela Associação de Medicina Veterinária dos Estados Unidos. Mas a Humane Society e outras organizações de defesa dos animais sustentam que manter as matrizes em celas de gestação é cruel.

Iniciativas anteriores para convencer os criadores de porcos apresentaram resultados incongruentes. A Cargill, terceira maior processadora de produtos de origem suína do país, é proprietária de cerca de um quarto das matrizes que produzem porcos para a empresa e começou a colocá-las em chiqueiros maiores há cerca de uma década.

A Smithfield Foods voltou a prometer que iria adotar áreas maiores no ano passado, depois de se comprometer a fazê-lo em 2007 e mudar de ideia. A Tyson Foods e a JBS, duas outras grandes empresas do setor, se negam a mudar de comportamento.

Por isso, a Humane Society – armada com vídeos assustadores de funcionários maltratando porquinhos mortos, além de matrizes em celas de gestação tão apertadas que não conseguem se mover, sofrendo de lesões nos ombros e problemas nervosos – levou o caso às grandes marcas consumidoras.

Em poucos meses a organização foi capaz de alcançar um objetivo que não conseguiu depois de anos tentando negociar com as principais empresas de processamento.
Mas agora, alguns dos produtores independentes que fornecem a carne para as empresas de processamento estão reagindo.

Pat Hord e a família colocaram janelas em alguns dos celeiros no centro-norte de Ohio, para que os visitantes vejam como os 18.000 porcos são tratados.

"Há muita incompreensão e falta de informação sobre o que fazemos com os porcos que são criados nas celas", afirmou Hord. "Não é culpa de ninguém. Mas ninguém mais está na fazenda."

Dittmer recentemente convidou um repórter para passear pela fazenda Grandview, fundada por seu bisavô em 1917, onde vivem 6.000 matrizes, que ele frequentemente chama de "minhas meninas".

Em meados dos anos 1990, fazendeiros como Dittmer e Hord passaram a manter as matrizes em celas de gestação, onde sua alimentação podia ser controlada individualmente. A restrição de movimento determinava o local onde defecavam e mantinha as fezes dos animais longe da comida e da água. O uso de assoalhos abertos facilitava a limpeza e a remoção dos dejetos.

Os cuidados veterinários podiam ser dados com mais facilidade e segurança. A agressividade diminuiu drasticamente e os funcionários passaram a ter mais segurança.

Além disso, os custos foram reduzidos e a produtividade aumentou – para uma média de 12 leitões a cada vez que as matrizes de Dittmer ficam prenhes. "Ninguém gosta de dizer, mas isto aqui é um negócio", afirmou Ben Dittmer, seu filho.

Utilizando pesquisas realizadas pela Universidade do Estado de Iowa sobre o alojamento das matrizes, Dittmer estimou que os custos da fazenda Grandview poderiam aumentar em 1,3 milhão por ano, caso colocasse as matrizes de volta nos chiqueiros. A mesma pesquisa indica que as matrizes produziriam um ou dois porcos a menos por ano, algo similar ao que se observa na Europa, que já está mais adiantada na substituição das celas por chiqueiros.

Por essa razão, a família decidiu que vai manter a maior parte das matrizes em celas de gestação, apesar da pressão exercida pelos grupos de defesa dos direitos dos animais. A família Dittmer afirma que nenhum dos 500 leitões que nascem a cada dia na fazenda Grandview fica confinado em celas – eles caminham livremente em chiqueiros e podem entrar e sair quando quiserem das celas onde as matrizes ficam confinadas para amamentação. Na verdade, de acordo com a Cargill, a maior parte da carne de porco comida pelos americanos não vem de porcos criados em celas.

Hord, cuja família investiu em alojamentos coletivos para cerca de 40 por cento das matrizes, se pergunta se isso valerá a pena. A construção dos novos chiqueiros é mais cara, assim como os custos operacionais, já que a fazenda precisa de mais mão de obra para cuidar das matrizes. Os cuidados veterinários também são mais caros e o sistema de alimentação ainda está longe do ideal.

Até o momento, a família Hord está absorvendo os custos. "Em algum momento, teremos que cobrar mais caro por isso", afirmou Hord. "Caso contrário, vamos acabar falindo."
Criadores americanos afirmam que o que aconteceu com a criação de porcos na Europa pode servir de aviso para os consumidores americanos. Em 1991, o governo britânico decidiu que todas as matrizes deveriam estar em chiqueiros até 1999. Os consumidores, que não estavam dispostos a pagar os preços mais altos, compraram carne mais barata vinda da Dinamarca e da Holanda, levando os produtores locais à falência.

Agora, a Dinamarca, a Holanda e outros países produtores de porcos da União Europeia precisarão transferir as matrizes para chiqueiros até o ano que vem. Criadores de suínos na América Latina, na China e na Rússia, que não são submetidos às mesmas exigências, estão prontos a vender carne mais barata para o mercado europeu.

Nem todos os fazendeiros dos Estados Unidos têm a mesma opinião de Dittmer e Hord. Paul Willis supervisiona uma rede de 500 fazendeiros em todo o país que criam os porcos que serão comercializados pela Niman Ranch. As matrizes que dão à luz os porcos caminham livremente pelo pasto, da mesma forma que os porcos da família Dittmer eram criados há algumas décadas.
Willis afirma que as celas de gestação são desumanas. "Essas matrizes não podem nem se mexer, não têm onde se deitar, onde se proteger", afirmou. "Isso é inaceitável."

Ainda resta saber se o consumidor americano está disposto a pagar mais por porcos criados ao ar livre. As vendas da linha Good Nature, da Cargill, com carne de porcos de criação extensiva, aumentaram 20 por cento no ano passado – mas a empresa promove principalmente a ausência de antibióticos, hormônios de crescimento e conservantes na carne.

Meio quilo de costela desossada da linha Good Nature custava 4,19 dólares no site da ShopRite em Hoboken, Nova Jersey, comparado com 3,19 pelo meio quilo do mesmo corte da Sterling Silver.

Glynn Tonsor, professor associado de economia rural da Universidade do Estado do Kansas, afirmou que a economia doméstica frequentemente se sobressai à ética.

Eleitores apoiam em peso medidas que pressionam a proibição da criação de galinhas em gaiolas, mas as vendas de ovos de criação extensiva – que custam 50 por cento mais que os ovos comuns – correspondem a menos de 5 por cento do mercado, afirmou Tonsor.

"Não há razão econômica para que os produtores mudem voluntariamente das celas para os chiqueiros", afirmou. "Porém, parece que agora a coisa vai mudar de figura."


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