Em 2008, o consumo nacional de cafés gourmet era de apenas 500 mil sacas; no ano passado, o número dobrou e os brasileiros consumiram 1 milhão de sacas

Filho de inglês, Dennis Freeman viveu na Califórnia, se casou com uma italiana, e decidiu ser um empresário brasileiro. No Itaim, em São Paulo, abriu uma pequena padaria orgânica, um estabelecimento de apenas 80 metros quadrados, onde decidiu investir em cafés especiais. “O café gourmet caiu do céu para mim”, diz ele ao explicar que vende o produto “que nem água”. Por semana, a padaria comercializa cerca de 3 mil xícaras de café, “bastante se você considerar nosso tamanho”. Porém, para vender tanto, Dennis fixou o preço de cada xícara em R$ 4,50, muito abaixo do valor praticado pelos concorrentes da região (uma xícara de expresso gourmet pode custar até R$ 10). Por enquanto, ele quer que os clientes experimentem o produto, “quando você prova um café desses, sente a diferença e vai querer tomar de novo”.

Parece que Dennis está certo. Os números do mercado interno mostram que o café especial está caindo no gosto do brasileiro. Em 2008, das 17 milhões de sacas de café consumidas no país, apenas 500mil eram especiais ou gourmet. Em 2011, das 20 milhões de sacas consumidas por aqui, 1 milhão era especial. “O hábito de ir a cafeterias ainda não é popular no Brasil, mas pode ser difundido para a nova classe média”, diz Vanúsia Nogueira, diretora executiva da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). “Houve um aumento de cafeterias em shoppings, essa é a porta de entrada para a classe C”, diz.

Conheça alguns dos cafés especiais produzidos no Brasil:

Apesar da popularização da bebida, os cafés especiais dificilmente ocuparão as prateleiras de supermercados populares. “A demanda interna ganhou fôlego há dois anos, mas café de boa qualidade em mercado ainda é um desafio para o mundo todo”, diz Sílvia Magalhães, diretora da Italian Coffee e também tricampeã brasileira na arte de preparar cafés. Cada quilo de café especial pode custar de R$ 30 até R$ 180, enquanto um quilo de café popular (consumido por 80% dos brasileiros) custa em média R$ 13, segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).

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O preço do café gourmet no varejo é elevado, porque segundo os produtores, plantar e colher no Brasil ainda é muito caro. Cerca de 50% da produção de cafés especiais é feita no estado de Minas Gerais, “os melhores são cultivados em terrenos inclinados”, diz Vanúsia Nogueira. Nesses terrenos, as plantas criam raízes mais fortes e profundas para se sustentar, por isso absorvem mais nutrientes e desenvolvem frutos melhores. “A cafeicultura de montanha tem um custo bem maior porque ainda não temos o equipamento adequado para esse tipo de colheita”, diz. “Os produtores estão sofrendo por falta de tecnologia, até hoje a máquina necessária para esse tipo de colheita não foi desenvolvida em nenhum lugar do mundo”.

“Para produzir um quilo de café especial é preciso no mínimo de R$8 a mais”, diz a barista Sílvia Magalhães. A principal diferença entre os produtos especiais e os convencionais (ou commodity, porque porque também é um produto de base com cotações globais) são as impurezas. “O café commodity é produzido com grãos maduros, verdes e passados e na torrefação vai até pedaço de pau, pedra ou milho despercebido”, diz Sílvia. Já os cafés gourmet, possuem no máximo doze defeitos a cada 300 gramas, há uma seleção mais criteriosa de grãos e apenas os mais maduros são torrificados.

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No mercado externo, o café especial brasileiro tem conquistado mercados. Os principais compradores são Japão, Estados Unidos e União Europeia. O gerente geral da Embrapa Café, Gabriel Bartholo, diz que “a produção brasileira representa 15% do total produzido no mundo”. Desde 2008, a exportação do produto gourmet quase duplicou, passando dos R$3,5 milhões para R$5 milhões no ano passado. “O café especial é a vitrine da produção brasileira”, diz Vanúsia. “Com produtos de maior qualidade e valor agregado podemos construir uma imagem melhor no mercado externo e impulsionar inclusive o preço da commodity, como fez a Colômbia”.

Os torrefadores mundiais de café do tipo gourmet costumavam ver os grãos brasileiros como um produto de baixo custo utilizado para completar o sabor das variedades mais potentes produzidas na Índia ou na Colômbia. Nos últimos anos, à medida que a qualidade melhorou, o café do Brasil ganhou popularidade. Segundo a Associação Brasileira de Cafés Especiais, em 2013 alguns grãos nacionais poderão ser usados para cumprir contratos futuros, um sinal de sua aceitação generalizada.

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