Antonio Roberto Gerin, dramaturgo, autor de "A vizinha de Antonio", que conseguiu colocar sua produção na Lei Rouanet
Indicado a um prêmio Shell, Antônio Roberto Gerin clama a si o título de maior dramaturgo de Brasília da atualidade e reclama muito pelo fato de que hoje em dia só existe dinheiro farto para globais fazerem teatro no eixo Rio-São Paulo. Olhando para essa realidade, resolveu correr atrás de meior para levantar recursos para suas próprias obras.
Com sua sócia e esposa, Silvia Plínio, e depois de fazer um curso no Sebrae para pequenos empresários, ele criou a companhia de teatro "Assisto porque gosto", para produzir os doze textos que já tem prontos para encenar. Na primeira peça, apesar de boa bilheteria, teve de bancar quase todo o custo da produção com o próprio bolso, sem patrocínio ou incentivo.
No ano passado, porém, resolveu ler livros e buscar outras formas para aprender a lidar com incentivos culturais. Aprendeu sozinho e conseguiu incluir sua obra na lei Rouanet, para levantar recursos a partir de doações. Para esse apredizado, ele recomenda especialmente os vídeos feitos pelo Ministério da Cultura, disponíveis aqui.
Segundo Gerin, a dica fundamental é começar a preencher os formulários apenas quando já se tiver todos os dados necessários à mão. Depois disso, em poucas horas, é possível enviar o material. O MinC ainda costuma enviar solicitações de complementos. O mais complicado, segundo Gerin, é inserir no sistema os dados do orçamento, que são separados por diversas rubricas.
Mas, sozinho, o autor conseguiu enquadrar seu projeto na lei Rouanet e, por meio de incentivos, levantou R$ 25.541,00, do total de R$ 67.792 do orçamento para sua peça que estreia em março, “A vizinha de Antonio”. “A sensação de bater de porta em porta e pedir dinheiro não é fácil, mas decidi buscar meu caminho”, conta ele ao iG, durante um ensaio da apresentação.
Chapéu passou por empresas, mas pessoas que ajudaram
Depois de produzir um material de divulgação de 30 páginas em papel couché para patrocinadores e pedir recursos a várias empresas do Distrito Federal, Gerin não viu nenhum centavo dessas fontes e concluiu que a capital do país está no que considera a “periferia” do mercado cultural brasileiro – concentrado no eixo Rio-SP. Depois disso, Gerin resolveu pedir dinheiro para quem já sentou nas poltronas para ver seu trabalho, ou seja, pessoas físicas próximas.
Mandou imprimir 2500 folders explicando às pessoas físicas que, pela lei Rouanet, quem declara pelo formulário completo pode aplicar até 6% do imposto de renda devido em cultura tendo contrapartida total – ou o valor a pagar é reduzido ou a restituição aumenta.
O autor pensou que conseguiria cerca de R$ 100 de 500 pessoas, totalizando algo em torno de R$ 50 mil. Ao final do período, conseguiu R$ 25 mil, mas com algumas surpresas. Foram apenas 49 os doadores, mas que deram, em média, mais de R$ 500 cada. “As pessoas faziam as contas e viam qual era o limite máximo para doar e me faziam um cheque ou davam o dinheiro.” Gerin teve doações entre R$ 200 e R$ 2,4 mil.
“As pessoas têm medo de achar que cultura possa ser um comércio”, avalia o autor e empresário. Para ele, há certa aversão de alguns artistas ao considerar a norma muito complicada e, portanto, evita-se qualquer tentativa de levantar recursos sozinho. “É preciso pensar artisticamente, mas também financeiramente.”
Gerin acredita que vai conseguir bancar o resto do custo do espetáculo com a receita de bilheterias. Em seu projeto comercial apresentado para eventuais patrocinadores, Gerin previu, no mínimo, 4 mil espectadores de sua peça, que terá ingressos vendidos a R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia entrada.
A expectativa da Assisto porque gosto é expandir a temporada de “A vizinha de Antonio” para outros teatros de Brasília e até sair do Distrito Federal, entrando talvez no eixo Rio-SP. Se isso acontecer, daí os sócios da companhia começarão a pensar em lucro com a peça.
Gerin e a sócia, Silvia, sabem, porém, que “A vizinha de Antonio” tem uma meta maior do que agradar público e crítica a partir de março. Eles têm de agradar aos financiadores, para que, na próxima peça, quem participou da primeira experiência tenha ainda mais disponibilidade de investir. “O principal retorno do doador é sentir orgulho por ter colaborado com um bom espetáculo. Mas não podemos errar, porque se algo sai errado, todo mundo foge”, diz ele.
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