Dupla cria jogo para explicar a crise e prevê recessão na China

Para criadores de ‘A Pequena Grande Crise 2’, Europa ainda vai demorar para resolver problemas financeiros, e país asiático pode dar susto nos mercados

Danielle Brant, iG São Paulo |

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Richard Rytenband e Felipe Okazaki criaram dois jogos para explicar a crise mundial
Se a atual crise financeira teve como protagonistas os Estados Unidos e as maiores potências da Europa, a próxima ocorrerá em algum país emergente, de acordo com o economista Richard Rytenband. Mais especificamente, em um dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Na verdade, é bem possível que tenha como origem a China, aposta o especialista, um dos criadores da série de jogos A Pequena Grande Crise, ao lado do analista de comportamento humano Felipe Okazaki.

O jogo tenta explicar, de maneira simples – talvez até demais –, as causas da atual crise que o mundo vive. A primeira edição, lançada em 2008, tinha como pano de fundo o colapso imobiliário nos Estados Unidos e no mundo causado pelas hipotecas subprimes – aquelas com critérios de concessão menos rígidos e alta inadimplência. Já a segunda versão do jogo, lançada em fevereiro deste ano, resolveu surfar na onda da crise na Europa.

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Nas duas versões, os jogadores recebem os conselhos de figuras experientes. No primeiro, a ajuda vem de um especialista do mercado financeiro com anos de estrada, mas ideias tradicionais, e de um jovem arrojado. “Quisemos mostrar que a garotada se arrisca demais, assume uma posição que alguém mais experiente sabe que vai dar problema”, diz Rytenband. Em A Pequena Grande Crise 2, os conselheiros são ninguém menos do que o ex-presidente dos EUA George W. Bush e o atual mandatário, Barack Obama.

“Apelamos mais para o senso de humor, mostrando as duas visões diferentes sobre como resolver a crise”, diz Rytenband.

Entenda a crise jogando

Durante o desenvolvimento do segundo jogo, os dois economistas se preocuparam em mapear todo o desenrolar da crise. “Pensamos na hipótese de os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha, os países mais afetados pela recessão) se recusarem a fazer o ajuste fiscal e rejeitarem alterar o tratado da União Europeia, assim como na posição da Alemanha, contrária a passar a mão na cabeça dos PIGS”, explica.

O jogador é apresentado a uma série de situações, e, para cada uma, há dois caminhos a seguir. De acordo com suas opções, as reações do mercado mudam de euforia para completo caos. Cada escolha tem uma consequência sobre os diversos protagonistas da atual crise europeia. Por conta disso, o jogo tem como duas soluções possíveis o fortalecimento ou o colapso do euro. 

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Reprodução
Em "A Pequena Grande Crise 2", Bush e Obama atuam como conselheiros do jogador
Na opinião de Rytenband, a Europa está trilhando o mesmo caminho que os EUA já percorreram para sair da crise. “Eles aprenderam a lição com os Estados Unidos. Por isso, a zona do euro vai tentar se unificar mais do que nunca. Quem não cumprir o ajuste fiscal vai ser expulso”, diz.

Segundo ele, os joguinhos têm como objetivo orientar o cidadão comum sobre as origens dos problemas econômicos que o mundo enfrenta. “Quando a primeira crise estourou, a maioria dos especialistas e das pessoas não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, estava todo mundo perdido. Eu e o Felipe nos juntamos para explicar a crise de forma simples e direta”, afirma.

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A Pequena Grande Crise 1 foi acessado por 250 mil usuários. A segunda já teve mais de 100 mil usuários. “A gente tenta mostrar que a atual crise na zona do euro nada mais é do que uma continuação daquela de 2008, que começou nos EUA”, conta Rytenband. “É bom para entender como a economia afeta o dia a dia da pessoa”, diz.

Na primeira edição do jogo, Rytenband e Okazaki se viraram nas onze posições, como se diz no futebol. “Montamos a trilha sonora, fizemos a dublagem, a programação”, conta, lembrando que a versão demorou seis meses para ficar pronta. Já na segunda, ambos já tinham experiência e, por isso, o jogo ficou pronto em um mês. 

China é a bola da vez

E a dupla já trabalha com a possibilidade de A Pequena Grande Crise 3 ocorrer em algum país emergente. “A crise é sempre fruto de um excesso, seja de consumo ou de investimento. Acho que isso deve acontecer entre dois e cinco anos em algum BRIC”, afirma. Palpite? “China”, responde Rytenband. “É como se a China estivesse no Brasil dos anos 1950, enquanto a Índia é o Brasil dos anos 1920”, ressalta o economista, que afirma que não há confiabilidade nas demonstrações contábeis do país.

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“Isso pode dar problema, pois ninguém tem a dimensão do que acontece por lá. Há excessos de crédito e um mercado imobiliário confuso”, afirma. Por isso, uma desaceleração do país asiático pode assustar os mercados mundiais dentro de alguns anos, acredita.

Começo

A parceria entre Rytenband e Okazaki teve início há 13 anos. Eles se conheceram no primeiro ano da faculdade de economia da PUC-SP, em 1999. “Na época, bolamos um jogo sobre as eleições, e começamos a fazer vários trabalhos juntos”, conta o economista.

Em 2010, os dois se juntaram para criar a Timos, que tem dois núcleos: o de comportamento humano e o de educação financeira. O primeiro deles é comandado por Okazaki, que tem um currículo para lá de eclético. Ele estudou Ciências Econômicas, Publicidade e Propaganda e Comunicação em Multimeios na PUC-SP. Além disso, como indica no próprio site da empresa, já teve contato com evangelismo, cristianismo, catolicismo, hinduísmo e xamanismo, só para citar algumas religiões.

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Na Timos, ele dá cursos de leitura de mãos, relacionamentos amorosos e como influenciar as pessoas em reuniões e como decifrar qualquer um em menos de 30 segundos. Já Rytenband ensina finanças pessoais e investimentos em imóveis, ações e renda fixa.

A iniciativa de “A Pequena Grande Crise” parece ter dado tão certo que Rytenband já prevê lançar uma sequência de jogos educativos para explicar finanças aos alunos dos cursos. “Acho que o uso de jogos como ferramenta de ensino ainda está engatinhando no Brasil. Já foi comprovado que, quando o aluno se envolve com o tema, há uma retenção maior de conhecimento”, diz. 

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