Chamado pelo chefe no meio do serviço, Claiton Silva Vargas desceu contrariado nove lances de escadas do prédio em construção, no centro de Porto Alegre. Desde que assinou a carteira com uma construtora em dezembro, com salário mensal de até R$ 4 mil, o azulejista de 28 anos perdeu as contas do número de vezes que teve de parar o serviço para negar ofertas de trabalho. “Já estava pensando o que falaria desta vez”, disse, aliviado, ao saber que não precisaria inventar desculpas ao encontrar a reportagem do iG.
Como Claiton, o assédio é corriqueiro sobre os trabalhadores da construção civil, um dos setores responsáveis por manter o desemprego da região metropolitana de Porto Alegre entre os menores do País. Segundo a última pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de julho, a capital gaúcha aparece com um índice de 4,7%, ao lado de Belo Horizonte. O resultado de Porto Alegre é 1,3 ponto percentual inferior à média nacional. O desemprego da metrópole gaúcha e dos 32 municípios dos seus arredores foi o menor nos primeiros seis meses do ano, colocando a cidade próxima da condição do pleno emprego - conceito utilizado por economistas para definir locais onde praticamente grande parte da população economicamente ativa está ocupada. Segundo especialistas, o Brasil teria pleno emprego quando os indicadores de desemprego ficarem na faixa entre 5% e 6%.
Em dezembro, quando Claiton deixou a vida de autônomo e viu sua renda mensal dobrar com o novo emprego, o índice de Porto Alegre havia atingido 3%. Foi a menor taxa de desocupação alcançada entre as seis regiões metropolitanas pesquisadas desde que a série começou a ser feita na década de 1980. “Estamos próximos de um cenário de pleno emprego, no qual as taxas de desemprego são consideradas friccionais (quando o trabalhador fica fora do mercado de trabalho por um curto período)”, diz o economista Flávio Fligenspan, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O desemprego friccional é considerado uma condição natural, uma vez que sempre existirá um nível de desocupação na economia por conta dos trabalhadores que estão trocando de função ou em busca de novas oportunidades. “É inegável que se trata de uma situação muito privilegiada em termos históricos”, diz Fligenspan.
Uma conjunção de fatores conjunturais e estruturais torna a região metropolitana mais meridional do país um dos símbolos da fatura de emprego – alguns deles com características muito singulares. Além de aproveitar o bom momento da economia brasileira, o Rio Grande do Sul tem polos industriais espalhados pelo Estado e não concentrados ao redor da metrópole. Ao contrário de outros Estados, os movimentos migratórios em busca de emprego no Rio Grande do Sul não miram a capital e arredores, mas outras regiões como a serra gaúcha e o Norte. O município de Caxias do Sul, na Serra, é o campeão em atração de novos migrantes, segundo dados do IBGE. Por isso, segundo economistas, a situação do pleno emprego da cidade é tão particular. Sem os migrantes e os desempregados que rondam zonas industriais das demais capitais brasileiras, Porto Alegre e região apresentam maior equilíbrio entre a oferta de trabalho e a demanda por emprego.
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Além disso, a capital vem perdendo moradores desde os anos 1990 e enfrenta acentuado processo de desindustrialização. “Essa questão migratória tem um impacto direto na taxa de desemprego da região metropolitana de Porto Alegre, uma das mais desconcetradas do país. Não é apenas a oferta de vagas que cresceu nos últimos anos, mas o fato de que há menos pessoas em busca de trabalho nesta região, o que reduz o níveis de desocupação”, explica o economista Ademir Koucher, supervisor de informações do IBGE no Rio Grande do Sul.
Dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul, que faz uma apuração própria de emprego e desemprego, também ilustram esse cenário. Segundo Raul Bastos, economista da FEE, em junho, o nível ocupacional de Porto Alegre cresceu 4,5% enquanto a população economicamente ativa expandiu em 2,6% Ou seja, o ritmo de geração de empregos aumenta de forma mais acelerada do que o número de pessoas que ingressa no mercado de trabalho. Construção civil e serviços são os setores que mais contribuem para o cenário favorável, e já se percebe visível aumento de padrão salarial para os trabalhadores.
"Ganho mais e trabalho menos"
Há 12 anos, quando começou a trabalhar com o pai na construção civil, Claiton Vargas tinha que conciliar o serviço de reformas com o trabalho em um supermercado. Depois, trabalhou de dia como azulejista e, de noite, em um estacionamento. “Eu conseguia me sustentar, mas trabalhava muito", afirma. "Hoje, ganho muito melhor e trabalho bem menos.”
No ano passado, após concluir um serviço em um condomínio de Porto Alegre, foi convidado pelo cliente, dono de uma construtora, a trabalhar com carteira assinada. Não hesitou. “Eu tinha uma clientela, mas ter a garantia de um salário todo mês dá estabilidade”, diz. Com um salário de, em média, R$ 4 mil, quase o dobro do que ganhava como autônomo, Vargas comprou um Gol 2007 em prestações de R$ 500, uma moto e está terminando de reformar casa, em Viamão, na região metropolitana da capital gaúcha. “Agora, quando esquentar, vou começar a vir de moto para o trabalho. Senão, uso o caro. Não ando mais de ônibus porque é muito estressante”, afirma. Vargas não pensa em largar o canteiro de obras. “De comida e casa todo mundo precisa. Então, não corro o risco de ficar sem trabalho”, conclui o azulejista, que está mais acostumado a recusar ofertas de emprego do que correr atrás delas. “As pessoas também têm uma ideia errada da construção civil. Hoje, ninguém mais carrega peso. Eu não misturo nem a cola, só corto e coloco o azulejo”, conta.
Setores como a construção civil viram a demanda crescer na mesma velocidade com que os custos da mão de obra, escassa, se tornou mais cara. “O piso da categoria subiu quase 10% e o preço da produção por metro quadrado também. Se não pago bem, perco pessoal e dinheiro, porque a obra para”, diz o engenheiro Giovani Perdomini, sócio da construtora que emprega Claiton. Ademir Koucher, do IBGE, compara essas mudanças às sofridas pela Europa e Estados Unidos, países em que os setores de serviços e construção são conhecidos por remunerações atraentes. “Se o setor enfrenta déficit de pessoal, terá de pagar melhor para compensar”, diz o economista. “A maioria conhece alguém que já morou fora e trabalhou em construções por causa dos bons salários. Situação semelhante está começando a ocorrer no país”, diz Koucher. Os baixos índices de desemprego em Porto Alegre são as feições mais visíveis desse fenômeno no Brasil.
| Mês/ano | Total | Recife | Salvador | Belo Horizonte | Rio de Janeiro | São Paulo | Porto Alegre |
| julho/02 | 11,9 | 12,1 | 14,8 | 10,5 | 10,2 | 13,3 | 8,6 |
| julho/03 | 12,8 | 14,2 | 17,6 | 11,4 | 9,6 | 14,5 | 9,5 |
| julho/04 | 11,2 | 13,4 | 14,9 | 10,7 | 8,1 | 12,5 | 8,9 |
| julho/05 | 9,5 | 12,7 | 15,7 | 8,2 | 7,2 | 9,9 | 7,0 |
| julho/06 | 10,8 | 15,3 | 14,4 | 9,1 | 8,7 | 11,3 | 8,7 |
| julho/07 | 9,5 | 12,6 | 14,5 | 7,3 | 7,1 | 10,3 | 7,5 |
| julho/08 | 8,1 | 10,1 | 12,1 | 6,8 | 7,3 | 8,3 | 6,0 |
| julho/09 | 8,0 | 10,2 | 11,4 | 6,1 | 6,3 | 8,9 | 5,8 |
| julho/10 | 6,9 | 10,0 | 12,3 | 5,1 | 5,4 | 7,2 | 4,8 |
| junho/11 | 6,2 | 6,1 | 10,2 | 4,6 | 5,3 | 6,6 | 4,8 |
| julho/11 | 6,0 | 6,3 | 9,8 | 4,7 | 5,0 | 6,5 | 4,7 |
Tem gente duvidando da matéria, mas é isso aí mesmo, vejo as vagas que são anunciadas no PAT de minha cidade , são um numero imenso de vagas e muitas não são preenchidas. Isso deve acontecer em varias cidades do Brasil.
Responder comentário | Denunciar comentárioQue atentado ao Português podemos observar no título desta matéria!! Não seria a CAPITAL DO EMPREGO PLENO!
Responder comentário | Denunciar comentárioParabens Belo Horizonte pela taxa de desemprego de 4,7%
Responder comentário | Denunciar comentárioGostaria também de saber sobre essas vagas sobrando no país, o que vejo são muitas pessoas qualificadas, universitários e técnicos, dando cabeçadas por aí, cada vez mais exigências e salários diminuindo, tem emprego sim, ou para ganhar salários humilhantes e pouquíssimos que pagam bem, esses principalmente vão para estrangeiros, que falam inglês, os empresários querem a coisa pronta, nunca investiram em qualificações e nem querem investir, quando acontece vão para a televisão falar que fizeram algo, não fazem mais que obrigação, pois ganham dinheiro aqui, muitas vezes, roubando, sonegando ou explorando mão de obra, isso, quando não fazem tudo isso e mais alguma coisa, não adianta é uma sociedade c/ 500 anos de mentira e usura.
Responder comentário | Denunciar comentárioSensacionalismo puro,tenho formação técnica e tenho que trabalhar de arigó para sobreviver pois não consegui sequer estágio na minha área!!!E agora vem dizer que está bombando o mercado de trabalho!!!!
Responder comentário | Denunciar comentárioVAMOS VER ATÉ ONDE VÃO ESTAS CONSTRUÇÕES, ONDE AS CONSTRUTORAS ESTÃO VENDENDO PELO TRIPLO VALOR CUSTOS E O GOVERNO APLICANCO JUROS ALTISSIMOS SOBRE O POVÃO, O VALOR FINAL Q O POVO PAGA CHEGA QUASE A 10 VEZES O VALOR DO CUSTO IMOVEL, QUANTAS PESSOAS VÃO AGUENTAR A PAGAR......ISTO É O X DA QUESTÃO
Responder comentário | Denunciar comentárioe para Finalizar o Colega que deu o ponta pé inicila na enquete,o Júnior foi infeliz em suas colocações,eu acho corretissimo que um azulejista ganhe R$4000,00,é justissimo que um Engenheiro ganhe duas vaezes mas,mas é bom lembrar que qualquer diplomado tem que provar ser merecedor de cada centavo,muito mas que um ajudante ou servente,quem é diplomado teve oportunidade de estudar independente da sua história de vida,quem tem Formação tem muito mas responsabilidades para responder pelos atos práticados em seu seguimento,sendo Engenheiro,Doutor ou Bacharel,portanto devemos ter mas cautela ao expressar certas opiniões,que podem causar uma impressão de que a possibilidade de uma vida melhor é para poucos,eu não compactuo com esta posição Colega,você foi infeliz
Responder comentário | Denunciar comentárioli varaias mensagens acima e pode-se verificar que não a um Dogma para esta situação em Porto alegre e também a um pouco de veradae em cada comentário,em Porto Alegre pagasse bem mas o custo de Vida é alto,o seguimento civil esta aquecido,mas como anda a Metalurgia por aquelas badas?.Até onde vale O canudo e o Conhecimento Prático?.Será que é esse mar-de-rosas mesmo?.Será que vale ganhar RS4000,00 longe de casa?.São perguntas que devemos nos fazer antes de nos sentirmos atraídos pelas reportagens,tem um colega Mineiro,que é Metalurgico tem 57 anos,tarimbado e esta desempregado nesta enquete,vamos refletir um pouco
Responder comentário | Denunciar comentárioAcho que para chegarmos a um desenvolvimento econômico é fundamental que as diferenças quanto as remunerações das classes de trabalhadores sejam minoradas. Somente com uma melhor distribuição de renda entre a população é que alcançaremos um desenvolvimento saudável da sociedade. É bom ressaltar que o que impulssiona a criminalidade é o sentimento de revolta de alguns que se sentem excluídos no sistema.....Sou arquiteto e possuo pós-graduação e não me importo que um colaborador operacional ganhe bem também. Afinal por que apenas os empresários têm que ter um lucro exorbitante?
Responder comentário | Denunciar comentáriomarcelo | 27/08/2011 07:07
parabéns pela visão.
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