Morador de rua
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Morador de rua


Moro no umbigo da cidade, no ponto onde Perdizes se une a Barra Funda e esta, a Higienópolis. Bem ao lado de Santa Cecília. Daqui, observo os sem-teto do centro de SP. Vivem da coleta de papel, em geral das caixas de papelão do delivery. Existem catadores "profissionais” que usam para transporte algo que já foi um carro. A maioria usa carroças que eles mesmos tracionam, como se fossem animais.


Moram na rua para ficar perto do trabalho; ir e voltar todos os dias custa caro. Não costumam se misturar com os crackeiros. Eles trabalham, outros não conseguem.

Entre os seus problemas - banheiros, alimentação, água potável, etc. - vejo um com cuidado: onde eles guardam documentos e remédios? Já que não têm casa, devem carregar consigo a quase certeza de que serão perdidos.

Outro dia, assisti a (mais) uma tentativa de retirada das barracas onde dormem, ali debaixo do Minhocão. Embora reze a lenda que as barracas foram ideia do Bruno Covas, seu sucessor (ex-vice) Ricardo Nunes deixou a "tigrada" da subprefeitura derrubar tudo e jogar no caminhão, de onde nada retornou. As dedicadas Assistentes Sociais da Prefeitura não foram vistas na região.

Documentos de identificação conseguidos em mutirões foram jogados no lixo junto com as barracas. Também foram descartados remédios fornecidos pelo SUS e tudo que estivesse ao alcance. É uma forma horrível de tratar seres humanos .

Fiquei envergonhado. A cidade pode mais, nós podemos mais. Então, falei com o Fernando Crivellenti, premiado design de móveis, que esboçasse um LOCKERarmário chaveado  – para os sem-teto. Imagino o que ele pensou quando ouviu a ideia.

LOCKER – armário chaveado
Reprodução

LOCKER – armário chaveado


Atendendo às especificidades do público e com normativo rigoroso para evitar o desvio de seu uso, temos uma demanda de 30 mil lockers, um para cada sem-teto da cidade.

Propus aos meus amigos e leitores que tentemos fazer um projeto-piloto, de 1.000 lockers. Cada armário terá 20 lockers. Inicialmente, teremos 50 armários instalados e funcionando – em operação piloto -, o que dá 1.000 lockers.

ACREDITO que meus leitores são pessoas que têm compromisso com a civilização ocidental e com nosso país, que pensarão numa forma de financiar e gerir esta iniciativa. Por que ocidental? Porque embora "nada saibamos do lixo ocidental”, (M. Nascimento) é nossa raiz mais evidente.

Essa ideia poderia ser patrocinada por uma empresa? Ou a associação de uma marca com os sem-teto é negativa?

São questões relevantes que terão que ser aprofundadas. Tudo pode mudar, mas a bola está rolando. Numa primeira abordagem, Crivellenti chegou a um custo de R$ 7 mil por armário de lockers, em aço.

Essa ideia não é minha. É baseada num programa alemão para os sem-teto de lá.

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