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França domina exportação para asiáticos, mas Itália usa até desfiles da Versace para aumentar vendas

Vinhedos franceses: com queda de consumo na Europa, chineses e americanos são tábua de salvação
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Vinhedos franceses: com queda de consumo na Europa, chineses e americanos são tábua de salvação
Os dias em que soldados franceses e trabalhadores italianos recebiam uma ração diária de um litro de vinho ficaram para trás. Até mesmo o almoço de três horas de Paris, acompanhado por alguns copos de vinho tinto, branco ou espumante, está sendo ameaçado pelo efeito devastador da globalização.

Em grande parte da Europa, o consumo de vinho está diminuindo cada vez mais. O mercado americano está um pouco melhor. Mas, para permanecer no jogo, a indústria está se esforçando para encontrar novos mercados, especialmente na Ásia.

Na China, talvez o país mais promissor da Ásia para os produtores europeus, a França tem sido a principal beneficiária do interesse crescente dos consumidores de vinho. Agora a Itália está tentando recuperar o atraso.

Esta semana, a feira de vinhos Vinitaly, realizada em Verona e que se apresenta como o maior encontro de entusiastas de vinho do mundo, com a presença de mais de 4.500 produtores de vinho e mais de 150.000 visitantes, os organizadores anunciaram uma parceria com a Feira Internacional de Vinhos e Destilados de Hong Kong, para promover as atividades uns dos outros.

Entre outras coisas, a Vinitaly incentivará produtores italianos a apresentarem seus vinhos no evento de Hong Kong – uma importante ferramenta promocional para uma indústria altamente fragmentada.

Globalmente, as exportações de vinho italiano aumentaram em 13 % no ano passado chegando a 4,4 bilhões de euros (US$ 5,8 bilhões), de acordo com a Vinitaly. Mas na Ásia, a Itália ainda precisa conquistar um espaço maior. Nos primeiros seis meses do ano passado, a França exportou 5,5 milhões de caixas de vinho para a China, e foi responsável por 48% do total das importações, segundo dados das aduanas chinesas. A Itália, com menos de 1 milhão de caixas exportadas, reivindicou apenas 8,3% das importações chinesas, colocando-a em terceiro lugar, atrás da Austrália.

"Precisamos nos esforçar mais para educar os consumidores", disse Lamberto Vallarino Gancia, presidente do grupo comercial Federvini. "Os consumidores asiáticos são muito voltados a marcas".

O atraso da entrada da Itália no mercado asiático contrasta com a sua força consistente nos Estados Unidos, onde é o maior produtor estrangeiro consumido. Em 2010, o país forneceu 30% do valor total das importações de vinho dos Estados Unidos, de acordo com o Departamento de Comércio, em comparação com os 24 % fornecido pela França.

Os laços culturais com os Estados Unidos têm ajudado os produtores italianos, pois os produtores franceses ainda estão se recuperando do sentimento anti-francês provocado quando o Paris se opôs à invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003.

Na China, por outro lado, os vinhos franceses são sinônimos de luxo e status. Vinhos de Bordeaux como o Lafite-Rothschild, Mouton Rothschild e Latour aumentaram drasticamente nos últimos anos, em parte por causa da demanda chinesa, disseram os revendedores de vinho. Investidores chineses chegaram a comprar vários castelos históricos em Bordeaux.

No entanto, hoje em dia, existem sinais de que o entusiasmo chinês pelos vinhos de luxo de Bordeaux possa estar diminuindo um pouco, devido ao aumento no preço do Lafite-Rothschild.

Será que essa é a oportunidade de que os italianos precisam? A Itália tem alguns vinhos notáveis, como o Sassicaia da Toscana e aqueles produzidos pela casa de Gaja na região de Piemonte, mas poucos deles chegam preços de quatro dígitos como acontece com os produtos de Bordeaux.

Para tentar fortalecer o vínculo entre os vinhos italianos e outros exemplos de coisas boas da vida nas mentes dos consumidores, a indústria vinícola do país recrutou a Fundação Altagamma, que representa casas italianas de moda e produtores de bens de luxo.

Santo Versace, irmão da estilista Donatella Versace e presidente da Altagamma, disse em uma entrevista durante a Vinitaly que os membros do grupo apresentariam os vinhos italianos em desfiles de moda e outros eventos ao redor do mundo.

"A moda, o design, as joias, a comida, a hospitalidade – tudo isso define a maneira com pela qual a Itália é identificada no exterior, que é ao mesmo tempo o que realmente move a nossa economia", disse Versace em um discurso preparado. Ele também disse que a promoção de "sinergia" entre estas indústrias pode ser benéfica.

Para promover a sua associação com a moda, a Vinitaly organizou uma degustação incomum na qual mais de 100 dos melhores produtores de vinho da Itália providenciaram os seus melhores vinhos para apenas convidados especiais - incluindo um grupo de críticos asiáticos, blogueiros e compradores.

Uma ação coordenada como esta é praticamente inexistente na indústria europeia do vinho, que celebra a diversidade de seus produtores, origens geográficas e diferentes estilos.

Thierry Desseauve, um crítico de vinhos franceses que promoveu vinhos franceses na Ásia, disse que os viticultores europeus devem olhar para além das antigas rivalidades que dividiram regiões vinícolas e países e que deveriam trabalhar juntos para promover seus produtos no crescente mercado asiático.

"Nós acreditamos que não existe apenas um país no mundo do vinho, mas uma civilização, principalmente uma civilização europeia, e precisamos desenvolver essa civilização na Ásia", disse ele na Vinitaly.


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