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Crescimento do país e imigração de jovens criaram problemas para empresas, que encontram dificuldades para encontrar funcionários

Crescimento econômico forte também traz efeitos colaterais. No caso do Uruguai, o resultado foi falta de mão de obra para tantas vagas. “Nosso Produto Interno Bruto (PIB) tem crescido a uma taxa média de 5% ao ano, desde 2003”, afirma Mariana Ferreira, analista da auditoria e consultoria uruguaia Ferrere, uma das maiores do país.

Ela diz que, nos últimos anos, o Uruguai passou por um processo de recuperação dos salários (altas de 3,6% em 2008, 7,3% em 2009 e projeção de 3,2% em 2010, segundo a Cepal) e queda do desemprego (para 7,1% da população urbana). Um dos reflexos foi a falta de gente para trabalhar.

Tata Consultancy criou centro de treinamento em Montevideo, diz Machin
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Tata Consultancy criou centro de treinamento em Montevideo, diz Machin

Federico Muttoni, diretor da Advice Consultoria, lembra que no começo da década de 2000 o país sofreu uma enorme crise, como efeito da desvalorização do real no Brasil. “Muitos foram despedidos e o desemprego chegou a 20% da população”, diz. Nesse cenário, muitas pessoas imigraram para Espanha e Estados Unidos. “Entre os que saíram do país estavam os mais especializados e os jovens”, afirma. “Com isso, o Uruguai tem, há anos, praticamente a mesma população, de cerca de 3,3 milhões de habitantes.”

A retomada do crescimento gerou pleno emprego em vários setores, mas também criou empregadores preocupados. Tecnologia da informação foi um dos segmentos mais afetados, diz Muttoni. “A sensação é de que, se não houver ajuste a tempo, teremos problemas”, diz. Segundo ele, o país precisa investir em cursos técnicos, escolas e universidades, como o restante dos parceiros do Mercosul.

O Brasil passa por situação semelhante. Em meados do ano passado, a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp) já apontava um apagão de mão de obra especializada. “Não tem gente para dar conta do mercado interno. Já temos aí um apagão de mão de obra especializada só para dar conta da demanda interna. Falta muita gente treinada, capacitada no cenário atual”, disse o professor Fernando de Souza Meirelles em entrevista à Agência Brasil.

A Advice mapeia demanda de trabalhadores no Uruguai a cada três meses. Segundo o último levantamento, o quarto trimestre de 2010 mostrou-se o momento mais crítico de procura das empresas por funcionários nos últimos três anos no Uruguai, com aumento de 45% sobre igual período de 2009. A alta é de114% sobre igual período de 2008, quando o mundo estava sob os efeitos da crise financeira. A comparação anual mostra aumento de 53% entre o ano passado e 2009.

No quarto trimestre, a área de administração foi a que mais demandou empregados, seguida pela comercial e depois logística e compras. No campo das profissões liberais, os contadores públicos foram os mais procurados, seguidos por médicos, advogados, engenheiros civis, veterinários, enfermeiros e arquitetos.

A Advice também fez uma pesquisa com 62 empresas que operam no Uruguai, para saber a intenção de contratação nos próximos três meses. Do total, 56% pretendem ampliar os quadros de funcionários. Ainda desse porcentual, as multinacionais são as que mais pretendem contratar, com 63% de intenção.

Criatividade, importação e educação

Quem sentiu na pele o problema foi a líder de TI no país, a indiana Tata Consultancy Services. “Ficamos sem pessoal por muito tempo e tentamos várias alternativas, até que, em 2007, inauguramos um centro de desenvolvimento com capacidade para treinar 700 pessoas”, diz Martin Machin, responsável pelo centro de entregas da companhia.

A companhia, um braço do grupo indiano Tata, iniciou operações no mundo em 2002. Hoje tem 174 mil funcionários em 42 países. No Uruguai, começou com 15 empregados. Hoje são mil. Ele conta que a empresa cresce a uma taxa de 30% ao ano. A segunda colocada no ranking de TI uruguaio é a IBM, com 300 funcionários.

Na Tata Uruguai, os problemas de contratação começaram a aparecer há quatro anos. “No Uruguai, a tecnologia da informação cresceu a serviço da indústria, que se desenvolvia”, diz. Antes de chegar à ideia de criar o centro de treinamento, a empresa tentou muitas opções. No começo, contratava grupos de 20, 30 pessoas, as deixava em treinamento de dois a três meses em tecnologias específicas, como os programas Java e Microsoft, para depois usá-las profissionalmente.

Quando começou a crescer, a empresa foi fazendo negócios cada vez maiores. “Eram 50, cem pessoas envolvidas”, lembra Machin, que é de Montevidéu e entrou no projeto quase no começo, em 2003.

Foi quando a empresa descobriu a diversificação. Para dar conta dessa demanda extra, a área de recursos humanos viu que não precisava contratar apenas profissionais de TI. “Percebemos que podíamos usar engenheiros e economistas em áreas que não necessitavam da formação específica.” Essa diversificação e o treinamento foram mesclados à contratação de profissionais de TI experientes de outros países. “Trouxemos 15 pessoas do Peru, com muito êxito. Também temos hoje profissionais do México, Colômbia e da Argentina.”

Segundo Machin, a situação fez com que a Tata se transformasse em pioneira em técnicas de recrutamento. “Chegamos a fazer feiras de emprego nas quais entrevistávamos mil pessoas por dia.” Atualmente, ainda há interfaces com faculdades.

A situação de TI no Uruguai tem semelhanças estruturais com o Brasil e com o mundo, diz Denis Ávila Montini, chefe de treinamento da Tata em São Paulo. Ele conta que a área de tecnologia da informação vai precisar investir sempre no aprendizado de funcionários. “Em áreas nas quais os desafios se alteram constantemente, treinamento é um problema sistêmico”, diz.

Segundo ele, antigamente os sistemas de TI se renovavam a cada dez anos. Hoje, as novidades chegam a cada seis meses. Ele conta que todas as sucursais da empresa no mundo criaram centros de treinamento, que podem ser adaptados de acordo com as necessidades do momento.

Na semana em que se completam 20 anos da assinatura do Tratado de Assunção, que consolidou a criação do Mercosul, o iG convida o leitor a descobrir como paraguaios, uruguaios e argentinos estão saboreando o melhor momento econômico das últimas décadas. Na primeira série de reportagens do projeto Expedições iG, você entenderá como o controle da inflação, a democracia e o crescimento contínuo do Brasil estão mudando a vida de pessoas e empresas dos nossos mais próximos vizinhos.

Veja as principais reportagens da série:

O Brasil cresce e muda a vida de pessoas e empresas do Mercosul
Soja se consolida entre vizinhos e ajuda Mercosul a crescer