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Tim Cook, que liderou lista de "gay mais poderoso" na revista Out, é visto como brilhante, "workaholic" e apaixonado pela empresa

Um artigo publicado ontem por Felix Salmon, colunista da agência de notícias Reuters, causou impacto ao anunciar, em tom de comemoração: – “Tim Cook é o gay mais poderoso do mundo”. Sucessor de Steve Jobs no comando da Apple, sob alguns parâmetros a empresa mais importante da atualidade, Timothy D. Cook, 50 anos, estará cada vez mais sob os holofotes. Tanto sob aqueles que jogam luz nos resultados técnicos do cargo, quanto os que focam os passos do CEO – ou, por outra, do homem – responsável por ocupar o lugar do mítico executivo que definiu uma era.

Tim Cook:
Getty Images
Tim Cook: "Amo a Apple e estou ansioso para mergulhar em minha nova função"
Filho do funcionário de um estaleiro e de uma dona de casa, Cook cresceu no Alabama (EUA). Formado em engenharia pela universidade de Auburn (no mesmo Alabama), trabalhou na Compaq e na IBM antes de chegar à Apple, em 1998. Ocupou uma série de gerências e vice-presidências até chegar ao cargo de COO, ou presidente de operações, além de membro do conselho da companhia.

Em tempos recentes, o novo líder da Apple havia se tornado o rosto da empresa num número crescente de oportunidades. Foi ele quem substituiu o ex-chefe no comando, durante seus afastamentos por motivos de saúde – na primeira ocasião, em 2004. Dessa vez, após a renúncia de Jobs, parece ter sido alçado ao cargo de forma definitiva. E, nos próximos – até hoje arrebatadores – lançamentos de produtos com o logotipo da maçã, ficará claro que Apple vive agora um novo tempo, com uma nova cara, que já começa a ser chamado de “era Cook”.

Mal teve o cargo atualizado no cadastro da empresa, Cook viu os mais diferentes aspectos de sua vida inundarem páginas e telas noticiosas. Desde o time de futebol americano pelo qual é fanático, a equipe da Universidade de Auburn, até o dinheiro que recebeu da Apple no ano passado – nada módicos US$ 59 milhões, ou R$ 94 milhões, uma remuneração bem superior à dos anos anteriores, devido a uma mudança compensatória no cálculo e à boa valorização das ações restritas que possui.

No artigo de ontem, Salmon lembra que o executivo não revela abertamente a opção sexual. Cook chegou a ocupar, em 2010, o primeiro lugar na lista de poderosos da revista Out, conhecida como “Out’s Gay Power List” – e, claro, é fortíssimo candidato a repetir a façanha neste ano. O ponto defendido pelo jornalista, no texto intitulado “Não ignore a sexualidade de Tim Cook”, é de que o fato deve ser comemorado, não escondido. “Quando você nos diz que é errado relatar a homossexualidade de uma figura pública, está dizendo que os gays não devem sair do armário e os jornalistas não devem dizer a verdade”, afirma, citando o autor Joe Clark.

O escritor e entusiasta da tecnologia Tim Bradshaw engordou o debate ao publicar, ontem, em seu Twiter, uma frase dizendo que não sabia que Cook era gay, mas que também não estava surpreso com o fato de a mídia ter ignorado a informação. Como era de se esperar, muitas respostas foram postadas para ele – e o assunto ganhou a rede de microblogs também. E mais não se falou sobre o assunto – sobre ele ser ou não casado, morar ou não com alguém – apenas porque Cook, como é praxe entre executivos da Apple, é extremamente discreto e pouco aparece em eventos sociais.

"Jobs é insubstituível"
A polpuda remuneração não é o único ponto no qual ele se mostra diferente de Jobs, que declarava ter um salário simbólico de US$ 1. Enquanto o fundador era eloquente e carismático, Cook é um típico engenheiro discreto e de pouca conversa. Numa reportagem recente do New York Times, foi definido como “soft-spoken and intensily private”, ou “de fala mansa e profundamente reservado”.

A diferença de perfis causou um quase consenso entre os analistas: nos próximos dois ou três anos, a liderança consolidada e a avançada tecnologia continuarão garantindo os lucros da Apple; depois disso, um visionário genial poderá fazer falta.

Ainda que alguns levantem dúvidas sobre se Cook terá a visão de Jobs, a indústria confia amplamente na sua capacidade operacional. Após treze anos na empresa, o executivo sempre foi apontado como competente, esforçado e brilhante. Foi ele quem bolou o complexo e bem-sucedido sistema de reposição de produtos Apple, conforme avançam suas gerações. Um perfil da Fortune Magazine sobre Cook, publicado em 2008, trazia um título categórico: – “O gênio por trás de Steve Jobs”.

Também não há dúvidas sobre sua devoção à companhia e à cultura que ela representa. No primeiro email enviado aos funcionários , ontem, Cook exalta Steve Jobs, garante que a empresa não vai mudar de rumo e afirma: “Eu amo a Apple e estou ansioso para mergulhar em minha nova função”. Ele é apontado por especialistas em tecnologia como a pessoa que mais conhece a cultura da companhia, além do próprio Jobs.

Após a renúncia de Jobs, na quarta-feira, as ações da empresa tiveram apenas uma queda leve ontem – de 0,65%. O fato de que o afastamento era esperado contou para evitar uma tormenta maior, mas, certamente, um grau de confiança em Cook também ajudou.

O próprio Cook já declarou que Steve Jobs é insubstituível. Por outro lado, em 1998, falando à revista Business Week sobre a empresa, Jobs disse: “A Apple não é um show de um homem só”. Logo as palavras serão postas a prova.