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Evento discute tendências que estão mudando empresas, processos corporativos e administrações públicas

Numa época em que uma rede social pode valer US$ 100 bilhões , um evento como a Campus Party vai muito além de nerdices e barracas de acampamento. Atentos à chamada "nova economia", os organizadores da quinta edição da feira , que termina no domingo, incluíram na programação uma série de palestras e oficinas sobre temas como empreendedorismo digital e negócios inovadores. Veja, abaixo, sete ideias que circularam no evento e parecem apontar para o futuro da economia, ou pelo menos parte dele.

A comunidade de campuseiros: um
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A comunidade de campuseiros: um "departamento de inovação" para muitas empresas
1) Empresas que usam "inovação aberta"
Nokia, Itaú, Telefonica, Submarino e outras empresas estão usando as mentes brilhantes dos jovens da Campus Party como uma espécie de "departamento de inovação" terceirizado. A ideia se chama open innovation , ou inovação aberta. Uma marca lança um desafio, do tipo "criar um aplicativo para organizar as finanças dos clientes do banco", ou "inventar uma plataforma para vender nossos produtos via celular". Os campuseiros, comunidade de 170 mil pessoas apenas no Brasil, mandam propostas e soluções. O autor da melhor leva um prêmio, normalmente um computador turbinado, ou algo com valor semelhante. "Além de ser mais barato para a empresa, elas conseguem encontrar ideias ‘fora da caixa’ [ surpreendentes ]", diz Tommaso Canonici, gerente de open innovation da Futura Networks, organizadora do evento. "Serve até para recrutar talentos", acredita.

Negócios sociais já têm plataforma digital de arrecadação e fundo de
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Negócios sociais já têm plataforma digital de arrecadação e fundo de "investimento de impacto"
2) Negócios sociais em favelas
Desde que as favelas cariocas começaram a ser pacificadas, vários tipos de negócios surgiram nas comunidades, como cursinhos noturnos (afinal, as pessoas podiam sair na rua à noite), serviço de mototáxi e venda de imóveis . O mesmo acontece em diversas periferias do Brasil, onde a diminuição da pobreza cria oportunidades de atividade econômica. A nova economia que reverbera na Campus Party se inclina também na direção dos chamados negócios sociais. Esses negócios já contam com plataformas virtuais para levantar fundos (como a Benfeitoria ), escritórios de trabalho compartilhado para juntar empreendedores com uma causa (como o The Hub) e até fundos de "investimento de impacto", como o Vox Capital. "Durante anos, discutiu-se formas de levar avanço social para as regiões desfavorecidas. Para nós, a chegada da atividade econômica é a grande forma de promover esse avanço", disse Daniel Izzo, co-fundador do Vox, em palestra da Campus.

3) Mundo corporativo vai virar "game"
A gamificação invadiu o mundo corporativo. A técnica de misturar elementos dos jogos – como dar recompensas em medalhinhas e estrelas, ou fazer os usuários passarem de fases – a assuntos "sérios" é usada para aumentar a produtividade de departamentos, estimular funcionários de call center e até incentivar pessoas a preencherem pesquisas de marketing.

Sede do Google: empresa pede que funcionários gastem 20% do tempo com projetos próprios
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Sede do Google: empresa pede que funcionários gastem 20% do tempo com projetos próprios
4) Empresas sem horários e pressão
O Google deu o exemplo, criando a "regra dos 20%": todos os empregados poderiam usar 20% do horário de expediente para trabalhar em projetos pessoais. Nesse tempo livre, um funcionário acabou inventando o revolucionário Google Earth. Mas não daria certo para uma companhia tradicional, não é? Bem, a rede de varejo Best Buy criou o ROWE ("results-only work enviroment", ou "ambiente de trabalho onde só importa o resultado"). Quer trabalhar em casa ou no parque? Não importa, desde que traga resultado. A ideia começou como projeto piloto num departamento, cresceu e já impacta positivamente a rede. "As ideias clássicas sobre gerenciamento não ajudam os negócios da nova economia, porque ela depende de pessoas criativas, que não se sentem motivadas por medo ou pressão”, diz Irene Tinagli, especialista em inovação da ONU e apontada pelo Fórum Econômico Mundial como uma das 200 pessoas abaixo dos 40 anos com capacidade de mudar o mundo. Para ela, vale o lema "hire hard, manage soft": "seja muito seletivo na contratação, mas, uma vez que você seleciona, dê ao funcionário liberdade e autonomia", disse ao iG a palestrante da Campus.

O ônibus hacker: empreendimento arrecadou R$ 58 mil em 50 dias
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O ônibus hacker: empreendimento arrecadou R$ 58 mil em 50 dias
5) Vaquinha virtual
A ideia do crowdfunding não é nova, mas ganhou destaque na Campus Party deste ano – talvez porque, enquanto algumas ideias que parecem brilhantes morrem, o financiamento coletivo virou uma realidade e já viabilizou um monte de projetos no Brasil. Funciona assim: alguém pede dinheiro (pouco dinheiro) para tirar um negócio do papel, oferecendo recompensas (também modestas) aos doadores. Se conseguirem levantar a quantia pedida no prazo estipulado, ótimo; se não, devolvem tudo, assim quem participou tem certeza de que só vai doar se o projeto acontecer. Um dos convidados da palestra sobre o tema foi Pedro Markun, responsável pelo “ônibus hacker”, iniciativa que usou um site de financiamento coletivo para arrecadar R$ 40 mil em 50 dias – no fim, eles conseguiram R$ 58 mil. “A ideia do crowdfunding é gênial, você gasta dez reais e passa a ser parte de um projeto que acha importante. É viciante, estou gastando uma grana nisso”, diz Markun. (Outras ideias que já circulam há algum tempo e foram destaque na Campus são o coworking e o crowdsourcing .)

6) Novas ideias? Recicle as antigas
"Os novos empreendedores ficam procurando a grande ideia, algo que vai transformá-los no próximo Bill Gates ou Mark Zuckerberg. Não vai acontecer", afirma Irene Tinagli, da ONU. A tecnologia fez surgir tanta coisa nos últimos anos – sites, sistemas de busca, redes sociais, aplicativos – que muitas ainda não se encaixaram para virar um negócio. Agora, a inovação não precisa ser algo completamente novo, pode ser uma recombinação de ideias velhas, acredita a especialista. "É mentira que uma ideia criativa deve ser radical, mudar o mundo, ser original e extravagante, ou mesmo divertida. O que a inovação precisa ser é útil, algo que resolva um problema real", diz.

O exemplo de Porto Alegre: tecnologia ajuda moradores a decidir investimentos da prefeitura
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O exemplo de Porto Alegre: tecnologia ajuda moradores a decidir investimentos da prefeitura
7) Poder público e a wikicidadania
O exemplo de Porto Alegre foi mencionado em várias palestras da Campus. Há cerca de oito meses, a prefeitura decidiu usar a inovação aberta (veja item 1) para resolver problemas em áreas como mobilidade urbana e saúde. Os desafios propostos tiveram centenas de ideias de solução, vindas do mundo todo. Uma delas vai criar uma moeda virtual para estimular a coleta seletiva de lixo, que dará desconto em imposto e passagens de ônibus. "Em junho, já devemos ter condições de implantá-la", diz Cezar Buzatto, secretário de governança da cidade. A capital gaúcha também pratica o orçamento participativo, que permite ao cidadão decidir para onde vai o investimento público. Além disso, criou o portoalegre.cc, uma plataforma onde as pessoas criam causas – como eliminar um foco de lixo, ou tapar um buraco de rua – e mobilizam empresas e vizinhos. "É uma experiência completamente inovadora, sem nenhum monitoramento, cada um pode colocar a causa que quiser ali", diz Buzatto. O Comitê Gestor da Internet apoia outra iniciativa pública de estímulo à nova economia: os "dados abertos". A ideia é que os governos abram seus bancos de dados para que empreendedores possam usá-los para criar softwares, aplicativos e outras coisas úteis.