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Impacto do mercado de trabalho aquecido pesou na inflação durante o ano

Os serviços e os preços administrados foram os principais responsáveis pela inflação mais salgada em 2011, refletindo o impacto do mercado de trabalho aquecido e do peso da inércia inflacionária. O primeiro grupo, formado por itens como aluguel, empregado doméstico, mensalidades escolares e conserto de automóvel, subiu 9% no ano passado, respondendo por 34% da alta de 6,5% registrada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - em 2010, os serviços avançaram 7,6%, contribuíram com 31,1% da inflação de 5,9%.

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Os cálculos são da LCA Consultores. Já os preços administrados (como tarifas públicas) subiram 6,2% em 2011, quase o dobro dos 3,13% do ano anterior. Com isso, responderam no ano passado por quase 28% do aumento do IPCA, uma fatia bem superior aos 15,5% de 2010. O grupo alimentação e bebidas, com alta de 7,19%, ainda teve um peso relevante na inflação de 2011, de 25%, mas bem abaixo dos 40% que haviam sido registrados em 2010.

Os serviços foram a principal fonte de pressão sobre a inflação, e assim devem continuar em 2012. Com perspectivas ainda positivas para o mercado de trabalho - a taxa de desemprego deve seguir bastante baixa -, o espaço para reajustar os preços deve seguir em aberto, num segmento em que não há concorrência externa.

O economista Fabio Romão, da LCA, estima que os serviços deverão subir 8,2% em 2012. Além da influência do mercado de trabalho, parte dos serviços sofre o impacto da inflação passada. É o caso dos aluguéis, corrigidos em sua esmagadora maioria pelo Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) acumulado em 12 meses. Esse indicador fechou 2010 acima de 11%, e foi perdendo força ao longo do ano passado, encerrando 2011 em 5,1%.

Com o mercado imobiliário ainda bastante aquecido, o item aluguel residencuial subiu 11% no ano passado. O comportamento dos preços administrados também evidencia o peso ainda elevado da inércia sobre os índices de preços no Brasil. Fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura, ele ajuda a entender por que o IPCA ficou num nível tão elevado em 2011 mesmo com a forte desaceleração da atividade econômica.

Hoje, muitas tarifas públicas, como as de energia elétrica e telefonia, não são mais corrigidas automaticamente pelos IGPs acumulados em 12 meses, mas a inflação passada continua a ter peso na definição desse grupo. Para 2012, a expectativa é de que os preços administrados subam menos. Num ano de eleições municipais, parte das prefeituras não deve reajustar as passagens de ônibus, como a de São Paulo, que promoveu um aumento de 11,1% em 2011.

Além disso, os analistgas contam com a revisão tarifária de algumas distribuidoras de energia elétrica, como a Eletropaulo, o que poderá levar até mesmo à queda de algumas tarifas. Para 2012, as avaliações apontam para um IPCA abaixo dos 6,5% do ano passado, com boa parte das apostas no intervalo entre 5% e 5,5% - os analistas ouvidos semanalmente pelo BC apostam em 5,32%.

Hoje, parece difícil que a inflação convirja para o centro da meta, de 4,5%. Se preços administrados e serviços devem ajudar o BC em sua tarefa, os serviços tendem a continuar bastante pressionados. Não é um quadro inflacionário dos mais preocupantes, mas tampouco é um cenário livre de riscos. A resistência dos preços de serviços ou uma eventual recuperação dos preços de commodities - hoje fora do radar dos economistas - podem dificultar uma queda mais expressiva do IPCA.

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