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Empresas ocupam antigos casarões e prestam serviços de velório para confortar os parentes e amigos dos mortos longe dos cemitérios

Marta Alcione Pereira, da Funeral Home: serviço de sopa no velório da madrugada
Alexandre Carvalho/FotoArena
Marta Alcione Pereira, da Funeral Home: serviço de sopa no velório da madrugada
Os donos de empresas funerárias têm sofisticado seus serviços como forma de atrair mais clientes. A novidade agora são as casarões para a realização de velórios, com serviços de bufê, segurança e manobristas.

“O que fazemos é amenizar o sofrimento, dar conforto para a família das pessoas que morrem”, afirma Marta Alcione Pereira, administradora da Funeral Home, em São Paulo. A empresa ocupa um casarão construído em 1928, que está em fase de tombamento nas imediações da avenida Paulista, na rua São Carlos do Pinhal.

Marta lembra que a casa foi aberta em 2008 como uma proposta inovadora, pela empresária Milena Romano, sócia do Cemitério Vale dos Pinheirais, localizado em Mauá, cidade da região do Grande ABC, e do plano funerário Plena Assistencial. “Somos pioneiros no Brasil”, afirma Marta.

Segundo a administradora, na casa há quatro salas para velórios, que podem ocorrer simultaneamente. Cada uma delas tem dois ou três ambientes. O serviço de chá e café pode ser incrementado com salgados ou até mesmo uma sopa servida na madrugada.

A casa conta ainda com serviço de manobristas e de seguranças. “Tiramos da família o trabalho de ir ao cemitério fazer a limpeza e o agendamento, e cuidamos do livro de condolências”, diz Marta, citando alguns serviços.

O aluguel de uma sala custa a partir de R$ 2.500 por dia. “Se a pessoa fizer um velório completo, com maquiagem, uma boa urna, aluguel da sala e flores para a decoração, irá gastar entre R$ 8 mil e R$ 12 mil”, exemplifica ela.

Nova casa

O empresário Haroldo Felício abriu sua casa para velórios em Belo Horizonte no último dia 30. A Funeral House também fica em um casarão antigo, mas neste caso já tombado pelo Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. “Podemos fazer até três velórios ao mesmo tempo”, conta.

Haroldo Felício, da Funeral House: ¿É um retorno lento, mas o negócio é um complemento às outras atividades¿
Washington Alves /FotoArena
Haroldo Felício, da Funeral House: ¿É um retorno lento, mas o negócio é um complemento às outras atividades¿
Felício tem dois cemitério na cidade. Um deles, o Bosque da Esperança, é o terceiro maior do Brasil, com 500 mil metros quadrados de área. Só perde em tamanho para o de Vila Formosa, em São Paulo, e para o Campo da Esperança, em Brasília.

Ele tem também um crematório e uma empresa funerária. “Os investimentos na Funeral House foram de R$ 2 milhões”, calcula, lembrando que o retorno se dará em quatro a cinco anos. “É um retorno lento, mas o negócio é um complemento às outras atividades.”

O empresário, que é presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, descarta que seu investimento revele uma nova tendência. “É difícil falarmos em tendência. Quem tem sofisticado os serviços são os próprios cemitérios. Há um espaço para casas como a nossa, mas ele ainda é pequeno.”

Jayme Adissi, que está há 40 anos no ramo, depois de trocar um restaurante que tinha em Ipanema pelo investimento em um cemitério em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, reforça a sofisticação das opções. “O setor está oferecendo mais serviços aos clientes”, diz. Em seus velórios, as famílias podem encomendar orquestras ao vivo e também serviço de bufê. “Vamos reformar as salas para colocarmos frigobar com água, chás e refrigerantes. É mais uma opção para as famílias.”

Paredes carmin

Além de dois cemitérios, Adissi tem um crematório e dois planos de assistência funerária com cerca de 60 mil segurados. “O cliente é o mesmo. O cemitério é a base de tudo.” O empresário conta que inovou quando abriu seu crematório, num dos cemitérios de Guarulhos, em 2004, o primeiro particular na região metropolitana. “Em todos os que conheço, a urna funerária desce. No nosso, ela sobe. A ideia é que está indo para perto de Deus”, afirma.

Segundo o empresário, que foi fundador do sindicato, o crematório foi desenhado pelo cenógrafo Cyro Del Nero, morto no ano passado, e que ficou conhecido por ter criado a abertura do Fantástico, da TV Globo, nos anos 1970, e a abertura de diversas novelas da emissora.

“Quando ele disse que iria pintar as paredes de carmim, pensei que estivesse ficando maluco”, lembra Adissi. E o próprio Del Nero deu a resposta: “É preciso colocarmos uma cor quente nas paredes, para acolher as pessoas”, afirmou, segundo o dono do crematório.

Em todos esses anos no setor, Adissi coleciona uma série de histórias. Uma delas, lembra, é a de uma antiga funcionária que, vira e mexe, quando entrava na sala dele dizia: “Desculpe, achei que você estivesse sozinho”. E ele: “Eu estava”, diz, rindo. Muitas dessas histórias estão no livro “Quem quer comprar um túmulo?”, de sua autoria, editado no final de 2010 pela Editora Urbana.

Jayme Adissi conta que o faturamento do seu grupo no ano passado chegou a R$ 18 milhões, com crescimento de quase 20% sobre 2009. “2010 foi um ano muito bom, apesar de termos crescido em todos os anos”, afirma. “O segmento todo tem tido expansão. Acho que isso se deve à melhoria da renda e do emprego da população”, diz o empresário.