Tamanho do texto

Mesmo fragilizados no embate com o governo, sindicatos franceses mantêm protestos marcados para amanhã e para a próxima semana

Os protestos tumultuaram as ruas, pararam refinarias de combustível e provocaram tensão nas periferias francesas, mas, na prática, tudo indica que a reforma das aposentadorias no país vai ser uma briga sem um vencedor claro. Ao menos, o consenso está longe de ser alcançado entre especialistas e os próprios políticos.

Se, por um lado, os sindicatos de trabalhadores se vangloriam de ter levado três milhões de pessoas às ruas contra o projeto de lei proposto pelo governo Nicolas Sarkozy, por outro os manifestantes não conseguiram forçar o governo a reabrir as negociações ou paralisar as votações no Parlamento.

Da parte do governo, a situação também não é favorável: embora tenha conseguido aprovar a reforma que desejava – o que por alguns é considerado uma vitória –, Sarkozy sai desta batalha mais impopular do que jamais esteve desde a sua eleição, em maio de 2007. A última pesquisa, divulgada no domingo pelo instituto Ifop, apontava que o presidente bateu o próprio recorde e conta com apenas 29% de popularidade, três pontos abaixo da sondagem anterior, que já correspondia ao seu nível mais baixo de desaprovação.

Os índices, no entanto, são insuficientes para convencer o especialista em movimentos sociais Guy Groux de que Sarkozy não é o grande vitorioso desta sequência de acontecimentos. “Apesar do que dizem as pesquisas, nós veremos bem claramente, daqui a alguns meses, que se existe um vitorioso. Essa pessoa se chama Nicolas Sarkozy. Ele tinha uma reforma para aprovar, e ele a aprovou”, explica o pesquisador da renomada Sciences Po, o Instituto de Estudos Políticos de Paris. “Ele quis se mostrar como um homem forte de Estado diante do seu eleitorado e conseguiu.”

O cientista político lembra que, embora 69% dos franceses tenham apoiado os protestos contra a reforma, em outra pesquisa 52% deles disseram que são a favor de uma reforma das aposentadorias. “Sendo assim, um psicanalista seria mais útil para explicar essa esquizofrenia da população do que um cientista político”, brinca.

Groux lamenta que os sindicatos não tenham conseguido nenhuma vitória desde que as mobilizações se fortaleceram, em setembro. Antes disso, por pressão dos trabalhadores, o governo havia concordado em atenuar a situação dos trabalhadores em profissões penosas, como a construção civil. Mesmo assim, o analista considera que os sindicatos não foram fortes o suficiente para mobilizar os trabalhadores em uma greve geral, único artifício que poderia frear a reforma, segundo ele.

Esforço de Sarkozy pela reeleição

No entanto, um colega de Groux, o sociólogo Claude Dargent, da Universidade Paris VIII, julga que a impopularidade de Sarkozy não deve se reverter tão cedo e que a sua determinação em aprovar a reforma vai ser jogada contra ele. O professor avalia que os sindicatos, ainda que não tenham obtido concessões, saem vencedores por terem mantido a união contra o projeto de lei e conquistado o apoio da opinião pública.

“Agora, Sarkozy vai fazer de tudo para que todo mundo esqueça dessas manifestações, para tentar ter alguma chance de conseguir se reeleger em 2012, o que eu acho muito improvável”, disse Dargent, lembrando que os rumores sobre a reforma ministerial, que deve incluir a mudança do primeiro-ministro, François Fillon, está voltando com toda a força na pauta do governo desde a semana passada. Conforme Dargent, trata-se de uma estratégia clara para desviar as atenções imediatamente. “Enquanto isso, a esquerda vai se revalorizar e apostar na promessa de reverter essa reforma para conquistar apoio nas próximas eleições. Se a esquerda for eleita, essa reforma vai ser revertida e vamos voltar a ter aposentadorias aos 60 anos.”

Manifestante usa máscara do presidente francês, Nicolas Sarkozy, durante manifestação contra a reforma previdenciária realizada na semana passada em Lille
Yves Herman/ Reuters
Manifestante usa máscara do presidente francês, Nicolas Sarkozy, durante manifestação contra a reforma previdenciária realizada na semana passada em Lille

Ontem, os líderes sindicais já abriram negociações com os representantes patronais, num sinal evidente de que migraram da oposição inflexível para a negociação. Bernard Thibault e François Chérèque, os presidentes dos dois maiores sindicatos (CGT e CFDT), estimam que o movimento ainda não acabou, mas vai precisar “tomar outras formas”. A ideia, afirmam, é conseguir ao menos alguns na lei antes que o texto seja promulgado, na metade de novembro. “Nós não colocamos em questão a legitimidade do Parlamento, mas o presidente da República sempre pode reabrir um debate para que uma lei seja cada vez mais adequada”, afirmou Chérèque em um programa de debates no canal France 2.

Apesar de o movimento estar fragilizado em consequência da aprovação da lei, os sindicatos mantêm as duas próximas datas de protestos nacionais, 28 de outubro e 6 de novembro.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.