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NOVA YORK - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, acredita que o governo norte-americano, mesmo contra a vontade, terá de estatizar ou nacionalizar os bancos que têm graves problemas financeiros. Eles não têm saída.

Tanto que já estão fazendo na marra", disse ontem o ministro em entrevista coletiva. Ele chegou a Nova Iorque, após participar em Londres da reunião preparatória para o encontro dos líderes do G-20, em 2 de abril.

Segundo Mantega, os norte-americanos não se sentem à vontade para falar em estatização ou nacionalização de bancos "por razões ideológicas". Nacionalizar, segundo o ministro, traz mais segurança ao contribuinte, pois os recursos gastos para sanear a instituição garantem que ela não quebre. Comprar só a parte ruim das instituições, disse ele, é complicado. " Se pagar muito pela parte ruim, o contribuinte reclama na justiça. Se pagar pouco, o banco quebra. "
O ministro também adiantou alguns pontos em que já há acordo entre o Brasil e os Estados Unidos e que serão discutidos em um grupo de trabalho antes da reunião do G20. A ação conjunta foi fechada durante encontro, no sábado (14), em Washington, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama. Segundo Mantega, os dois países concordam em apostar em mais política fiscal - investimentos do estado - e monetária - baixando os juros básicos.

Mantega também defende mais regulamentação das instituições financeiras internacionais, mas disse ter dúvidas sobre a ideia defendida por países como França e Alemanha da criação de um organismo que chamou de a "OMC (Organização Mundial do Comércio) dos bancos". Ele acha uma boa medida, desde que não seja formado como o Fundo Monetário Internacional (FMI), com assimetrias muito grandes no poder de decisão. Estados Unidos e o Reino Unido não aceitam a proposta.

Sobre essa regulamentação para fundos de investimentos, Mantega defende que seja feita "com calma, sem assustar os investidores atuais, o que pode trazer ainda mais problemas". Para ele, o prioritário é "tirar a toxidade" e sanear o sistema financeiro, o que trairia confiança e ajudaria a resolver o problema da falta de crédito. Segundo o ministro da Fazenda, a crise internacional está "engasgada" porque os ativos tóxicos (empréstimos de difícil recebimento pelos bancos) continuam nas instituições.

Outro consenso, disse o ministro, é a necessidade de que os países emergentes, muito afetados pela fuga dos capitais na crise, recebam mais investimentos e empréstimos estrangeiros. Esse desequilíbrio, diz o ministro, gera falta de crédito para exportação e afeta o comércio internacional como um todo. Para ajudar a coordenar o fluxo de capitais, está em estudo o fortalecimento do FMI. Mas é uma questão também, segundo Mantega, que precisa ser bem pensada.

"O FMI precisa ser reformado. Tenho dúvidas sobre fazer uma grande captação de recursos para o FMI", disse Mantega. Ele defende que os países possam fazer aplicações voluntárias: "Quem tem mais reservas, pode colocar mais dinheiro no FMI".

Segundo ele, só a China tem melhores condições que o Brasil para deixar a crise para trás. "Nossa capacidade fiscal é maior, pois poupamos antes." disse Mantega. "Os chineses têm dois trilhões de dólares em reservas internacionais, e os bancos não quebram. Podem ser agressivos na distribuição de crédito, estimular o mercado interno e os investimentos. O crescimento do PIB pode até carir, mas é de 12% para 6% ao ano, podendo subir para 8%."
Mantega não quis falar muito sobre dados específicos sobre o Brasil, pois este será o tema de sua palestra nesta segunda-feira, em um seminário em Nova York sobre oportunidades de negócios no país. Mas avaliou que o Brasil já dá sinais de que pode sair mais rapidamente da crise. O ministro citou a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de fevereiro, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números do mês passado ficaram acima daqueles registrados em janeiro.

(Agência Brasil)

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