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Primeiro grande banco a divulgar o balanço do exercício de 2008, o Bradesco indicou ontem a tendência que deve ser observada nos resultados das outras instituições financeiras que operam no País: queda do lucro decorrente do aumento das provisões (reservas) para enfrentar o aumento do calote no primeiro trimestre de 2009, dado como certo por analistas e pelos próprios banqueiros. O segundo maior banco privado do Brasil, atrás agora do Itaú-Unibanco, lucrou R$ 7,62 bilhões no ano passado, queda de quase 5% em relação a 2007.

Logo no início da apresentação dos números, o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano (que em março será substituído por Luiz Carlos Trabuco Cappi), informou que o banco decidiu fazer provisão adicional de R$ 597 milhões no 4º trimestre por causa do provável aumento da inadimplência, especialmente entre empresas.

Entre outubro e dezembro, o lucro líquido foi de R$ 1,6 bilhão, quase 27% inferior ao do mesmo período de 2007 (quando os ganhos alcançaram R$ 2,19 bilhões). O resultado ficou um pouco abaixo das projeções dos analistas. Apesar disso, os especialistas consideraram os números satisfatórios, sobretudo por causa do difícil ambiente econômico-financeiro do quarto trimestre de 2008.

"O resultado da operação foi sólido, com forte crescimento da carteira de crédito", escreveram, em relatório, os analistas da Fator Corretora. "O Bradesco fez um movimento prudencial, se antecipando à provável piora da inadimplência, principalmente entre as pequenas e médias empresas", disse Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating.

As ações preferenciais do banco caíram 2,31% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), um desempenho parecido com o do restante do setor ontem. Os papéis preferenciais do Itaú, por exemplo, recuaram 2,83% e as ações units do Unibanco, 2,44%.

Normalmente, os indicadores de calote crescem nos primeiros trimestres. Em 2009, a alta projetada por analistas é ainda mais expressiva por causa do aumento do desemprego e da redução da oferta de crédito. Os dois fatores são consequência da crise global. No Bradesco, os primeiros sinais de avanço da inadimplência apareceram já no 4º trimestre.

Nas pessoas físicas, o índice que mede os atrasos superiores a 90 dias subiu de 6,6% no terceiro trimestre para 6,7% entre outubro e dezembro. Nas pequenas, médias e microempresas, foi de 2,4% para 2,7%. Nas grandes companhias, saiu de 0,3% para 0,5%.

O analista Jayme Alves, da Corretora Spinelli, observou que o Bradesco tinha, em 31 de dezembro, um excedente de provisão equivalente a 65% dos débitos em inadimplência. Em outras palavras, as reservas do banco cobriam inteiramente as perdas com dívidas não pagas acima de 90 dias e ainda sobraria 65% do total.

Mesmo assim, ele lembrou que não faz muito tempo a chamada Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) foi maior no Bradesco do que em dezembro passado. "No início de 2003, com um cenário econômico até mais difícil do que o atual, chegou a 7,6% da carteira de crédito. Em dezembro, estava em 5,9%", disse. Isso indica, argumentou, que as provisões podem crescer mais.

Em 2008, a carteira de crédito do Bradesco cresceu 33,4%, para R$ 215,3 bilhões. Os empréstimos para empresas avançaram mais (38,6%, para R$ 141,6 bilhões) do que para pessoas físicas (24,4%, para R$ 73,8 bilhões). Para este ano, Cypriano informou que a expectativa é de um crescimento entre 13% e 17%, puxado pelas empresas.

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