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O empresário e piloto Marcos Valdir Dias, de 46 anos, costuma dizer que os aviões experimentais são caixões voadores. Quando um amigo fala em comprar um ultraleve, pergunto se ele fez um bom seguro, para a viúva não ficar desamparada.

" Dias sabe do que fala porque teve um ultraleve. Em abril de 1999, ele saiu do aeroporto de Sorocaba com um amigo e o motor do aparelho sofreu uma pane. "Caímos dentro do cemitério e sobrevivemos por milagre, embora muito feridos."

Dono de uma oficina de manutenção de aeronaves homologada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), ele conta que poderia ganhar mais dinheiro fazendo a manutenção de aviões experimentais. "Não mexo com isso para não ficar com dor na consciência." Ele acredita que boa parte da aviação experimental é de aviões de "fundo do quintal", feitos com material de má qualidade e peças de origem duvidosa.

"Qualquer um pode importar um kit, montar o avião na garagem da casa e depois sair por aí", afirma Dias. O kit com motor, hélice e peças principais custa a partir de R$ 25 mil. Já são várias as empresas que importam o kit. As vendas são feitas pela internet.

Para pôr o avião no ar, basta enviar fotos do aparelho e um pedido de registro à Anac. O órgão expede o Certificado de Autorização de Vôo (CAV) e o avião passa a compartilhar o espaço aéreo com as aeronaves comerciais. "O setor que a Anac fiscaliza, há normas e exigências para tudo e não se pode trocar uma peça sem que haja um relatório para preencher. A aviação é séria, mas, quando puxa para o lado experimental, aí vira bagunça", diz Dias.

Não é o que acha Jair Italiani, de Indaiatuba, que está construindo um ultraleve AC-15 em sua garagem. Ele criou um blog (http://construindoumac15.blogspot.com) para narrar a experiência. O projeto segue devagar "porque a grana é curta", reclama. O presidente da Associação Brasileira de Ultraleve, Gustavo Henrique Albrecht, diz que a entidade decidiu criar um selo de qualidade para as oficinas, porque "tem muito picareta por aí".

Fiscalização

A Anac diz que não está entre as suas atribuições fiscalizar os aviões experimentais. Para emitir o certificado de autorização de vôo, não há necessidade de inspeção. A responsabilidade é do dono da aeronave e do piloto. A operação de vôo, no entanto, precisa ser autorizada pelas autoridades do controle de tráfego para não interferir nas rotas da aviação comercial. Se um avião experimental entrar no espaço aéreo regulado, o controle aéreo informa a Anac e o aparelho pode ter o certificado suspenso. As sanções podem atingir também o dono e o piloto.

Dias assegura que há aviões experimentais que acabam usando o mesmo espaço aéreo da aviação comercial. "Um ultraleve com rádio e transponder consegue pousar até mesmo no Campo de Marte."

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