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Gourmets de Zurique querem aspargos da Califórnia; tecidos de Milão tendem ao borgonha e canela e modelos de sapatos do Brasil "são os mais feios do mundo", constatam

Ele certamente não é o que se esperaria de um crítico de moda, trabalhando no setor de carga do Aeroporto Internacional John F. Kennedy. No entanto, certos instantes não escapam ao olhar de Rich Burkhardt: como a vez em que um agente da alfândega abriu uma caixa do Brasil e, ao inspecionar seu conteúdo, descobriu um par de sapatos de couro envernizado com estampas de animais exóticos.

"Eu disse 'Meu Deus, são os sapatos mais feios do mundo'", lembra-se Burkhardt. "Não deu outra. Algumas semanas depois, entrei com a minha mulher na Nordstrom e lá estavam eles."

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Nova York é repleta de pessoas tentando descobrir qual é a próxima grande tendência, mas poucas têm acesso ao espaço onde Burkhardt trabalha: o armazém de carga da American Airlines, no Aeroporto JFK.

O espaço, pouco menor do que dois campos de futebol americano, é discreto e afastado dos terminais principais, longe dos olhos de quem visita o aeroporto. Mas todo os dias cerca de 450 mil quilos de importações e exportações passam pelo local, tornando-o o maior terminal de carga da região. As mercadorias que passam pela triagem oferecem aos 275 funcionários da American Airlines que trabalham no local um vislumbre do que o mundo está prestes a vestir, comer e vender.

William Figueroa despacha encomendas no terminal de cargas no terminal da American Airlines do aeroporto JFK, em Nova York: vislumbre do que o mundo vai vestir
Ruth Fremson/The New York Times
William Figueroa despacha encomendas no terminal de cargas no terminal da American Airlines do aeroporto JFK, em Nova York: vislumbre do que o mundo vai vestir

Em uma tarde recente, em meio ao bate bate constante das empilhadeiras que deslizavam pelo chão, funcionários do terminal conversavam sobre como os gourmets de Zurique têm demonstrado interesse no aspargo da Califórnia, e como os últimos tecidos de Milão têm tendido a tons borgonha e canela.

Eles discutiram o fato de estarem vendo menos cartas dos Estados Unidos ultimamente, e que conseguem perceber quando uma empresa farmacêutica perde as suas patentes: as versões genéricas dos remédios lotam o armazém de repente.

"Nós vemos as coisas antes", disse Burkhardt, diretor administrativo do setor de carga da American Airlines. "Vemos os produtos chegando, como uma crista de onda, antes de entrarem de fato no país ou no exterior."

Funcionários descarregam Boeing 767 da American Airlines: motores de Stuttgart, rolos de tecido de Milão e porcini da África do Sul, entre outras preciosidades
Ruth Fremson/The New York Times
Funcionários descarregam Boeing 767 da American Airlines: motores de Stuttgart, rolos de tecido de Milão e porcini da África do Sul, entre outras preciosidades
Em muitos aspectos, o terminal de carga se assemelha aos terminais de passageiros, com áreas designadas para importações e exportações e uma enorme máquina de raios x para a triagem de embalagens mais estranhas.

No setor de partidas, as mercadorias são separadas por aeroporto. Sob a placa do Aeroporto Charles de Gaulle, de Paris, havia contêineres de embalagem a vácuo com 2.000 lagostas cada. Sob a placa que indicava os artigos que seriam enviados para Miami, havia pilhas de jornais que faziam o trajeto entre o Queens e as ilhas Bermudas, além de um caixão enviado do Brooklyn para o Panamá, com o nome do falecido escrito em cima em caneta verde. (Segundo funcionários da companhia aérea, o terminal despacha 450 restos mortais por ano, a maioria deles para a América Latina.)

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O setor de chegadas estava mais caótico. Havia 63 motores de Mercedes chegando de Stuttgart, na Alemanha, gigantescos rolos de tecido de Milão e uma embalagem de couro marrom do tamanho de um pequeno carro, vinda do Peru.

Carlos Alfaro, que trabalha no setor de vendas internacionais da Baldor Specialty Foods, no Bronx, disse que seus funcionários apanham oito contêineres de comida no Aeroporto JFK todas as noites: vagens do Peru, ameixas-caranguejeiras da Nova Zelândia e cogumelos "porcini" da África do Sul. Seus funcionários entregam os alimentos na manhã seguinte para restaurantes como o Four Seasons.

Separação de cargas no terminal da American Airlines no aeroporto JFK: empresa em dificuldades deve colocá-lo à venda
Robert Stolarik/The New York Times
Separação de cargas no terminal da American Airlines no aeroporto JFK: empresa em dificuldades deve colocá-lo à venda
O mercado parece estar crescendo para alguns artigos. Wesley Wheeler, diretor executivo da Marken, que transporta produtos farmacêuticos, disse que até 5.000 pacotes da empresa passam pelo terminal de carga todo mês. Ele disse que muitas companhias farmacêuticas locais exportam remédios para males como doenças cardíacas e depressão para a Europa, onde eles são submetidos a testes clínicos.
"É um setor em expansão", disse Wheeler. "Imagine quantos remédios estão sendo desenvolvidos a todo momento."

Em outros setores, o mercado está em decadência. Jim Mullen, diretor de transportes da Worldwide Perishables, que exporta lagostas através do terminal de carga para lugares como Paris e Barcelona, disse que tem exportado menos lagostas ultimamente. Segundo ele, os europeus já não estão esbanjando tanto dinheiro e comendo fora como costumavam fazer.

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"Acredito que a situação na Europa esteja piorando", disse Mullen. "Não estou demitindo ninguém, mas também não estou contratando."

A própria American Airlines também está passando por problemas financeiros, e ainda não está certo o que acontecerá com os funcionários do setor de carga à medida que a companhia entra em processo de falência.

David R. Brooks, presidente do setor de carga da American Airlines, disse que a companhia aérea já apresentou uma proposta para o Sindicato dos Trabalhadores de Transporte para a terceirização de grande parte das operações de carga até o outono do Hemisfério Norte. Ele afirmou que as negociações a respeito "dessa e de outras alternativas de reestruturação" estão em andamento. O sindicato se negou a comentar a proposta.

Apesar disso, especialistas em transporte afirmam que terminais de carga como o do JFK são essenciais para a economia da região.

Robert M. Gottheim, diretor distrital do deputado Jerrold L. Nadler, disse que os aeroportos são o carro chefe das agências de transporte, como a Capitania dos Portos de Nova York e Nova Jersey, gerando muito mais lucro do que outras fontes, como os pedágios sobre pontes e túneis. Segundo Gottheim, o setor de carga é especialmente lucrativo, porque as empresas pagam o que for preciso para transportar certos bens perecíveis com rapidez.

"Esses terminais não deixarão de existir", disse Gottheim por e-mail. "O transporte aéreo de cargas, que é mais voltado para artigos de luxo, é uma parte essencial do Aeroporto JFK, e contribui enormemente para o seu lucro."

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